Kamigawa: Neon Dynasty

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

16/12/2021 | Por Akemi Dawn Bowman

Histórias de Origem de Kaito: Um Teste de Lealdade & O Caminho a Seguir

Um Teste de Lealdade

A rua estava apinhada de kami esta noite. O Festival das Lanternas era um dos favoritos para muitos dos espíritos amantes da noite de Towashi. Em qualquer outro dia, Kaito poderia ter apreciado a camuflagem extra. Parte do seu trabalho exigia a habilidade de se mover pelas ruas sem ser visto — e hordas de kami eram uma solução ideal. Mas ele estava ficando sem tempo. Se não terminasse o trabalho logo, perderia um dia de pagamento para outro Cobrador.

[Arte de: Nils Hamm

Não levou muito tempo para Kaito encontrar seu alvo. Apostadores eram notoriamente ruins em guardar segredos, e este tinha um histórico de dívidas e amizades azedadas. Mas se Kaito se movesse cedo demais, correria o risco de assustá-lo. E em uma noite como esta, com multidões densas e uma abundância de exibições de fogos de artifício, havia mil lugares para um estranho se esconder.

Um grupo de crianças passou correndo por Kaito com velas de faíscas em seus punhos, gritando de deleite. Ele estremeceu com o som.

Fazias apenas um ano desde que a imperatriz desapareceu. Doze meses desde que Kaito perseguiu o estranho misterioso para fora do templo de Kyodai.

O resto de Kamigawa podia estar seguindo normalmente, mas quando Kaito via as lanternas vermelhas brilhantes do festival flutuando pelo céu, os espetos de bolinhos de arroz embebidos em calda em cada barraca de rua, e o Kami da Folia Exultante resplandecendo pelos telhados em toda a sua glória cintilante, ele não sentia um pingo de alegria. Tudo em que conseguia pensar era em sua amiga.

Kaito guardaria sua celebração para o dia em que a imperatriz voltasse para casa.

Ele deu um passo sob a cobertura de guarda-sóis de neon que mantinha os vendedores de rua abrigados, onde um trio de kami elétricos discutia perto de um dos aquecedores externos falhando. O menor dos três espíritos saltou, e as esferas de metal flutuantes ao redor de seu corpo de estilo industrial brilharam com irritação. Kaito levantou uma mão para proteger os olhos da luz forte, piscando várias vezes antes que os kami se espalhassem pela rua para encontrar outra fonte de energia. Quando sua visão se reajustou, ele tinha quase certeza de que perdera o alvo de vista completamente.

E ele provavelmente teria perdido, se não fosse pelo casaco berrante do homem.

As bordas brilhavam em um amarelo fluorescente, e o resto era estampado com carpas koi holográficas e brilhantes. Era uma escolha ousada para um homem que devia dinheiro a Satoru Umezawa.

Mas havia algo nos festivais que enganava as pessoas, fazendo-as baixar a guarda.

Silenciosamente, Kaito se aproximou do homem vestido de amarelo, observando enquanto ele se acomodava em uma das cadeiras de madeira finas do lado de fora de uma barraca de curry. Ele se inclinou sobre a mesa, falando em palavras apressadas e soltas com uma mulher com farinha espalhada pela testa e gotas de curry respingadas em seu avental.

Os Cobradores de Hyozan não quereriam testemunhas. Kaito precisava ter cuidado.

Ele escorregou entre os clientes que se aproximavam, movendo-se como se não fosse mais do que um fiapo de fumaça nas sombras. Ele passou por trás do homem sem parar e, em um movimento fluido de sua mão, Kaito alcançou o interior do casaco do homem e retirou sua carteira.

O homem não sentiu nada. Kaito se certificou disso.

Seguindo a multidão em movimento até a borda do mercado, Kaito se distanciou do alvo. Quando teve certeza de que não fora seguido, Kaito parou na esquina da rua, abriu a carteira e contou as cédulas translúcidas dentro dela.

A maioria das pessoas em Kamigawa estava mais feliz usando chips de crédito presos aos pulsos, mas qualquer um com inclinação para o jogo não seria tolo o suficiente para usar tecnologia vestível. Aqueles que frequentavam os antros de cartas de Towashi tinham um ditado: arrisque apenas o que estiver disposto a perder. Para evitar a tentação de arriscar tudo, os apostadores preferiam dinheiro físico em vez de chips de crédito.

Para a sorte de Kaito, ele aprendera algumas novas habilidades ao longo dos anos — bater carteiras sendo uma delas.

Ele folheou as notas, contando uma segunda vez apenas para ter certeza, antes de retirar um tablet em miniatura de seu bolso. Um dia, ele esperava poder pagar por tecnologia de mãos livres como as lentes de retina que vira alguns dos outros Cobradores usarem, mas por enquanto, o comunicador desatualizado teria que servir.

O dispositivo escaneou seus olhos e um holograma borrado se materializou. Kaito acenou com um dedo, percorrendo os detalhes de cada listagem ativa, até que uma imagem pixelada do rosto do apostador apareceu. Abaixo estava o nome do homem, quanto dinheiro ele devia a Satoru e pistas sobre onde ele poderia estar se escondendo.

Kaito digitou uma mensagem codificada no dispositivo e apertou enviar. A listagem do alvo piscou de azul para vermelho antes de desaparecer. No espaço que deixou para trás estava a palavra "Concluído".

Por toda Kamigawa, os Cobradores de Hyozan receberiam o mesmo alerta.

Eles saberiam que Kaito concluíra outro trabalho e que ele estaria a caminho do antro de Satoru na Cidade Baixa para coletar a recompensa.

Kaito guardou o dispositivo de volta no bolso, com o som dos tambores do festival e dos fogos de artifício ecoando atrás dele. Era verdade que ele não estava pronto para celebrar — mas isso não significava que não estivesse com fome. Kaito puxou algumas das notas extras da carteira do apostador, caminhou até a barraca mais próxima e comprou o maior espeto de bolinhos que conseguiu encontrar. Enquanto seguia para a estação de trem, com shoyu pingando por sua mão, Kaito decidiu que, embora trabalhar para Satoru não tivesse sido sua primeira escolha, ser um Cobrador tinha suas vantagens.


A Cidade Baixa era sombreada por arranha-céus imponentes e cerejeiras vibrantes que falhavam em mascarar o fedor dos esgotos a céu aberto próximos. Kaito vinha fazendo trabalhos para os Cobradores de Hyozan por quase um ano. Ele se acostumara com as piores partes das entranhas de Towashi. Ele até se acostumara com as pessoas — e elas eram muito piores do que qualquer coisa que saísse do esgoto.

Kaito ergueu o pulso em direção à porta em painéis, e uma luz vermelha escaneou o cartão de acesso vestível. A segurança era branda em comparação ao Palácio Imperial, mas ninguém com bom senso jamais tentaria invadir o território dos Cobradores. Um sistema de segurança era meramente uma formalidade.

A porta deslizou, e Kaito seguiu uma escadaria de metal até um amplo saguão onde mesas de cartas espalhavam-se pela sala e um balcão de neon se estendia pela parede dos fundos. Cobradores estavam empoleirados em cadeiras e parados em vãos de portas, a maioria com os rostos parcialmente escondidos por máscaras elaboradamente decoradas com dentes e chifres afiados. Tatuagens coloridas eram visíveis em seus braços. Alguns dos subordinados tinham apenas uma ou duas, mas os figurões tinham tatuagens que se espalhavam de seus pulsos até os ombros.

Para a maioria dos Cobradores, sua tatuagem de lealdade fora a primeira. Se traíssem Satoru, a marca de iniciação corroeria sua carne, eventualmente levando a uma morte lenta e dolorosa. Kaito não era o subordinado mais jovem entre eles, mas estar prestes a fazer dezesseis anos o tornava jovem o suficiente para evitar a iniciação.

Ele tentava não pensar em quanto tempo aquilo duraria.

Não era que Kaito pretendia ser desleal. Satoru lhe dera um emprego, afinal, sem mencionar um lugar para morar e comida para comer. Se não fosse pelos Hyozan, Kaito ainda estaria vagando por Towashi, sobrevivendo das poucas moedas que conseguia catar nas sarjetas — e talvez mais algumas dos bolsos de estranhos desavisados.

Mas Kaito não se juntara aos Cobradores de Hyozan pelo dinheiro. A extensa rede da gangue lhes dava acesso a cada fragmento de informação criminosa que existia. Se alguém soubesse de um homem com um braço de metal, seriam os espiões de Satoru.

Se isso significasse encontrar o agressor da imperatriz, Kaito aceitaria uma tatuagem de lealdade e ficaria na Cidade Baixa pelo tempo que fosse necessário. Era um preço pequeno a pagar para trazer sua amiga para casa.

Uma figura robusta usando uma armadura esculturada de inseto barrou o caminho de Kaito, com sobrancelhas grossas como lagartas. Ele bufou, com o hálito azedo e os olhos injetados de sangue. "Você roubou o meu alvo."

Kaito observou a katana do homem, com as bordas brilhando em um vermelho implacável. A maioria das armas dos Cobradores era embebida em venenos e aprimoramentos ilegais. Tudo o que Kaito tinha era uma faca fina que era mais adequada para fatiar frutas do que para tirar sangue, mas da última vez que fora ao arsenal, a faca fora tudo o que pudera pagar. Kaito nunca fora de fugir de confrontos, mas não podia negar que estavam em uma disputa desigual. Então, ele revidou com suas palavras e esperou que isso não lhe custasse um nariz quebrado.

"Se um nome está na lista, é de quem chegar primeiro," Kaito respondeu friamente. "Não é minha culpa se você foi lento demais para chegar lá antes."

O Cobrador assobiou entre seus dentes tortos. "O apostador só foi marcado como alvo esta manhã. Como você conseguiu encontrá-lo tão rápido?"

"Era um festival," Kaito comentou. "As pessoas vão para onde a comida está."

"Eu diria que você teve sorte, mas você nem tem sangue nas mãos." Ele estreitou os olhos. "Se você está ganhando tempo — tentando nos afastar dele, só para poder ficar com a recompensa~"

Ao ouvir a sugestão, alguns dos outros Cobradores olharam da mesa de cartas próxima. Uma era uma mulher musculosa com luvas de metal que subiam até seus cotovelos, cada dedo pontiagudo e afiado como uma agulha. Kaito vira o trabalho dela antes — um golpe de sua mão deixaria um tipo especial de veneno que fazia flores venenosas brotarem das feridas de uma pessoa.

"Eu conheço o código," Kaito disse, e certificou-se de que os outros pudessem ouvi-lo também. "E não preciso mentir para receber um pagamento — ou espancar um alvo só para me sentir importante." Ele deu de ombros. "A listagem dizia que ele devia dinheiro, então eu peguei o dinheiro."

"Você é abusado para um subordinado, e mole demais para um Cobrador." O homem inclinou a cabeça acusadoramente. "Misericórdia é para os Imperiais."

"Não foi misericórdia," Kaito retrucou. "Eu apenas não vejo sentido em perder tempo fazendo alguém sangrar quando há muitos outros trabalhos que eu poderia estar fazendo. Não somos pagos por hora."

"Não," a mulher com os dedos de metal interveio, um vislumbre de uma tatuagem aparecendo ao longo de sua clavícula. "Mas com certeza é divertido fazê-los implorar."

Os outros riram em resposta, e o som atravessou o âmago de Kaito como uma adaga de gelo. Ele sabia que, se não tivesse cuidado, poderia algum dia encontrar o mesmo tipo de adaga em suas costas.

Uma mulher alta com cabelos negros como azeviche apareceu, e o riso cessou. Kaito sentiu o calafrio infiltrar-se em seus ossos, preenchendo-o com uma sensação de vazio. Fiapos de fumaça negra circulavam ao seu redor como serpentes fantasmas. Ao contrário daqueles que canalizam a magia dos kami através do respeito mútuo, esta mulher adotara uma abordagem diferente para a canalização. Ela permitira que Azamaki, o Kami da Traição Encarnada, a possuísse, e mais de uma vez. Ela acreditava que fazer isso lhe dava alucinações proféticas e visões do que viria a ser.

Tudo o que Kaito conseguia ver era a cor cinza cadavérica de sua pele, e a maneira como o preto de seus olhos transbordava para o branco, como se o kami não tivesse apenas emprestado uma parte dela — ele tivesse consumido sua própria alma.

"Satoru deseja falar com você," disse ela com uma voz oca, apontando com a mão para uma das salas dos fundos.

[Arte de: Anna Pavleeva

Kaito a seguiu sem uma palavra, feliz por deixar os outros para trás, mas sentiu seus nervos estremecerem sob a pele. Era raro Satoru convocar alguém. Quando o fazia, as pessoas que entravam em seu escritório geralmente saíam com um dedo a menos, ou vários dentes faltando — se é que saíam vivas.

Kaito sentiu o peso da carteira do estranho. Será que Satoru sabia que ele pegara um pouco do dinheiro para comprar espetos de bolinhos? Kaito contara o dinheiro várias vezes. Havia o suficiente para cobrir a dívida do alvo. O que Kaito pegou era extra — não poderia ser visto como roubo de Satoru.

Poderia?

A mulher abriu a porta, e Kaito entrou desajeitadamente, os olhos se arregalando quando viu Satoru sentado atrás de sua mesa, com tatuagens brilhantes subindo até a base de suas orelhas. Seu cabelo preto estava preso em um coque apertado e uma expressão severa retorcia todo o seu rosto. Uma armadura de metal estava presa estrategicamente em seu peito e braços, mas havia painéis abertos em seus ombros e estômago que exibiam suas marcas coloridas. Uma máscara de gás pendia de seu pescoço, verde neon com redemoinhos azuis pintados, fazendo-a parecer as mandíbulas de um monstro.

Satoru não fez sinal para Kaito se sentar. Não disse uma palavra. Ele simplesmente olhou de uma forma que fez os joelhos de Kaito vacilarem.

"Eu posso explicar," Kaito disse rapidamente. "Eu sabia que traria lucro para você além da dívida. E eu estava seguindo o cara desde a tarde, então quando senti o cheiro do shoyu —"

Satoru levantou a mão para interromper, e Kaito calou a boca.

Quando o líder dos Cobradores de Hyozan continuou sem falar, Kaito tirou a carteira do bolso e a colocou cuidadosamente na mesa entre eles.

Satoru baixou os olhos antes de gesticular para a canalizadora próxima. Ela pegou a carteira e se afastou para contar o conteúdo. Após um momento, ela simplesmente assentiu.

Satoru apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou as mãos, inclinando-se para frente. "Estou impressionado com quão bem você é capaz de seguir seus alvos. Esta é a terceira vez nesta semana que você limpa um nome da lista no mesmo dia em que ele apareceu."

Kaito engoliu em seco, cerrando os punhos como se estivesse protegendo seus dedos.

"No entanto," disse Satoru. "Embora sua eficiência seja digna de elogios, não tenho certeza se você compreendeu o que significa enviar uma mensagem."

A garganta de Kaito ardia. Ele precisava deste emprego; precisava estar em algum lugar onde pudesse ajudar a imperatriz.

Ele não podia se dar ao luxo de deixar Satoru duvidar dele.

"Há Cobradores que sabem enviar uma mensagem, mas eles não limpam tantos nomes das suas listas quanto eu." Kaito sabia que estava sendo ousado demais, mas era tudo o que podia fazer para mascarar as falhas em sua voz. "Eu sou o melhor subordinado que você tem."

"No entanto, você não tem uma marca de lealdade." Satoru apontou para a pele nua de Kaito e depois para a grande tela na parede. Feeds de vigilância do saguão apareceram em retângulos. Ele estivera observando-os o tempo todo. "Parece que não sou o único que se pergunta se você tem estômago para este trabalho."

"Estou aqui porque quero estar."

"Sim." Satoru fez uma pausa. "Você morava em Eiganjo antes de vir para nós. Eu já vi samurais imperiais deixarem o palácio por um tipo diferente de vida e, de vez em quando, um deles acaba aqui. Mas eles saem porque veem um sistema quebrado." Seus olhos escureceram. "Você não me parece alguém que se importe muito com sistemas."

A lembrança de sua infância fez as bochechas de Kaito arderem. Ele ainda se sentia culpado — não por deixar o palácio, mas por deixar Eiko para trás. Não que ela o tivesse seguido além do muro. O coração dela pertencia ao palácio e a tudo o que ele representava.

O coração de Kaito não pertencia realmente a nada. Pelo menos não a nada que pudesse ser facilmente explicado.

Kaito empertigou-se. "Eu fugi porque sabia que as coisas que eu queria da vida não eram coisas que eu encontraria em Eiganjo."

"E o que é que você quer?"

Kaito deu de ombros. "Dinheiro. Uma espada melhor." Descobrir o que aconteceu com a imperatriz e trazê-la para casa.

Diante disso, Satoru riu contidamente, ainda com a testa franzida. "Eu tenho um trabalho para você," disse ele finalmente. "Um que não está na lista."

"Um trabalho?" Kaito piscou com alívio. Talvez conseguisse manter seus dedos afinal.

Satoru recostou-se em sua cadeira. "Há um soratami em Otawara — um prodígio Futurista, como o estão chamando — que está criando o protótipo de uma forma de conectar tecnologia e kami. A pesquisa dele seria vendida por um preço alto no mercado negro. E é apenas uma questão de tempo até que os rivais de Hyozan ouçam sobre isso e tenham a mesma ideia." Ele inclinou a cabeça, estudando Kaito cuidadosamente antes de abaixar o queixo. "Quero que você me traga os esquemas."

O pagamento seria bom — negociações no mercado negro sempre eram — mas também seria uma forma de provar sua lealdade a Satoru. Sem ter que enviar nenhuma mensagem.

Kaito assentiu brevemente. "Considere feito."

"Enviarei os detalhes pelo seu comunicador." Satoru acenou com a mão. "Pode sair."

Kaito saiu da sala, ignorando o modo como a canalizadora o observava com olhos negros e avaliadores, e assim que estava na rua, sob as sombras de um arranha-céu, ele puxou seu tablet bem a tempo de ver a mensagem privada piscar em sua holotela.

Havia apenas uma foto e um nome.

Tameshi.


Otawara não era nada parecido com a superfície. Muitos dos edifícios eram cobertos de metal e vidro, refletindo o plano como se estivesse iluminando cada movimento súbito. Havia drones de vigilância por toda parte e enormes mechs de origami que rondavam as bordas da cidade flutuante.

Depois que a imperatriz desapareceu, os Imperiais culparam os Futuristas pelo ataque. Kaito se perguntava se as defesas reforçadas dos Futuristas eram uma resposta às acusações ou se seus sistemas de segurança eram menos sobre proteção e mais sobre ocultar o que quer que estivesse acontecendo em seus laboratórios.

Não era segredo que os Futuristas gostavam de forçar os limites da tecnologia. Mas talvez eles já tivessem passado do ponto — talvez já tivessem saltado sobre a linha inteiramente.

Kaito estaria mentindo se dissesse que o pensamento não despertara seu interesse.

Quando Kaito finalmente conseguiu rastrear informações sobre o paradeiro de Tameshi, descobriu que o soratami não estava mais em Otawara. Ele mudara sua pesquisa para o Distrito de Boseiju — a floresta repleta de kami e lar da Ordem de Jukai.

Seguir um alvo e invadir laboratórios era uma coisa, mas enfurecer os kami? Os de Boseiju estavam lá para se afastar do resto de Towashi. Eles eram apenas tolerantes com a Ordem de Jukai. Era parte da razão pela qual Eiganjo treinava tantos diplomatas kami para tentar manter a paz entre os reinos mortal e espiritual.`

A floresta não seria território amigável. Não sem alguém para mediar. Então, ele contatou a única pessoa que poderia ajudá-lo e defendeu seu caso.

Kaito caminhava sob o arco nos arredores de Boseiju. Pilares de pedra esculpidos nas formas de kami antigos estavam espalhados pelo jardim de musgo, com suas bocas bem abertas com espaço suficiente para deixar uma oferenda. Alguns deles abrigavam frutas, enquanto outros continham animais de origami com mensagens rabiscadas para os espíritos que ainda não entraram no reino mortal. Atrás do templo erguia-se um amplo portal de fusão, com as cores ao seu redor brilhando com tons metálicos.

A maioria das pessoas sabia para não chegar muito perto. Ninguém sabia exatamente o que aconteceria se um mortal tentasse atravessar o vazio. Mas os kami ocasionalmente atravessavam os portais e, embora os Imperiais os tivessem construído para manter as passagens seguras, a Ordem de Jukai construiu os templos para garantir que os kami se sentissem bem-vindos. Eles acreditavam que os espíritos eram uma parte sagrada da natureza que deveria ser reverenciada.

Kaito nunca viu sentido em tratar os kami como se fossem deuses. Havia algo em ver um kami letárgico tomando banho de sol em um monte de lama que os tornava menos... etéreos.

O som de passos ecoou por perto, e Kaito levantou a cabeça para encontrar sua irmã a alguns metros de distância.

Seus ombros relaxaram. "Eiko. Você veio."

Ela cortara o cabelo desde a última vez que ele a vira. Estava curto e severo, e a fazia parecer mais velha. Pela forma como seus lábios estavam cerrados e seus olhos estreitados, ela parecia estranhamente uma raposa. Como uma versão humana de Patas Leves, pensou Kaito, com a boca curvando-se levemente diante da semelhança.

Eiko cruzou os braços. "Não pareça tão feliz. Se eu vou ajudar você, haverá regras."

Kaito levantou as mãos inocentemente. "Eu não esperaria nada menos."

"Primeiramente, não estou aqui para roubar nada. Estou aqui para proteger os kami de quem quer que seja este Tameshi. Porque se ele estiver fazendo as coisas que você diz — conectando tecnologia e kami — então ele está quebrando a lei Imperial e ameaçando o equilíbrio de ambos os reinos. E caso seu julgamento seja tão ruim quanto me lembro, absolutamente nada de armas. Não podemos fazer os kami aqui se sentirem ameaçados de forma alguma."

"Belo discurso," Kaito cantarolou. "Mas se eu precisasse de um companheiro de batalha, teria pedido a alguém da Cidade Baixa. Você está aqui porque preciso de uma Imperial para me guiar pela floresta sob o pretexto de diplomacia."

"Você sabe que eu ainda não sou oficialmente uma diplomata kami, certo?" Eiko apontou. "Eu não completei meu treinamento."

"A Ordem de Jukai não precisa saber disso. E com sorte, nem chegaremos a vê-los. Você está aqui apenas para garantir que os kami não nos ataquem ao longo da borda da floresta."

"Não," Eiko rebateu. "Eu estou aqui para dar um fim no seu amigo."

"Ele é um alvo, não um amigo."

Houve um momento de silêncio e, quando Eiko falou novamente, sua voz suavizou. "Por que você está fazendo isso, Kaito? Se juntar-se aos Cobradores de Hyozan é a sua maneira de se vingar de Patas Leves por não acreditar em você, então —"

"Não é," Kaito interrompeu.

A expressão de Eiko fragmentou-se. "Então por que você está trabalhando para criminosos?"

"Estou fazendo isso pela imperatriz," Kaito respondeu, com a voz rígida. "Já ouvi rumores de uma organização secreta não alinhada com os Futuristas ou com os Cobradores. O palácio não me ouviu sobre o homem com o braço de metal, mas eu sei o que vi — e se ele se mostrar em Kamigawa, os Cobradores saberão. Ele balançou a cabeça. "Satoru já está questionando minha lealdade. Se eu não der a ele o que ele quer, estarei de volta a onde estava quando deixei o palácio, sem pistas e sem ninguém disposto a ajudar."

Diante disso, Eiko nada disse.

A mandíbula de Kaito tencionou. "Tudo o que preciso é da pesquisa de Tameshi. Depois que eu levar os esquemas para Satoru e garantir meu lugar com os Cobradores, você pode contar aos Imperiais o que for preciso."

Eiko ficou com seus pensamentos por um tempo, a tensão acumulando-se principalmente em seus ombros. "Está bem," disse ela finalmente.

Kaito tentou não parecer grato demais, caso ela mudasse de ideia. Ele acenou em direção às árvores. "Devemos ir enquanto ainda há luz. Eu preferiria evitar encontrar o Kami das Sepulturas Vazias no meio da noite." Ele sorriu como se fosse uma oferta de paz. "Especialmente porque seu plano é ir desarmada."

"Ah, eu já a conheci. Ela é bem educada," observou Eiko, ajustando os braceletes de metal em seus antebraços. "Se eu fosse você, estaria mais preocupada com o Kami das Clareiras Esquecidas. Ela é famosamente territorial."

Kaito teve o bom senso de não rir, mesmo quando os olhos de Eiko brilharam com humor, e seguiu sua irmã para dentro da floresta.


Eiko parou em frente ao Kodama da Árvore do Oeste. Ele se erguia sobre ela a quase dez metros de altura, com galhos largos cobertos de casca e sua boca esticada com fios de seiva dourada. Uma dúzia de flores luminescentes circulava a cabeça do kami, e cascatas de galhos menores desciam por seus ombros como uma coroa de cabelo.

[Arte de: Daarken

Kaito tamborilou os dedos contra os braços, observando a apresentação à distância. Ele não sabia exatamente o que sua irmã estava dizendo, ou quão descontente o kami estava por ver invasores tão perto da fronteira da Floresta de Jukai, mas depois de um tempo, Eiko fez uma reverência profunda e voltou para o lado de Kaito.

"Ela diz que podemos passar com segurança, desde que não ultrapassemos o rio," Eiko explicou cuidadosamente. Ela lançou um olhar sobre o ombro e baixou a voz. "Não mencionei Tameshi. Achei que poderia complicar as coisas se soubessem que havia uma ameaça na floresta."

Kaito sorriu maliciosamente. "Mentindo para os kami? Patas Leves aprovaria?"

Eiko franziu a testa. "Não me faça arrepender disso."

Eles caminharam por quase uma hora. Os olhos de Kaito vasculhavam as árvores distantes em busca de sinais dos novos campos de pesquisa de Tameshi — terra batida, trilhas frescas, metal onde não deveria estar. Mas se Tameshi estivesse por perto, ele fizera um trabalho minucioso para encobrir sua presença.

Kaito sentiu a rigidez de Eiko ao seu lado e virou-se para encará-la. O queixo dela estava empinado e sua boca comprimida em uma linha impenetrável. Era o mesmo olhar que ela tinha quando criança quando estava preocupada em ser repreendida — geralmente por causa dos erros de Kaito.

Ela não gostava de mentir para os kami. Mas Kaito se perguntava se a possibilidade de decepcionar Patas Leves também estava pesando sobre seus ombros. Ele não podia culpá-la se estivesse; ele lembrava-se daquela sensação muito bem. A única diferença era que Eiko queria orgulhar sua mentora, enquanto Kaito... ele queria que Patas Leves se orgulhasse da pessoa que ele já era, e não do samurai que ela esperava que ele se tornasse.

O chão estremeceu sem aviso, e Kaito saltou para trás, com a adaga em punho antes mesmo de seus olhos processarem a ameaça.

Não era um ataque — apenas um kami de rocha de movimentos lentos enterrando-se mais fundo na terra em busca de sombra.

Kaito relaxou, mas o olhar endurecido de Eiko fez suas bochechas arderem.

"Achei que tivéssemos concordado: nada de armas," ela sibilou.

Kaito deu um de ombros envergonhado em resposta. "Eu mal chamaria isso de arma. É mais uma ferramenta de sobrevivência. Dependendo da sua perspectiva, você poderia até chamá-lo de um pequeno utensílio de cozinha."

"Minha perspectiva é que você sacou uma lâmina na primeira vez que viu um kami se mexer!" Eiko respondeu secamente. Ela apertou a ponte do nariz. "Isso é exatamente o que eu temia."

Kaito deslizou a adaga em seu cinto, não se incomodando mais em escondê-la sob as roupas. "Não foi nada. Ninguém se machucou."

"Você não entende o quão sério isso é? Se você ameaçar os kami, não estará apenas nos colocando em perigo — estará colocando tudo pelo que trabalhei em perigo também."

Kaito irritou-se. "Você não precisava ter vindo."

"Sim, eu precisava."

"Não." Kaito deu um passo à frente. "Você poderia ter contado aos Imperiais sobre Tameshi. Eles teriam enviado samurais direto para cá, prendendo-o e garantindo que sua pesquisa fosse destruída. Você conhecia os riscos e ainda assim escolheu vir. E eu sou grato pela sua ajuda, mas você não pode simplesmente —"

"Eu não vim aqui para ajudar você," Eiko confessou abruptamente.

Kaito estremeceu.

Ela cerrou os punhos. "Eu — eu não estou tentando ferir seus sentimentos. Mas não se trata apenas de interromper a pesquisa de Tameshi. Trata-se de provar o que a pesquisa dele é."

Kaito franziu a testa. "Do que você está falando?"

"Eu vi algo naquela noite também, Kaito. Na noite em que a imperatriz desapareceu."

Kaito sentiu como se a floresta inteira tivesse se tornado uma onda gigante. Ele travou os joelhos, com os olhos fixos em sua irmã, e esperou que ela explicasse.

Eiko mordeu o lábio, tentando encontrar as palavras certas. "Quando os alarmes soaram, eu — eu tentei encontrar você. Estava no meio dos jardins estudantis quando vi você correndo em direção ao templo de Kyodai. E foi então que vi algo no telhado."

O coração de Kaito disparou. "Você viu o homem? Aquele que eu persegui?"

Ela balançou a cabeça. "Não era um homem — era uma luz. Estava brilhando tanto quanto uma estrela, e então explodiu. Todos os outros estavam tão ocupados olhando para o muro, mas eu estava procurando por você. E a luz — ela se transformou em um animal e desapareceu. Quando descobri que a imperatriz estava desaparecida, soube que eles deviam estar conectados de alguma forma. Que talvez os Futuristas tivessem encontrado uma maneira de militarizar os kami.",file_path:#figure(image("001_Kaito Origin Stories: A Test of Loyalty & The Path Forward/04.jpg", width: 100%), caption: [Arte de: Dominik Mayer], supplement: none, numbering: none)

Kaito passou a mão pelo cabelo, frustrado. "Eu já te disse mil vezes — o que aconteceu não teve nada a ver com os Futuristas. Havia um homem no templo naquela noite. Um homem que estava na mesma sala onde a imperatriz foi vista pela última vez. Ele é o responsável pelo desaparecimento da imperatriz. Não um animal brilhante."

Ela estreitou os olhos. "Você disse que a pesquisa de Tameshi envolve a fusão de kami e tecnologia. E se for exatamente isso que eu vi no telhado?"

Kaito olhou fixamente, seu rosto se transformando em compreensão. "Patas-Leves não acreditou em você."

Eiko piscou.

"Ela não levou o que você viu a sério, da mesma forma que não acreditou em mim." Kaito reconheceu a mágoa nos olhos dela. "Foi por isso que você veio — para provar a ela que você estava certa."

"Você faz parecer algo infantil."

Kaito bufou. " É infantil. E daí se ela não te levou a sério? Ela também não acreditou em mim. Mas pelo menos você teve a aprovação de Patas-Leves desde que éramos crianças."

A expressão de Eiko vacilou, seus olhos ficando marejados. "Kaito~"

Kaito desviou o olhar. "Você sempre foi a melhor de nós dois. Eu nunca esperei que Patas-Leves visse outra coisa. Mas eu estava no templo naquela noite implorando ao conselho para me ouvir, e nenhum deles ouviu." Ele engoliu o nó na garganta. "Talvez eles não tenham te ouvido na época, mas a diferença entre você e eu é que, um dia, eles ouvirão."

"Eu acredito no que você viu, sabe," ela disse baixinho.

"Você acredita que ele era um Futurista." Kaito ergueu os olhos. "E não foi isso que eu vi."

Eiko assentiu. "Talvez a pesquisa de Tameshi prove que um de nós está certo." Ela hesitou. "Você ainda pode voltar para casa, sabe. Não é tarde demais para continuar seu treinamento."

"Essa não é a minha vida. Não mais. Mas você?" Kaito abriu um sorriso sincero. "Você será ótima nisso."

Eiko pegou a mão dele, apertou e voltou-se para o caminho. Às vezes, as palavras não ditas entre eles eram as mais barulhentas de todas.

Além do próximo leito de rochas, havia uma escadaria de pedra que contornava uma colina. Despencando do topo, havia uma pequena cachoeira, escorrendo pelas bordas de musgo e formando uma poça abaixo. A terra em degraus criava níveis desiguais sob o rio, fazendo com que o clareira ecoasse com o som da água corrente por todo o caminho através do coração da floresta.

Kaito sabia que o melhor lugar para se esconder em Towashi era dentro das maiores multidões. Talvez na Floresta de Jukai fosse perto das cachoeiras mais barulhentas.

Eiko estendeu a mão para impedir Kaito de se mover. "Não podemos ir mais longe. Eu prometi ao Kodama da Árvore do Oeste."

Kaito apontou para a névoa além das árvores. "Se Tameshi estiver aqui, ele estará perto do rio, onde é barulhento e ele pode esconder seus rastros." Ele olhou para Eiko. "A única promessa que fiz foi para a imperatriz — e não vou sair daqui sem a pesquisa."

Ignorando as objeções de Eiko, Kaito pisou cuidadosamente nas pedras salientes no riacho, equilibrando-se com cuidado. Quando chegou à margem lamacenta, ele se esforçou para firmar os pés antes de agarrar um punhado de vegetação espessa e se içar pela colina rochosa. Ele se virou para ver se sua irmã havia atravessado o rio — mas ela tinha ido embora.

Ele não tinha o direito de se sentir magoado. Ele havia quebrado a maioria das regras dela, e ambos tinham muito a perder se algo desse errado.

Mas o amargor de ser abandonado apertou seu coração. Talvez fosse o que Eiko sentiu quando ele deixou Eiganjo.

He se perguntou se isso os deixava quites.

Com sua irmã tendo ido embora, seria apenas uma questão de tempo até que ela relatasse aos Imperiais. Sentimentos não importavam — Kaito precisava encontrar Tameshi antes que outra pessoa viesse procurá-lo.

Abaixando-se para escapar de um galho baixo, Kaito encontrou um caminho entre as colinas que levava a uma clareira. Ele pressionou um dedo no pulso, e seu drone de garça de metal ganhou vida, quebrando-se em fragmentos afiados antes de flutuar no ar. Kaito tocou sua têmpora e enviou o drone para o alto, apertando os olhos para a imagem distorcida que tremia na transmissão da câmera. Ele se envolveu em mais de uma briga durante seu tempo com os Acertadores, e seu drone pagou o preço.

Não fazia sentido usar a tecnologia danificada para rastrear alguém nas multidões movimentadas de Towashi, mas Kaito estava procurando apenas uma pessoa na floresta. Não importa o quão borrada a transmissão estivesse, era melhor do que nada.

A garça correu pela floresta, e Kaito a seguiu de perto, mantendo-se próximo ao rio. Quando avistou metal em sua câmera, soube que estava perto.

A água corrente em todas as direções mascarava completamente o ruído, mas o laboratório improvisado era quase impossível de não ser notado. Estendida ao lado de uma árvore derrubada estava uma coleção de máquinas estranhas, todas conectadas com fios e luz distorcida. A maior parte da pesquisa era composta de pedaços de metal, incluindo uma grande caixa de aço empoleirada na extremidade distante.

Kaito deu um passo à frente. A caixa chacoalhou em resposta.

Não era uma caixa — era uma gaiola . E havia algo preso lá dentro.

Kaito ouviu o estalar de galhos sobre as cachoeiras em cascata, mas quando se virou, era tarde demais. Tameshi tinha a vantagem — e a usou para golpear o punho contra a bochecha de Kaito.

Kaito tropeçou, os dedos dobrando-se rapidamente sobre sua adaga, e apontou a lâmina para o soratami. Tameshi tinha pele lilás pálida e cabelos presos em um nó alto. Seu porte esguio e rosto liso denunciavam sua juventude. Ele não podia ser mais do que um ou dois anos mais velho que Kaito.

Tameshi ergueu uma sobrancelha, suas vestes azuis flutuando enquanto ele pairava no ar, e riu. "Eu não percebi que os monges de Jukai eram tão~primitivos." Ele inclinou a cabeça. "Eu já vi facas melhores para escamar peixes."

"Eu não estou com a ordem," Kaito respondeu, estudando a linguagem corporal de Tameshi em busca de uma fraqueza.

"Isso explica as roupas da Cidade Inferior. Um Acertador, presumo?" Ele parou, calculando. "Eu sabia que as notícias da minha pesquisa acabariam saindo eventualmente. Só estou surpreso que os Imperiais não chegaram aqui primeiro."

"O que posso dizer? Fazer as pessoas me subestimarem é meio que a minha especialidade."

Tameshi acenou com a cabeça em direção à triste desculpa de arma de Kaito. "Você é bem-vindo para voltar quando estiver mais preparado. Eu odiaria que você passasse os próximos cinco minutos se envergonhando."

Kaito abriu um sorriso. "Se eu facilitasse demais para você, não teria graça nenhuma."

Tameshi deu de ombros. "Como quiser." Ele retirou uma pequena haste de seu cinto e a pressionou firmemente contra um painel em seu peito. Em um instante, a haste se expandiu, remodelando-se como dobras de origami, até se transformar em um cajado de metal com uma borda serrilhada. Tameshi girou-o várias vezes nas mãos.

"Ok, agora você só está se exibindo," Kaito murmurou, encontrando a tensão em sua voz. Ele tinha a sensação de que precisaria dela.

Tameshi avançou, varrendo seu cajado contra as pernas de Kaito. Kaito saltou, estabilizou-se e girou com sua adaga presa no punho. Tameshi desferiu seu cajado para baixo novamente, e Kaito rolou para fora do caminho, cortando o ar. Ele não conseguia alcançar Tameshi — não com o cajado bloqueando cada um de seus golpes. Ele mal conseguia alcançar suas vestes.

Mas Kaito havia treinado com os melhores professores de Kamigawa. De todas as coisas que aprendeu, a mais importante era que, se seu oponente fosse mais forte, ele precisava ser mais rápido.

Na próxima vez que Tameshi atacou, Kaito não hesitou. Ele golpeou sua lâmina contra a borda serrilhada do cajado com força suficiente apenas para mantê-lo no lugar, então agarrou a haste com sua mão livre e girou a perna para cima, atingindo a cabeça de Tameshi.

O golpe derrubou Tameshi para o lado, mas o soratami planou de volta, pairando no ar e ainda segurando firme sua arma. Kaito recusou-se a soltar o cajado e cravou os calcanhares na terra.

Tameshi retaliou, descendo rápido para o chão. He lançou o cotovelo em direção ao queixo de Kaito, mas Kaito não vacilou. Ele usou seu peso para girar em torno de Tameshi, mantendo o cajado na frente do peito do soratami, até que conseguiu puxar a haste contra a garganta de seu oponente.

Tameshi era mais alto e mais forte, mas Kaito nunca fora de recuar de uma briga. E Kaito não podia perder esta — não quando precisava que os Acertadores o ajudassem a encontrar o homem do telhado. Tudo o que Kaito fazia era um esforço para trazer a imperatriz de volta para casa. Ela era a melhor amiga de Kaito — e valia todos os riscos, não importa as probabilidades.

Kaito puxou com força, e Tameshi engasgou contra o bastão de metal, empurrando de volta com toda a sua força. Kaito ouviu-o arfar, mas tudo o que conseguia ver em sua visão era um vermelho desesperado e inflexível.

A voz de Eiko o tirou de seu frenesi. "Kaito, o que você está fazendo? Solte-o!"

Ele voltou os olhos para a irmã, ainda segurando firme o cajado. "Achei que você tivesse ido embora!"

"Eu tive que deixar uma oferenda para o kami. Porque, ao contrário do que você pensa, prestar respeito e seguir as regras pode realmente fazer a diferença." Ela deu vários passos à frente, com as palavras carregadas de autoridade. "Pare com isso antes que você sufoque a vida dele. Esqueceu que ele ainda tem informações de que precisamos?"

Kaito rangeu os dentes. "He começou!"

"Eu não me importo," Eiko sibilou. "Não é assim que lidamos com relações diplomáticas."

Kaito bufou antes de soltar Tameshi com um empurrão. Ele dobrou os dois punhos sobre o cajado.

Tameshi curvou-se, tossindo violentamente. Quando o ar voltou aos seus pulmões, ele olhou para Eiko. "Então," ele disse com voz rouca, esfregando a garganta, "eles enviaram os Imperiais afinal."

Eiko cruzou os braços em resposta.

Kaito vasculhou o céu antes de pressionar a têmpora para chamar seu drone de volta. Levou apenas alguns segundos para ele aparecer, e quando ele estendeu o braço, a garça mudou como papel e se prendeu confortavelmente ao seu pulso.

Os olhos de Tameshi se arregalaram de surpresa. "Onde você conseguiu isso?"

"Foi um presente," disse Kaito secamente. "De alguém que conheci há muito tempo."

"Você conhece Katsumasa?" Tameshi baixou os braços. O fogo em seus olhos recuou, substituído por um estranho reconhecimento.

"Como você conhece esse nome?" Kaito exigiu. Fazia anos que ele conhecera o soratami nos jardins imperiais, mas ele ainda conseguia visualizá-lo. Mais do que isso, ele ainda se lembrava das coisas que Katsumasa falara — sobre o futuro e a tecnologia — e como elas haviam feito Kaito sentir que havia muito mais que ele queria saber.

"Ele foi meu mentor. O drone que você tem — é o design em que trabalhamos juntos." Uma faísca de orgulho encheu os olhos de Tameshi. "É nisso que tenho baseado minha pesquisa."

Eiko franziu a testa, os olhos brilhando de raiva. "Seus experimentos com kami e tecnologia — são uma violação dos próprios fundamentos de Kamigawa."

Tameshi franziu o cenho. "Estou tentando proteger os kami."

"É por isso que você tem um deles em uma gaiola?" Eiko marchou em direção à exibição de equipamentos. Não havia fechadura no caixote, mas ela puxou a porta com tanta força que Kaito se perguntou se uma fechadura a teria impedido.

[Arte de: Campbell White

Ela deu um passo atrás, esperando que um kami aparecesse, quando o rosto prateado de um tanuki de metal espiou pelo canto e soltou vários bipes e um assobio.

Kaito piscou. "O que é isso ?"

O robô saltou para o chão, os membros estalando como se mil pedaços de metal estivessem se encaixando, e virou a cabeça para Kaito. Seus olhos em painéis o escanearam e, por um momento, Kaito teve certeza de que era a tentativa de curiosidade do robô.

"Eu te disse," Tameshi bufou, endireitando-se. "Minha pesquisa é para ajudar os kami — e o resto de Kamigawa. Sabemos que nossos dois reinos estão se fundindo e que um dia existirão como um só. Mas ainda sabemos tão pouco sobre o que está além dos portões de fusão, ou como nossas espécies serão afetadas quando a fusão estiver completa. Se vamos entender verdadeiramente os kami, precisamos de uma maneira segura de estudá-los. Uma maneira de preservar os kami existentes em Kamigawa. A tecnologia não precisa ser apenas para nós — ela pode ser para os kami também." Sua voz era apaixonada, e talvez um pouco selvagem.

Mas Kaito não conseguia encontrar nada de maligno em seus motivos. Ele se virou para Eiko — para ver o que ela achava — quando percebeu que ela ainda não havia se movido.

Seus olhos permaneciam fixos no tanuki de metal, os lábios ligeiramente entreabertos como se estivesse em transe. "Este robô é quase idêntico ao animal que eu vi." Ela se voltou para Kaito. "Aquele que apareceu do clarão de luz."

Kaito franziu a testa, voltando-se para Tameshi. "Minha irmã acha que esta sua criação é a razão pela qual a Imperatriz de Kamigawa desapareceu. Gostaria de se defender?"

"O que você está me acusando é impossível. Esta criação nem existia até alguns meses atrás." Os ombros de Tameshi caíram. "But estou familiarizado com a criatura de que você fala. Eu também tenho procurado por ela."

"Por quê?" Kaito desafiou. "E o que isso tem a ver com a imperatriz?"

"A luz que você viu foi um kami nascendo. Um kami muito raro, e o único de sua espécie. É a própria personificação da relação que a imperatriz compartilha com Kyodai e o reino espiritual," explicou Tameshi. "Tenho perseguido-o por Kamigawa há algum tempo e procurado maneiras de protegê-lo." Ele apontou para o tanuki de metal. "Foi para isso que construí este protótipo."

Eiko cruzou os braços. "Existem milhares de kami ao nosso redor, e nenhum deles jamais precisou de um robô para proteção."

"Um kami que personifica uma conexão com o reino espiritual poderia ter um efeito radical nos portões de fusão," disse Tameshi, e Kaito não perdeu o aviso em sua voz. "Existem variáveis aqui que não levamos em conta. Então sim, eu quero protegê-lo, mas também quero estudar sua relação entre os dois reinos." Ele deu de ombros. "Criar uma conexão entre kami e máquina daria a ele a armadura de que precisa. Pense nisso como um traje mecânico protetor. Isso nos permitiria rastrear o kami e garantir que ele permaneça seguro. E que nós permaneçamos seguros também."

"Essa mesma pesquisa poderia permitir que alguém o manipulasse." Eiko apontou. "Se o kami realmente pode afetar os portões de fusão, você estaria essencialmente dando esse mesmo poder a quem quer que detivesse os controles."

O estômago de Kaito revirou. Se Satoru soubesse a verdade, ele nunca venderia os esquemas no mercado negro. Ele guardaria o kami para si mesmo. E se o espírito realmente tivesse um poder inexplorado sobre os portões de fusão?

Isso tornaria os Acertadores de Hyozan a célula mais forte da cidade. Talvez até de toda Kamigawa.

Ninguém deveria ter tanto poder.

Antes que alguém pudesse dizer outra palavra, um ruído ecoou fora do desfiladeiro. Um som que Kaito conhecia muito bem. Um grito, uma canção e um sussurro, como três vozes sobrepostas umas às outras.

A voz de Kyodai.

"Não pode ser," Kaito murmurou. Ele moveu-se lentamente pela grama, os olhos vasculhando a distância em busca de um vislumbre da grande kami.

Kyodai nunca deixava o templo. Se ela estivesse aqui, na Floresta de Jukai~

Did isso significava que a imperatriz~

A imperatriz havia retornado ?

Kaito não esperou. A esperança em seu coração era poderosa demais. Desesperada demais. Ignorando os gritos de aviso de Eiko e Tameshi, he correu atrás do som.

He lutou contra galhos e arbustos, levantando torrões de terra e correndo até que seu peito ardesse. Havia tantas coisas que ele queria dizer a ela novamente.

But, acima de tudo, ele só queria ver o rosto dela e saber que ela estava bem.

Kaito derrapou até parar ao pé de uma enorme árvore de cânfora, com os galhos retorcidos em espirais e as folhas brilhando em um verde esmeralda.

But Kyodai não estava lá, e nem a imperatriz.

Em vez disso, ele viu o kami em forma de tanuki, com olhos brancos brilhantes e pelo translúcido.

E o kami o viu.

O Caminho a Seguir

O peito de Kaito parecia ferido. He realmente pensara que a imperatriz poderia estar na Floresta de Jukai — e que ouvir a voz de Kyodai era um sinal de que ela finalmente havia encontrado o caminho de volta para casa.

But o kami tanuki parado na grama não era a amiga que ele perdera. E certamente não era a antiga kami do templo.

A criatura soltou outro chamado em camadas, mais baixo desta vez.

Com o cajado de Tameshi ainda em suas mãos, Kaito afundou lentamente de joelhos, os olhos nunca deixando o rosto brilhante do kami. Tameshi disse que era a personificação do vínculo da imperatriz com Kyodai. Se esse era o caso, havia uma parte dela ainda aqui? Ela — o kami — reconheceria Kaito?

He colocou a arma no chão e pressionou a mão contra o peito. "Não pretendo lhe fazer mal."

He viera para a Floresta de Jukai pela pesquisa de Tameshi, mas agora que sabia aonde ela poderia levar e o que o kami representava~

Um nó se formou em sua garganta. He tinha que manter o kami seguro.

Folhas agitaram-se atrás dele, e um objeto escuro surgiu da linha das árvores, seu corpo metálico brilhando sob o sol. He pairou em círculos acima de Kaito antes de fazer uma descida lenta. Quando pousou no chão ao lado do kami, eles tinham estruturas quase idênticas. A diferença era que, enquanto um era claramente um robô, o outro era tão deslumbrante quanto a luz das estrelas, com múltiplas esferas douradas girando cuidadosamente ao redor de seu corpo. Eram como as esferas que percorriam as costas de Kyodai, apenas muito menores.

O robô bipou. O kami soltou uma saudação em camadas.

[Arte de: Rudy Siswanto

Eiko e Tameshi apareceram na colina. Quando seus olhos caíram sobre o kami, o suspiro de Eiko foi audível. Ela caminhou lentamente para o lado de Kaito, a mão apertando o tecido perto do pescoço. "Ele — ele disse alguma coisa?"

Kaito balançou a cabeça. "Kyodai falava com a imperatriz telepaticamente. Talvez este kami funcione da mesma maneira." He encontrou os olhos de Eiko. "Temos que protegê-lo."

Eiko assentiu como se nunca tivesse sido uma dúvida. Quando avistou o robô tanuki, seu rosto se contraiu. Ela respirou fundo antes de se virar para encarar Tameshi. "Eu estava me perguntando como você estava rastreando meu irmão tão facilmente. Você não construiu apenas uma armadura — você construiu um drone ."

Tameshi pressionou as mãos contra o ar. "Precisamos ser capazes de localizar os kami se eles se perderem ou se ferirem."

"Drones foram transformados em armas com as atualizações certas," argumentou Eiko. "Você tem ideia de quais seriam as repercussões para algo assim?"

Kaito tentou imaginar uma Kamigawa onde os espíritos corriam com armaduras e lâminas como mechas em miniatura. Espíritos que poderiam ser controlados por pessoas como Satoru.

O pensamento era perturbador.

"Esse não é o propósito da minha pesquisa," disse Tameshi, firme. "O design não é sobre controlar os kami — é sobre mantê-los seguros."

"Seguros de quê?" Eiko exigiu.

O queixo de Tameshi endureceu. "De tudo o que estiver do outro lado dos portões de fusão."

Kaito e Eiko ficaram em silêncio. He não estava apenas tentando estudar os kami e a fusão; ele queria estudar o que estava do outro lado.

"Você está tentando enviar os kami de volta ao reino espiritual," esclareceu Kaito.

"Se eu conseguir encontrar uma maneira de conectar kami e drone, então eventualmente, sim." Tameshi suspirou. "Ainda há muito que precisamos aprender. E o conhecimento está lá fora — só precisamos ser corajosos o suficiente para encontrar a chave e abrir a porta."

"Você não se importa com os kami. Você está apenas tentando proteger a informação que eles trariam se pudessem se mover entre os reinos." Eiko rangeu os dentes. "Sua pesquisa ameaça o equilíbrio de Kamigawa. Ela não pode continuar."

Tameshi estava estoico. "Nós já temos a habilidade de canalizar com os kami. Isso é realmente tão diferente?"

"Um canalizador construiu um relacionamento com o kami. Há confiança e respeito mútuo. É para ser um presente." Eiko parecia exasperada. "O que você quer fazer é capturar o poder deles e dá-lo a quem pagar mais."

"Não, eu —" Tameshi começou, mas Eiko não terminara.

"Você pode não pretender que seja uma arma, mas é. E se sua pesquisa vazar, algum dia alguém a usará em seu próprio benefício."

Tameshi desviou o olhar, perturbado. "O que estou tentando realizar não é sobre ganância. É sobre compreensão. Os portões de fusão são a prova de que há mais na vida do que o que conhecemos. E ter esse tipo de conhecimento — levantar o véu do desconhecido — pode exigir sacrifícios que alguns não estão dispostos a fazer."

Eiko balançou a cabeça. "O poder exige equilíbrio. E em mãos erradas, seu conhecimento poderia destruir os portões de fusão. Poderia destruir Kamigawa."

O olhar de Tameshi se fechou. "Você diz isso porque é teimosa demais para olhar para o futuro. Do que Kamigawa um dia se tornará e os passos que precisamos dar para garantir que esse futuro permaneça estável." Seus olhos se abriram bruscamente. "Os Imperiais falharão com todos nós se não assumirem riscos maiores para estudar a fusão."

"Estamos protegendo o plano que temos agora." A voz de Eiko não vacilou. "Sua pesquisa — ela precisa ser destruída."

Com isso, os ombros de Tameshi caíram. "Estou tão perto. Se eu pudesse apenas —"

O pequeno kami uivou novamente, a voz elevada em aviso. Os instintos de Kaito clamaram em concordância com a angústia do kami. Algo não estava certo. A floresta ficara silenciosa demais e havia um vazio no ar, quase como — Kaito enrijeceu. A última vez que se sentira assim fora no covil de Satoru.

A grama farfalhou por perto, e Kaito girou para encontrar os espiões de Satoru. Cinco Acertadores de Hyozan, seus cintos repletos de lâminas e seus braços gravados em tinta colorida. A que estava à frente era a mulher com luvas de pontas de agulha.

Nari — a Acertadora especialista em venenos, seu cabelo preso em uma trança alta. E atrás dela estava a canalizadora de Satoru. Nari mostrou os dentes. "Satoru envia seus cumprimentos."

[Arte de: Rovina Cai

Kaito tentou não reagir quando gavinhas de fumaça negra jorraram da pele da canalizadora, atacando o ar como víboras. "Não me lembro de ter feito um pedido de babá," disse ele.

Nari fungou, golpeando as garras no ar. "Satoru sempre se perguntou se você era um espião. Um ex-samurai é uma coisa, mas um estudante Imperial?" Ela estalou a língua. "Difícil de acreditar que alguém deixaria paredes tão bonitas a menos que recebesse uma ordem ."

"Sinto decepcioná-la, mas não sou um espião." Os dedos de Kaito dançavam ao lado do corpo. Sua faca estava enfiada no cinto e o cajado ainda estava na grama; não havia chance de alcançar nenhuma das armas antes que os Acertadores retaliassem. "Satoru sabe disso. Por que você acha que ele me escolheu a dedo para este trabalho?"

Até as palavras dela estavam impregnadas de veneno. "Provavelmente pelo mesmo motivo que ele nos pediu para ficarmos de olho em você."

Eles o estavam vigiando. Como Kaito não percebera? Como ele não os sentira?

Por um momento, ele pôde ouvir a voz de Patas-Leves em sua cabeça, dizendo que ele era muito audacioso e excessivamente confiante, que seu ego estava criando pontos cegos.

Kaito tentou não franzir a testa. Blefar era a única carta que lhe restava.

"Se vocês me seguiram, sabem que vim aqui pelos esquemas," disse ele com um dar de ombros.

Mesmo que tivessem seguido Kaito, o que os Acertadores poderiam ter contra ele? Até o momento em que ficara cara a cara com o kami, ele nunca tivera a intenção de trair Satoru. Tudo o que fizera antes era para obter a pesquisa de Tameshi.

A canalizadora ergueu seu rosto cinzento. "Você sabe que eu canalizo Azamaki, Traição Encarnada." Ela não piscou, mas quando a fumaça formou pinças de inseto que se expandiram de sua espinha, Kaito recuou vários passos. "Você realmente achou que eu não sentiria sua traição?"

Um dos Acertadores moveu-se rapidamente, agarrando Eiko e segurando uma espada contra seu pescoço.

Kaito cerrou os punhos, o rosto esquentando. "Se você machucá-la —"

Nari acenou com a mão. "Você procurou um Imperial para ajudá-lo. Um Imperial que você sabia que nos denunciaria." Ela ergueu uma sobrancelha fina. "É toda a prova de que Satoru precisará para ver que você é um espião."

A mente de Kaito tentava desesperadamente montar um plano. Mas tudo o que ele tinha era uma maneira de ganhar tempo. "Isso foi uma armadilha desde o começo?" ele perguntou, determinado a manter a conversa pelo maior tempo possível. "Satoru sequer queria a pesquisa?"

"É claro que queria," respondeu Nari. "Sua lealdade pode ter sido fingida, mas seus talentos não foram. He esperava que você nos levasse a Tameshi." Ela mostrou os caninos. "E você levou."

Kaito inspirou bruscamente quando ouviu o kami se mover atrás dele. He não tinha certeza se os Acertadores entendiam seu significado, ou se sabiam o quão raro ele realmente era, mas Kaito compreendera no momento em que ouvira sua voz.

He precisava levar os Acertadores para bem longe do kami.

Kaito tentou atrair o foco deles. "Os esquemas não estão aqui. Estão de volta no acampamento dele." He se voltou para o soratami. Se Tameshi realmente queria proteger o kami, esta era a única opção.

Embora o rosto de Tameshi estivesse pálido como cinzas, ele deu um aceno curto como se entendesse mais do que Kaito. "Eu posso levar vocês lá", ele disse para a Hyozan. "Mas apenas se deixar os outros irem."

O que você está fazendo? Kaito quis sibilou. Tameshi era praticamente um estranho. Ele não devia nada a Kaito. Mas ele estava tentando poupá-los de danos, de qualquer pequena maneira que pudesse.

Nari riu. "Você dificilmente está em posição de fazer acordos."

Tameshi franziu a testa. "Vocês nunca darão sentido à pesquisa. Não sem a minha ajuda. Então, ou os deixem ir, ou não direi nada."

Nari caminhou em direção a ele e levantou o queixo de Tameshi com uma mão, unhas perigosamente próximas de ferir a pele. "Você dirá." Ela inclinou a cabeça e gesticulou para um dos outros espiões. "Não precisamos de testemunhas. E não se esqueça do kami." Ela encontrou o olhar horrorizado de Kaito. "Algo me diz que podemos precisar dele."

Kaito rosnou e estava dobrando os joelhos para avançar no espião mais próximo quando Eiko bateu a cabeça para trás contra o rosto de seu captor. Enquanto o Acertador rosnava de dor, Eiko puxou a manga para cima para revelar uma arma escondida. Uma bobina de metal se desenrolou dela, as lâminas em miniatura conectadas por uma luz branca brilhante, até formarem uma espada. Ela segurou o punho e desferiu um golpe contra o pescoço de outro Acertador com velocidade impecável.

Kaito não teve tempo de ficar boquiaberto — ele se lançou contra um dos Acertadores e o prendeu no chão. Desferindo vários socos contra o rosto do homem, Kaito usou a distração para lutar pelo cajado de Tameshi.

Ele o recuperou bem a tempo de bloquear uma lâmina de aço voando em direção ao seu peito. Os Acertadores tornaram-se um redemoinho de aço e fúria. Kaito recuou, bloqueando repetidamente, afastando tantos quanto podia até alcançar Eiko no campo de batalha.

"O que aconteceu com 'sem armas'?" Kaito conseguiu gritar enquanto lutavam de costas um para o outro.

Eiko resmungou, chutando um dos assaltantes bem no peito. "Isso é diplomacia. Quando as palavras falham, usamos nossas lâminas." Sua espada encontrou a carne e, enquanto o homem caía, ela lançou um olhar sobre o ombro. "Eu disse a você sem armas porque sabia que você faria exatamente o oposto."

A vários metros de distância, Tameshi pousou ao lado do kami. Kaito não conseguia ouvi-lo acima do frenesi das armas, mas podia perceber pelo modo como ele segurava o robô que estava tentando fazer o kami se fundir a ele.

Mas o kami recusou.

Kaito se esforçava sob a espada de Nari. A única coisa que a mantinha afastada era o cajado de metal entre eles. Ele resmungou, empurrou com força e balançou sua arma para encontrar a dela.

Kaito e sua irmã podem ter sido treinados pelos samurais mais experientes de Kamigawa, mas estavam claramente em menor número. A cada choque de metal contra metal, o medo de Kaito fluía para a superfície de sua mente.

Se algo acontecesse com sua irmã, ele nunca se perdoaria. Ele sabia que ela cuidaria do kami. Ela garantiria que a pesquisa de Tameshi nunca caísse nas mãos erradas. Ela faria o que fosse melhor para Kamigawa e para a imperatriz. Se apenas um deles fosse sobreviver à luta, ele queria que fosse Eiko.

"Pegue Tameshi e o kami e corra", Kaito sibilou.

"O que quer que você esteja planejando, pode esquecer", Eiko sibilou de volta. "Eu não vou deixar você para trás."

Kaito abriu a boca para argumentar quando um rugido irrompeu por entre as árvores. Os Acertadores hesitaram apenas por um momento e, quando Kaito olhou para a crista, a esperança voltou ao seu peito.

A Ordem de Jukai havia chegado.

Uma mulher com chamas amarelas nas mãos estava na beira da colina. Sete pedras brilhantes flutuavam ao lado dela, e ela usava um capacete feito de osso. Ao redor dela estavam pelo menos mais uma dúzia de canalizadores de kami, trajando armaduras de couro e prontos para a luta.

[Arte por: Howard Lyon

Nari soltou um grito gutural e, então — o caos.

A Ordem de Jukai encontrou os Acertadores na clareira, e a floresta antes silenciosa encheu-se de gritos de batalha. Era um redemoinho de fumaça negra e chamas amarelas.

Kaito agarrou Eiko pelo braço e a puxou. "Precisamos ir!"

A respiração de Eiko estava pesada. "Mas a Ordem —"

"— não ficará muito feliz conosco se vencerem esta luta", Kaito apontou. "Não é seguro aqui. Para nenhum de nós." Ele se virou para olhar para o kami tanuki. O que quer que acontecesse, ele precisava tirar o espírito da floresta.

Tameshi enviou seu drone para se proteger nas nuvens. "Tentei explicar, mas ela não vem comigo."

"Ela?" Kaito repetiu, olhando diretamente nos olhos brilhantes do kami. Ele se ajoelhou para encontrá-la. "Essas pessoas — elas vão te machucar se tiverem a chance. Eu preciso levar você para um lugar seguro."

O tanuki retribuiu o olhar.

Kaito respirou fundo e esperou que o silêncio fosse um entendimento entre eles. "Por favor, não me morda", ele sussurrou sem som, e pegou o kami nos braços.

Quando ele correu, Eiko e Tameshi o seguiram.


A floresta era um borrão de musgo e casca de árvore. Kaito sentia sua garganta queimar a cada passo da corrida, desesperado para recuperar o fôlego. Havia apenas um lugar onde ele sabia que o kami estaria seguro, mas ele precisava atravessar a fronteira primeiro, e para longe da Floresta de Jukai.

Tameshi e Eiko não estavam longe. Ele podia ouvir os passos de sua irmã e o fluxo de ar cada vez que Tameshi voava sob um galho. O soratami poderia tê-los deixado a qualquer momento e voado de volta para Otawara sem olhar para trás. Mas ele não o fez. Ele ficou ao lado deles como se fosse mais amigo do que inimigo.

Kaito decidiu que algum dia — se eles saíssem da floresta inteiros — ele encontraria uma maneira de retribuí-lo.

O chão estremeceu e Kaito parou de repente. "Por favor, me diga que é outro kami das rochas", ele disse cautelosamente, observando a terra em busca de movimento. Eiko apareceu à sua esquerda, com o rosto pálido.

Um kami explodiu do rio, e toda a floresta pareceu estremecer em resposta. Com um grito ensurdecedor, o espírito rasgou por entre as árvores, derrubando uma delas com um simples golpe de seu braço semelhante a um osso.

Ele se movia em explosões erráticas, membros longos estendidos como se estivesse procurando pelo tato. Duas esferas de luz verde antinatural brilhavam em um rosto de pedra delicado, mas o sorriso esculpido que exibia não combinava com a raiva que irradiava de seu âmago. Frágil como um esqueleto, tinha braços e pernas suficientes para rivalizar com um inseto, com pesadas teias de aranha pretas que caíam sobre sua forma torta como um véu. Um fio de seda saía de um de seus dedos ossudos, preso a uma lanterna de papel que balançava na frente de seu peito como um pêndulo.

Acendedor de Sepulturas, o Kami das Clareiras Esquecidas.

[Arte por: Miranda Meeks

"Eu — eu vou tentar falar com ela", Eiko murmurou, quase baixo demais para Kaito ouvir.

"É perigoso demais", Kaito começou, mas ela pressionou uma mão contra o antebraço dele e depois um dedo nos lábios. Ela queria que ele ficasse quieto.

O kami avançou em direção a eles, a cabeça girando em ângulos estranhos, procurando pelo som como se seus olhos brilhantes não pudessem ver nada.

Eiko se ajoelhou, fixando os olhos no chão. "Eu sou Eiko Shizuki do Palácio Imperial e uma Diplomata de Kami." No momento em que ela falou, o kami atingiu o chão na frente dela. O cabelo de Eiko flutuou com o movimento, mas ela não recuou. "Não foi nossa intenção perturbá-la, nem pretendemos mais invadir a floresta. Pedimos passagem segura para retornar a Boseiju."

A Acendedora de Sepulturas abriu sua boca de pedra, larga demais para ser sequer próxima de humana, e tudo o que Kaito pôde ver foi um terrível vazio negro.

O kami parou a centímetros do pescoço curvado de Eiko, sentindo sua postura e sua presença. Quando a Acendedora de Sepulturas recuou rápido demais, Kaito não sabia se ela iria embora ou atacaria.

Ele assumiu a última opção.

"Não!" Kaito gritou, saindo de seu lugar na grama e derrapando na frente de sua irmã.

O kami lamentou, e Kaito apertou o tanuki contra o peito e envolveu Eiko com um braço como se a estivesse protegendo.

Como se estivesse protegendo os dois.

O Kami das Clareiras Esquecidas rasgou por entre as árvores, partindo galhos e golpeando a terra, e correu direto para as costas expostas de Kaito. Mas antes que ela desferisse seu ataque, o kami tanuki saltou dos braços de Kaito e voou em direção ao espírito maior.

Luz estelar explodiu ao redor deles.

Kaito apertou os olhos. Ele não conseguia ver o que estava acontecendo — estava brilhante demais, e ambos os kami estavam se movendo rápido demais. Mas foi tempo suficiente para colocar Eiko de pé e levá-la em direção a Tameshi.

"Vão!" Kaito gritou. "Eu alcanço vocês!"

Tameshi pegou Eiko pela cintura e a tirou do caminho da terra que se partia e das pedras voadoras enquanto Kaito corria de volta para o tanuki.

Ele ergueu uma mão, olhando para o âmago da luz em busca da pequena criatura. E ele a viu, cintilando para a esquerda e para a direita, tentando distrair a Acendedora de Sepulturas — exceto que isso só parecia enfurecê-la.

O Kami das Clareiras Esquecidas balançou um braço para trás, preparando-se para golpear o tanuki com toda a sua força, quando Kaito saltou, agarrou o kami menor e rolou para fora do caminho. Com força mortal, o braço esmagou o chão da floresta, estremecendo a mata ao redor.

Kaito buscou os olhos do tanuki, frenético. Não havia para onde fugir; ele não era rápido o suficiente e nunca em sua vida havia lutado contra um kami. Ele nunca fora treinado para isso.

Tudo o que ele podia fazer agora era segurá-la firme e se preparar para o próximo impacto.

Mas ele não veio.

Kaito abriu os olhos e encontrou a Acendedora de Sepulturas olhando para ele com seu rosto estranho de mármore. Ela estendeu seus dedos de osso para mais perto, parando a centímetros do corpo do tanuki.

O tanuki soltou um grito em resposta.

Não — não um grito. Um comando .

A Acendedora de Sepulturas soltou um suspiro. O estrondo fez Kaito recuar bruscamente — e então o Kami das Clareiras Esquecidas mergulhou de volta no rio, água borrifando em todas as direções, e desapareceu de vista.

Kaito estremeceu, olhando para baixo para o pequeno kami ainda protegido em seus braços. "Eu — eu acho que isso significa que podemos ir?"

O kami respondeu com um gorjeio em camadas, e Kaito levantou-se, limpou a água do rio de sua testa e apressou-se para encontrar sua irmã e Tameshi.


O grupo se reuniu perto da fronteira, para o alívio visível de Eiko.

"Você poderia ter morrido." Ela apertou os braços em volta do pescoço de Kaito, com a voz abafada.

Entre eles, o kami tanuki soltou um rosnado antes de pular no chão.

Eiko recuou e curvou-se em desculpas. "Obrigada. Acho que você pode ter salvado nossas vidas na floresta."

Kaito observou o kami esticar as pernas, esferas douradas dançando em círculos. "Sim. E ela não é a única." Ambos se viraram para Tameshi.

"Você ia desistir da sua pesquisa para nos proteger", disse Eiko.

Os olhos de Tameshi brilharam. "Não me olhe como se eu fosse um herói, porque não sou. A maior parte da minha pesquisa está aqui em cima." Ele deu um tapinha na lateral da cabeça. "E o resto? Bem, eu nunca mantenho toda a minha pesquisa em um só lugar. Eu estava ganhando tempo, esperando a Ordem de Jukai aparecer. Só estou feliz que eles tenham recebido minha mensagem a tempo."

Kaito sentiu a onda de choque como um soco no estômago. "Você mandou chamá-los?"

Tameshi riu. "Eu não vou montar um laboratório de pesquisa na Floresta de Jukai sem garantir que eu tenha câmeras de segurança." Ele deu de ombros. "Quando vi vocês dois, enviei um drone para o templo deles. Imaginei que todos vocês poderiam lutar entre si enquanto eu levava meu equipamento para um lugar seguro. O que, gostaria de ressaltar, revelou-se uma excelente ideia."

Kaito balançou a cabeça. "E eu aqui, tentando decidir se gostava de você."

Tameshi riu e Kaito abriu um sorriso.

"Somos gratos pela sua ajuda. Mas eu ainda tenho o dever de denunciá-lo aos Imperiais", disse Eiko calmamente. "E quando eu o fizer, haverá uma marca contra o seu nome. Eles ficarão de olho em você e em tudo o que você fizer pelo resto de sua vida."

Tameshi esperou. "A menos que?"

Houve outra longa pausa.

"A menos que você concorde em nunca continuar esta pesquisa", finalizou Eiko.

"Pelo resto da minha vida, hein?" Tameshi fingiu pesar suas opções. "Bem, eu realmente gosto de um desafio~"

Kaito bufou e Eiko lançou-lhe um olhar. "Eu sei que ele se parece com você, mas tente lembrar que você está do meu lado."

Kaito deu de ombros. "O quê? No que diz respeito a jogadores de equipe, ele não é o pior."

Tameshi sorriu radiante. "Agradeço o elogio."

Eiko ignorou a amizade florescente deles e cruzou os braços. "Temos um acordo?"

"Você não precisa de um." Tameshi suspirou. "Posso ter criado um protótipo para fundir kami e tecnologia, mas eu queria que eles o possuíssem por vontade própria. Deveria ser a escolha deles."

Eiko franziu a testa. "Nenhum kami sacrificaria voluntariamente sua liberdade dessa maneira. Isso vai contra a natureza deles. Canalizadores de kami são poucos e raros, mas existem porque há uma troca. Algo compartilhado . Um kami não teria motivo para se fundir a um drone."

"Você tem razão. É por isso que estive procurando por esta pequena." Tameshi acenou para o tanuki. "Um kami nascido no reino mortal é um fenômeno novo. Pensei que talvez ser nascido de forma diferente a levaria a reagir de forma diferente."

"Mas ela o recusou", reconheceu Kaito. "Quando os Acertadores atacaram, você tentou fazê-la se fundir à tecnologia, e ela não quis. Nem mesmo para se salvar."

Tameshi soltou um resmungo desapontado. "Não sou de admitir derrota facilmente." Ele balançou a cabeça. "Mas você não precisa se preocupar com minha pesquisa. Not sem um participante kami disposto, o que não parece existir."

Eiko assentiu. "Bom."

"Ainda assim, você é bem-vinda para ficar de olho em mim." Tameshi piscou. "Não posso prometer que meu próximo projeto será inteiramente aprovado pelos Imperiais."

Seus lábios se curvaram. "Algo me diz que vou me arrepender de você e meu irmão terem se conhecido hoje."

Tameshi pressionou um painel em seu cinto, e seu drone tanuki voou até Kaito. "Pegue-o. É muito melhor do que aquela garça desatualizada que você tem segurado."

Os olhos de Kaito se arregalaram. "Eu — você tem certeza?"

"Você pode me pagar um almoço quando vier a Otawara", respondeu Tameshi. "Katsumasa adoraria ver um velho amigo."

"Obrigado", disse Kaito sinceramente. Ele pegou o robô com as duas mãos e cerrou os lábios para não sorrir demais.

"É melhor eu limpar o que puder do meu laboratório. Seria uma pena se a Ordem de Jukai destruísse equipamentos perfeitamente bons." Tameshi olhou para o kami. "Boa sorte lá fora. E obrigado pela perseguição — foi divertido enquanto durou."

Eles o observaram desaparecer de volta na floresta, e foi Eiko quem falou primeiro.

"E agora?" ela perguntou.

"Bem, agora você leva nossa nova amiga de volta ao palácio com você", respondeu Kaito simplesmente.

Eiko recuou o rosto. "Para Eiganjo?"

Kaito deu de ombros. "Se ela realmente tem uma conexão com a imperatriz e Kyodai, quem melhor para cuidar dela do que a própria grande kami?"

No chão, o kami tanuki os observava, ouvindo atentamente.

Kaito não gostava particularmente de despedidas, mas não esperava que esta apertasse tanto seu peito. Ele limpou a garganta. "Você deve ir para a estação de trem antes que a Ordem volte."

Eiko paralisou. "Para onde você vai?"

Ele sabia o que ela queria dizer. Ele não seria exatamente bem-vindo na Cidade Inferior tão cedo. Os Acertadores provavelmente perderam a luta, mas sempre havia a chance de alguns terem fugido. Kaito preferia que a notícia sobre o que aconteceu não chegasse a Satoru, mas seria mais seguro manter-se discreto por um tempo, por precaução.

"Eu ficarei bem." Kaito sorriu. "Não se preocupe comigo."

Eiko cerrou os lábios. "Sabe o que eu acho?"

"Que você se divertiu muito mais aqui do que jamais se divertiu em Eiganjo?" Kaito ofereceu.

Ela fez uma careta. "Acho que você nunca teve a intenção de entregar esses esquemas a Satoru. Acho que você pediu minha ajuda porque queria fazer a coisa certa. Você é apenas teimoso demais para admitir."

Kaito riu. "Você ainda acha que há um Imperial em mim, mas eu prometo — sou um dissidente de corpo e alma."

Eiko olhou para o tanuki. "Seria bom se tivéssemos algo para chamá-la. Um kami tão importante merece uma introdução formal quando chegarmos ao palácio."

"Você não deveria ser uma especialista em relações com kami?" Kaito apontou. "Como você costuma descobrir os nomes deles?"

"Nem sempre é tão simples", disse ela. "Às vezes é por palavras ou linguagem corporal. Às vezes é telepático. Mas em alguns casos, você precisa conquistar a confiança deles antes que eles se comuniquem adequadamente com você."

"Eu voto para chamá-la de Pompon-chan por enquanto", disse Kaito. Quando o espírito soltou um gorjeio em camadas, he sorriu. "Viu? Ela gostou."

Eiko fez menção de pegar o kami, mas o tanuki saltou imediatamente fora de seu alcance. Quando Eiko deu outro passo, o kami correu para trás dos pés de Kaito em busca de abrigo.

"Não se preocupe", disse Kaito. "Você estará em boas mãos. Minha irmã é uma das melhores pessoas de Kamigawa — você só precisa ignorar as rugas de preocupação."

Ele deu um passo para longe, tentando encorajar o kami a ir para Eiko, mas o kami soltou um uivo frustrado e se escondeu atrás de Kaito novamente.

Eiko ergueu uma sobrancelha. "Acho que ela não quer ir para o templo."

"Bem, ela não pode ficar aqui sozinha. Os Acertadores sabem sobre ela. Não é seguro", disse Kaito.

Eiko conteve o riso. "Para alguém que se acha tão esperto, você é péssimo em ver o que está bem na sua frente."

Kaito piscou. "Mas — eu não entendo." Ele balançou a cabeça para o kami. "Eu não tenho nada a lhe oferecer. Nem abrigo, nem comida. Eu mal sei o que estou fazendo metade do tempo." Ele passou a mão pelo cabelo. "Eu só sei que preciso encontrar alguém, e não pretendo parar até descobrir como trazê-la para casa."

Os olhos do kami brilharam.

Eiko pressionou uma mão no ombro de Kaito. "Talvez seja exatamente isso o que ela quer."

Kaito inclinou-se na grama, com o drone ainda encostado no peito. "Você quer ajudar a procurar pela imperatriz também?"

O kami soltou um som que imitava a canção de Kyodai, e Kaito reconheceu o alívio por trás da luz. O senso de propósito.

Talvez o kami nunca estivesse se escondendo na Floresta de Jukai. Talvez ela estivesse procurando .

Kaito assentiu como se entendesse. "Ok. Acho que somos eu e você de agora em diante."

Sem aviso, o kami saltou para o peito de Kaito e uniu-se ao protótipo de tanuki. Houve um clarão de luz e o metal agitou-se como um trilhão de beija-flores cromados.

Quando a luz diminuiu, o drone tanuki piscou por trás de seus olhos de vidro. Ele escalou o braço de Kaito até encontrar um lugar para descansar em seus ombros.

Um ruído infiltrou-se em sua mente, constante a princípio e fraco como um sino, mas nos segundos que se seguiram, o ruído tornou-se um cântico inconfundível. Kaito pôde ouvi-lo então — o nome do kami, ecoando em sua mente. Quando ele se virou para olhar para o tanuki, ela baixou a cabeça e um entendimento suave passou entre os dois.

"O nome dela", disse ele lentamente. "Ela diz que seu nome é Himoto."

Kaito levantou-se para encarar a irmã, que estava de boca aberta de medo.

A pesquisa de Tameshi — ela tentara impedi-la. Tentara garantir que nunca caísse nas mãos erradas.

E agora a própria prova disso estava sentada nos ombros de Kaito como um animal de estimação amado.

O robô tanuki moveu-se mais uma vez e deslizou para as mãos de Kaito. Quando ele o virou, percebeu que ele havia se transformado em uma máscara.

Ele olhou para as bordas lisas e os recortes de origami, imaginando se uma conexão com a imperatriz realmente vivia dentro de Himoto e se escolher ficar com Kaito significava alguma coisa.

Quando ele colocou a máscara de tanuki sobre o rosto, sentiu imediatamente.

Energia vibrava em seu âmago, até a ponta dos dedos. Era como estática, magia e poder, implorando para serem liberados. Implorando para que Kaito se libertasse .

Em algum lugar atrás dele, Eiko chamava seu nome. Gritando com respirações desesperadas e aterrorizadas.

Mas Kaito não conseguia respondê-la. Algo estava puxando sua alma em outra direção — para outro plano — e ele não conseguia lutar contra isso.

Ele não queria lutar contra isso.

Pela primeira vez em anos, Kaito sentiu como se soubesse exatamente para onde deveria ir.

O poder explodiu através dele, correndo por cada osso e veia. Kaito deixou que ele o consumisse inteiramente — e quando sentiu o puxão contra sua alma mais uma vez, atendeu ao chamado como se tivesse sido o destino o tempo todo.

Kaito deu um passo à frente e desapareceu de Kamigawa.

Epílogo

Os cheiros familiares de Towashi fizeram a boca de Kaito encher de água. Fazia um ano que ele não provava bolinhos de porco e arroz com curry — não porque não tivesse retornado a Kamigawa, mas porque nunca ficava por muito tempo.

A imperatriz ainda estava lá fora, em algum lugar do Multiverso.

Ele não podia deixar a comida de rua distraí-lo.

Quando Himoto, o Kami da Centelha, transformou Kaito em um planeswalker, ele soube que deveria haver uma razão. Que, de alguma forma, o reino espiritual sabia que Kaito era a única pessoa em cem planos que nunca pararia de procurá-la.

Ele fizera uma promessa, afinal.

Kaito buscou sua máscara de tanuki e deslizou-a sobre o rosto, protegendo-se da multidão. Ele sempre soube como se tornar invisível, mas hoje em dia, era praticamente uma forma de arte.

O Multiverso tinha informações de que ele precisava — e, na experiência de Kaito, era sempre melhor quando seu inimigo não o via chegando.

Kaito levantou o colarinho e pisou no pavimento, a cidade refletida em cada poça ao seu redor. Ele era uma sombra entre as luzes de neon, que podia desaparecer a qualquer momento.

E ele desapareceria, em breve.

Mas hoje, Kaito tinha um amigo em Otawara que queria vê-lo, e uma irmã em Eiganjo que estava esperando por notícias.

E depois disso?

Havia muitos outros planos para pesquisar.

[Arte por: Yongjae Choi
24/01/2022 | Por Akemi Dawn Bowman

Episódio 1: Um Estranho em Eiganjo

De todos os cômodos do Palácio Imperial, a cozinha era o favorito de Kaito.

O cheiro perfumado do caldo de ramen, bolinhos de porco e katsu curry flutuava pelo corredor e saía pela janela lateral onde Kaito estava empoleirado. Ele inalou como se estivesse em uma névoa e escorregou do parapeito para o depósito, mantendo seus passos o mais silenciosos possível. Exatamente como Patas-Leves o ensinou.

Não que a conselheira do imperador aprovasse as atividades extracurriculares de Kaito.

[Art by: Julian Kok Joon Wen

Pratos estavam empilhados no balcão próximo; a bacia ao lado estava cheia de água com sabão, bolhas subindo perigosamente perto da borda. Kaito estava quase na porta quando um pequeno kami enfiou a cabeça para fora da água, piscando como se tivesse acabado de ser acordado de um cochilo. Quatro xícaras de chá em miniatura flutuavam ao redor de seu corpo em forma de salamandra, seu rosto emoldurado por uma coleção de chifres pintados que pareciam cacos quebrados de porcelana.

Kaito pausou, preparando-se para um sermão, quando o Kami da Louça Imperial pegou outro prato sujo e afundou sob a água, desinteressado no que quer que Kaito estivesse tramando.

O canto de sua boca puxou com humor, e ele disparou pela esquina em direção à cozinha totalmente aberta.

Os cozinheiros do palácio estavam distraídos com seus preparativos. Entre as panelas tilintando, caldo fervente e sons de pancadas de uma faca de açougueiro contra uma tábua de cortar, não importava que Kaito fosse silencioso—ele poderia muito bem ser invisível.

Seus olhos vagaram com fome sobre a mesa central, onde pedaços redondos de mochi azul estavam em fileiras uniformes, cada um decorado com um rosto sorridente e pequenos olhos amarelos com formato de luas crescentes.

Kaito levantou a mão, os dedos dançando levemente como se estivesse reunindo sua coragem. Dois pedaços de mochi flutuaram no ar, pairando centímetros acima da mesa.

Kaito puxou os doces para mais perto com sua mente, concentrando-se enquanto eles derivavam em sua direção. Ele estendeu a mão, prendendo a respiração, e os arrebatou do ar—bem no momento em que um dos cozinheiros o avistou por trás de uma panela de macarrão de vidro.

"Ei!" O rosto do cozinheiro já estava vermelho pelo vapor, mas agora estava assumindo um tom de roxo. "O que eu te disse sobre roubar?"

Kaito disparou de volta pelo corredor, tropeçando em seus passos. Ele podia ouvir alguém correndo atrás dele, mas não iria perder tempo olhando por cima do ombro. Ele se virou de volta para o depósito, o cotovelo pegando a borda de uma panela suja, e enviou uma pilha de pratos tombando sobre o balcão.

Com o mochi ainda apertado contra seu peito, Kaito jogou sua mão livre para segurar os pratos no meio do ar. Eles pairaram no lugar, mas os passos no corredor estavam próximos. Próximos demais.

Kaito não teve escolha.

Ele soltou os pratos e saltou para a janela assim que a explosão de porcelana ecoou atrás dele. O kami irrompeu da água com sabão, gritando com a bagunça e com o cozinheiro assustado em pé ao lado dos pratos quebrados.

Com um sorriso malicioso, Kaito enfiou um pedaço de mochi na boca e o outro no bolso, pulou do parapeito da janela e fez seu caminho de volta sobre a parede ao redor.

Como a maioria dos prédios em Eiganjo, o Palácio Imperial tinha telhados baixos e curvos e espaços com terraços. Jardins de musgo e areia eram apresentados em abundância, alguns deles subindo pelas laterais do palácio, com árvores projetando-se das exibições.

Mesmo com o palácio guardado por samurais leais e imponentes mecas de vigilância Imperiais, Kaito vagava livremente entre suas lições. A maioria dos Imperiais não prestava nenhuma atenção nele. Eles estavam mais preocupados em manter relações kami positivas, regulando a tecnologia e monitorando o quão de perto os Futuristas estavam seguindo as regras.

Equilíbrio , Patas-Leves frequentemente chamava isso.

Kaito não se importava com equilíbrio; ele só estava feliz que ninguém parecia se incomodar em vigiar os telhados.

Escalando a borda do apartamento mais próximo, Kaito seguiu uma trilha improvisada sobre as casas e de volta ao jardim de pedras da sala de treinamento. As portas de correr estavam totalmente abertas. Até onde ele podia dizer, Patas-Leves ainda nem estava lá.

Kaito se apressou pela areia, passando por uma espiral de pedras estilhaçadas meio afundadas no chão. Elas zumbiam levemente com energia; uma antiga relíquia do passado.

No momento em que Kaito passou pelas portas de correr, ele soube que não estava sozinho.

"Você está atrasado", a voz afiada de Eiko soou das sombras. "E seu rosto está coberto de farinha de arroz."

Kaito se virou para sua irmã. Mesmo eles tendo a mesma idade, Eiko sempre pareceu mais velha. Talvez porque depois que seus pais morreram, ela sentiu que era sua responsabilidade cuidar de seu irmão.

Kaito cuidava de Eiko, também, mas ele nunca a repreenderia por se divertir.

Não que Eiko fizesse muito disso mais.

Ele arrastou uma manga pela boca. "Não fique brava." Ele cavou o outro pedaço de mochi do bolso e estendeu para ela. "Eu te trouxe um presente."

Eiko franziu a testa, mas a dica de um sorriso piscou em seus olhos. Com um suspiro, ela pegou o mochi e o colocou na boca, espanando os dedos contra sua camisa. "Você precisa começar a levar seu treinamento mais a sério. Faz cinco anos—a maioria dos Imperiais já teria escolhido uma especialidade a essa altura."

Kaito deu de ombros, ainda sorrindo. Isso geralmente impedia Eiko de ficar muito brava com ele. "Nós somos a exceção, não a regra. Talvez se continuarmos com o treinamento geral por tempo suficiente, nunca teremos que ser separados. Podemos ficar assim para sempre."

Eiko achatou a boca, bochechas florescendo com cor. "Kaito, eu—"

Patas-Leves entrou na sala, e o que quer que Eiko fosse dizer pareceu parar na borda de seus lábios.

Vestida em seu quimono decorativo, Patas-Leves andou pela sala com o equilíbrio e a nobreza de alguém que não apenas foi criada como uma Imperial—elas eram o próprio exemplo de um. Sete caudas brancas balançavam atrás dela. Um sinal da idade e sabedoria da kitsune.

Kaito e Eiko se curvaram respeitosamente. Patas-Leves era a professora deles, mas ela também era a coisa mais próxima que eles tinham de uma guardiã.

[Art by: Randy Vargas

Mesmo que Kaito não amasse as regras do palácio, isso nunca o impediu de ansiar pela aprovação de Patas-Leves. Ele só desejava que isso viesse tão naturalmente para ele quanto vinha para Eiko. A vida Imperial combinava com sua irmã.

Mas para Kaito, havia paredes demais.

Patas-Leves cruzou os braços atrás dela e olhou direto para Kaito. "Você e Eiko não serão mais parceiros de treinamento."

As sobrancelhas de Kaito se beliscaram. "Nós não vamos mais treinar?" Ele olhou para sua irmã, mas ela apenas mordeu a borda de seu lábio.

"Vocês vão treinar," Patas-Leves corrigiu. "Mas não juntos. Eiko escolheu estudar como uma diplomata kami. Eu arrumei a agenda dela para coincidir com a de seus colegas estudantes Imperiais."

Kaito sentiu o plano inclinar. Ele se virou para sua irmã. "Por que você não me contou?"

Os ombros de Eiko afundaram. "Eu tentei. Muitas vezes. Mas você nunca quer falar sobre nosso futuro, e eu não podia atrasar meu treinamento por mais tempo. Não seremos crianças para sempre, Kaito."

"Atrasar?" ele repetiu. "O que isso quer dizer?"

Ela achatou a boca. "O motivo pelo qual demorei tanto para escolher uma especialidade foi porque estava esperando que você escolhesse uma primeiro. Eu pensei—eu pensei que isso poderia tornar as coisas mais fáceis."

Kaito estremeceu, ferido. Ele podia não querer que as coisas mudassem, mas ele também nunca quis atrasar sua irmã.

Há quanto tempo ela estava guardando um segredo tão grande?

"Me desculpe," Eiko disse, pressionando a mão no ombro do irmão. "Mas é a hora. Para nós dois. E talvez agora você seja capaz de escolher o seu foco, também, sem se preocupar comigo."

Patas-Leves observou os dois sem falar, tão imóvel que até suas caudas pararam de balançar.

Kaito piscou, lutando contra a ardência em seus olhos. "Está tudo bem. Estou feliz por você." Era o que um bom irmão diria.

E ele queria ser um bom irmão, mesmo se não fosse um bom Imperial.

Eiko assentiu, deixando sua mão cair. As coisas seriam diferentes agora. Ela estudaria nas bibliotecas e salas do conselho e faria viagens ao movimentado centro metropolitano de Towashi, e talvez até as periferias da Floresta de Jukai para remendar as relações kami.

Não havia restado muito da floresta—a maior parte havia sido cortada para dar espaço à cidade. Agora os kami a guardavam ferozmente, e apenas os mais habilidosos em diplomacia kami tinham alguma chance de reprimir as hostilidades.

Seria o trabalho perfeito para Eiko, um dia. Enquanto isso, Kaito ficaria preso aqui. No palácio. Sem nenhum plano para o seu futuro.

Patas-Leves deu um passo cuidadoso à frente, levantando levemente o queixo mesmo enquanto espiava Kaito de cima. "Braço-Célere está esperando por você no jardim de sakura. Ele irá apresentar a você o seu novo parceiro de treinamento."

Kaito engoliu o nó em sua garganta, mas não conseguiu se livrar de sua surpresa. Braço-Célere administrava a elite da Academia Cauda Dourada para samurais Imperiais. O que faria ele concordar em treinar Kaito? E por quê ?

"Irei de imediato," Kaito disse com uma voz neutra, e deixou a sala, ansioso por uma distração.

Os jardins de sakura ficavam nas profundezas do coração do Palácio Imperial. Havia um atalho por cima do muro, mas Kaito pegou o caminho mais longo pelos prédios e subiu as escadas de pedra. Ele estava perto dos aposentos do imperador e do templo de Kyodai; ele tinha que no mínimo parecer estar em seu melhor comportamento.

Kaito só tinha falado com o imperador por trás de uma porta de tela. A primeira vez foi por acidente—ele tinha escalado o muro errado tentando fugir de um Kami das Flores de Primavera, que não reagiu com gentileza a Kaito acidentalmente pisoteando um canteiro de flores, e acabou em um jardim privado cercado por hortênsias e lagos de carpas. Uma varanda extravagante levava a uma porta de tela de papel, onde uma luz quente brilhava por trás. Alguém estava sentado na borda da sala, mas tudo que Kaito podia ver era sua sombra.

Ele tinha tentado fugir furtivamente, mas só deu dois passos quando uma voz chamou por ele e perguntou o que ele estava fazendo.

Kaito não sabia que era o imperador. Tudo o que ele ouviu foi a voz de uma garota de sua mesma idade. Alguém mais provável a ser sua amiga do que alguém que relataria de volta a Patas-Leves sobre a travessura que ele estava fazendo.

Então Kaito contou a verdade a ela. Como ele havia se esgueirado para a seção restrita da biblioteca por causa de um desafio e estava na metade do caminho para pegar um dos livros quando alguém o avistou. Como ele nunca correu tão rápido em sua vida tentando fugir e teve que escalar através de três telhados diferentes, cinco paredes, e escalar um prédio apenas para chegar a um local seguro.

A garota sorriu por trás da tela. Ele pôde ouvir em sua voz quando ela disse a ele que nunca tinha ouvido algo tão bobo em toda a sua vida.

Eles conversaram por quase uma hora antes de Kaito perceber que estava atrasado para uma lição. E quando ele perguntou qual era o nome da garota, ela não lhe disse. Era proibido para o imperador revelar o seu nome, até mesmo para aqueles mais próximos a ela. Mas ela disse a ele que ele era bem-vindo para voltar e vê-la da próxima vez que precisasse de um lugar para se esconder.

Enquanto Kaito estava saindo, ele subiu de volta no muro e olhou ao redor para o prédio—para que soubesse para onde retornar—quando percebeu que estava de pé no jardim do imperador.

Um bom Imperial teria sabido que não deveria retornar. Um bom súdito teria sabido que falar tão casualmente com o Imperador de Kamigawa era inadequado. E um bom estudante não deixaria uma distração entrar no caminho de seus estudos.

Mas Kaito não era bom em nada além de seguir seu próprio coração.

A próxima vez que ele foi visitar o imperador por trás da tela, ele não fez um grande caso sobre saber quem ela realmente era, além de chamá-la de "Sua Imperadoridade" quando ele sentiu que precisava de alguma coisa para chamá-la. Ele apenas falou com ela como um amigo, dia após dia.

E eventualmente, foi isso o que se tornaram.

Kaito alcançou os portões do jardim de sakura e enrolou seus dedos em punhos. Ele contaria ao imperador sobre a escolha de Eiko da próxima vez que falasse com ela. Mas quando ela inevitavelmente continuasse perguntando como Kaito se sentia sobre isso, o que ele diria?

Patas-Leves estava os preparando para serviço ao imperador. Era o dever deles elevar o seu treinamento. Como ele poderia possivelmente dizer ao Imperador de Kamigawa que ele estava infeliz com aquilo?

Tornar-se um samurai fazia mais sentido para Kaito. Ele era forte e rápido para sua idade, e ele tinha telecinesia—ele poderia ser um recurso valioso aos Imperiais com o treinamento certo.

Talvez esse fosse o plano de Patas-Leves. Colocar Kaito em uma posição onde, se Braço-Célere o recrutasse diretamente, ele não seria capaz de dizer não.

Braço-Célere estava esperando na grama, sua armadura Imperial montada estrategicamente ao redor de sua forma de kitsune. O metal cintilava contra a luz do sol, composto de tons variados de ouro, bronze e avermelhado, com um leque extravagante aberto contra suas costas.

Por baixo de seu capacete combinando, Braço-Célere deu um aceno curto. "Patas-Leves me conta que você é um excelente espadachim."

Kaito fez uma careta. Era isso. Ele seria puxado mais fundo para a vida Imperial, sem nenhuma forma de sair. Ele seria um samurai até morrer. "Er—sim, senhor."

Braço-Célere grunhiu. "Eu não acredito que Patas-Leves seja uma mentirosa, mas eu também nunca conheci um excelente espadachim que hesite." Seus bigodes se arrepiaram. "Quer tentar isso de novo?"

Kaito se endireitou. "Eu posso lutar bem, senhor. Eu estive treinando com a minha irmã por muitos anos."

"Bom." Braço-Célere virou-se para o lado, olhos severos fixos além das árvores de sakura. "Nós precisamos de um novo parceiro de treinamento. Alguém adepto em habilidade que não fique para trás em seus estudos. E já que você não avançou do treinamento geral~"

Kaito ouviu o desgosto em sua voz. A implicação de que Kaito era preguiçoso e de forma alguma tinha material para samurai.

Ele escondeu o seu deleite. Talvez ainda houvesse esperança.

Braço-Célere estava muito ocupado observando algo por trás das árvores. "Você irá se lembrar de ser respeitoso a todos os momentos, mas você também irá tratar essas lições assim como qualquer outra, entendido?"

Kaito assentiu, e uma porta próxima deslizou aberta. Passos soaram pelo caminho. Braço-Célere curvou-se profundamente.

Preparando-se para fazer o mesmo, Kaito juntou os seus pés mas parou repentinamente quando uma garota apareceu virando a esquina. Uma garota com cabelos brancos como a neve, olhos castanhos e uma expressão séria demais para pertencer a alguém tão jovem.

"Obrigada pelo seu serviço." A voz dela era praticada e formal, mas Kaito reconheceu a familiaridade nela, também.

O Imperador de Kamigawa.

Os olhos de Kaito se arregalaram. Ele nunca tinha visto o rosto dela antes—apenas a sombra dela. Mas a sombra que ele conhecia era cheia de calor, e coração, e sonhos de como o plano poderia ser um dia.

Ela era mais do que uma sombra. Ela era alguém com quem Kaito se importava.

Ele se lembrou de curvar-se. "Obrigado pela oportunidade, Sua Imperadoridade—er, Alteza ."

[Art by: Eric Deschamps

Ela não reagiu ao apelido desajeitado que ele vinha usando por anos, mas o nariz de Braço-Célere se contraiu em desaprovação. Ele pegou uma das espadas de prática de madeira de seu suporte. Com as duas mãos, ele a estendeu para o imperador e abaixou a cabeça. Quando ele recuperou a segunda, ele a jogou para Kaito a vários pés de distância.

Kaito era rápido—sua mão estalou no ar, pegando a espada pelo cabo antes que batesse em seu peito.

Braço-Célere o observou, mas não disse nada.

Tomando as suas posições na grama, Kaito e o imperador ergueram as suas espadas, preparando-se para treinar.

Kaito sabia que ele devia estar observando cada movimento dela, mas ele não conseguia desviar o olhar dos olhos dela. Ela o reconhecia? Ela reconhecia a sua voz?

Ela o considerava como um amigo, ou Kaito apenas tinha imaginado isso em sua cabeça?

Braço-Célere deu a ordem para começar, e Kaito balançou a sua espada. O imperador bloqueou—o seu estilo de luta era como a água, fluido e poderoso. Eles se moveram em círculos ao redor do ringue de treinamento improvisado, espadas batendo juntas com precisão, nenhum deles suando a camisa.

Kaito deu um passo para trás, espada erguida em defesa, quando ele pegou o olhar furioso de Braço-Célere.

Trate essas lições assim como qualquer outra.

Cerrando os dentes, Kaito assentiu. Ele entendia o que era esperado dele. E ele esperava que o imperador o perdoasse.

Ele balançou a sua espada com força, empurrando o imperador para trás em direção à borda do ringue. Ele era implacável, atacando em explosões afiadas e rápidas de fúria—o oposto da energia calma dela.

Se ela era um lago sem fôlego, ele era um tsunami.

Kaito iria cansá-la em momentos. Ele tinha certeza disso.

O imperador bloqueou, de novo e de novo, e então girou para longe dele como seda flutuante, tão graciosa que a força de seu próximo golpe o pegou de surpresa. Sua espada tencionou debaixo da dela, e ela se manteve firme. E então em um movimento rápido, ela rolou seu corpo e rachou a borda de sua espada contra o cabo de Kaito.

Ele sentiu-o chacoalhar em sua palma, mas era muito tarde. Ela girou novamente, chutando Kaito no estômago enquanto ela tomava a posse de sua espada com sua mão livre e segurou ambas lâminas de madeira no seu pescoço antes mesmo de ele ter o tempo de se estabilizar.

Kaito olhou para cima para o imperador—para o jeito que a luz do sol explodia atrás dela, criando a silhueta de sua estrutura esbelta como se ela fosse mais uma vez uma sombra atrás de uma tela—e assistiu um sorriso aparecer na borda de seus lábios. Um sorriso de reconhecimento.

Braço-Célere ainda estava observando, então Kaito tentou não sorrir de volta. Mas por dentro, ele estava brilhando.


Ao longo dos anos, Kaito e o imperador continuaram a treinar juntos. E quando eles não estavam treinando, Kaito encontrou formas de encontrá-la no jardim, onde eles podiam falar através da tela da varanda. Sem o olho vigilante de Braço-Célere, eles eram apenas dois amigos de infância compartilhando seus segredos.

Kaito esperava que o que eles tinham nunca mudasse, mesmo enquanto o plano ao redor deles mudava. Rumores de Insurgentes nas montanhas da Cidade de Sokenzan plagiavam a conversa diária. Os Futuristas tinham ficado crescentemente frustrados pelas regulações Imperiais sobre tecnologia. Na Floresta de Jukai, as relações com os kami ainda estavam cheias de tensão.

E Eiko estava sempre ocupada estudando. Às vezes parecia que o imperador era tudo o que havia restado para Kaito.

Pressionando seus dedos contra as telhas pretas do telhado, Kaito checou novamente a sua pegada. Tinha chovido durante a noite, e algumas das calhas ainda fluíam com água. Mas ele gostava do desafio, e era uma boa forma de praticar ficar em alerta—literalmente.

À distância, o trem de Eiganjo dobrou uma esquina, encostando na estação como uma adaga de metal. Mecas com formatos de feras de origami se agigantavam dos penhascos ao redor, e cavaleiros de mariposa apareceram no alto, esperando para saudar os novos recém-chegados—Futuristas vindo da cidade flutuante de Otawara para falar com os conselheiros do imperador.

Kaito enfiou o último pedaço de pão de feijão vermelho em sua boca, bateu as migalhas de suas mãos, e margeou ao longo da borda do teto em direção à moradia do imperador.

No meio do caminho, ele avistou um homem vestido em armadura Futurista em pé em um dos jardins em terraços. Um povo da lua, pairando a várias polegadas acima da grama.

Ele deve ter vindo à frente dos outros , Kaito observou.

Luzes azuis brilhavam através do peito do Futurista em padrões irregulares, fazendo a cor quase branca do seu colete brilhar. Finas camadas de metal ouro rosa assentavam-se nos ombros dele em camadas. O homem beliscou uma com seus dedos, arrancando-a como se estivesse puxando uma folha de uma árvore.

Em sua mão, o formato triangular expandiu antes de se dobrar sobre si mesmo de novo e de novo, mudando para um drone em formato de um grou de origami. Ele decolou rapidamente, desaparecendo nas nuvens como se estivesse carregando um segredo em suas asas.

[Art by: Cristi Balanescu

Quando o homem se virou de volta, Kaito estava parado na frente dele.O estranho arregalou os olhos, claramente assustado. Ele absorveu o rosto jovem de Kaito, avaliando sua idade, e relaxou, os pés pressionando contra o chão. "Impressionante, garoto. Faz muito tempo desde que alguém se esgueirou em mim assim." Com uma risada, ele adicionou, "Mas você tem sorte de que os Imperiais pegaram minhas armas no portão. Pessoas como eu tendem a fatiar primeiro e fazer perguntas depois."

Kaito não se moveu. "Eu não sou um garoto ." Ele acenou com a cabeça em direção ao ombro do homem. "E eu tenho quase certeza de que Futuristas não deveriam trazer tecnologia de fora para dentro do palácio."

"Eu estava apenas enviando uma mensagem amigável," o homem respondeu facilmente.

"Amigável o suficiente que você teve que se esconder no jardim para enviá-la?"

O homem inclinou a cabeça. "Sem ofensa, mas você não parece muito como um Imperial para mim." Ele acenou com uma mão sobre o próprio rosto para dar ênfase. "A maioria deles tem uma presunção sobre eles. Mas você? Você apenas parece curioso. Além disso, você sabe, você ainda está aqui, conversando comigo."

Kaito cruzou seus braços. "Eu não nasci um Imperial. Mas esta é minha casa agora." Mesmo enquanto ele dizia isso, as palavras pareciam erradas. Como poderia algo verdadeiro ainda parecer tanto como uma mentira?

"Sem pais, hã?" Quando Kaito não respondeu, o homem deu de ombros. "Eu também não. Os meus morreram trabalhando na fábrica. Houve um derramamento tóxico, e os sensores lá eram tão velhos, ninguém sabia sobre os vapores até que fosse tarde demais." Ele tensionou sua mandíbula. "Poderia ter sido prevenido se eles tivessem tido acesso a equipamentos melhores, mas com todas as regulações Imperiais e o custo de atualizar qualquer coisa na Cidade Subterrânea~" A voz do homem se dissipou, mas ele forçou outro sorriso. "Eu tenho sorte de ter tido família estendida em Otawara. Caso contrário, eu poderia ainda estar lá embaixo, lutando por tecnologia desatualizada e lutando para manter um teto sobre a minha cabeça."

Kaito não falava sobre os seus pais, e nem Eiko. Não para ninguém.

Parecia errado reclamar, quando os Imperiais tinham dado a eles um lugar seguro para estudar, com muita comida, e o tipo de abrigo pelo qual algumas pessoas em Kamigawa lutariam de bom grado.

E ainda assim~

"Houve um acidente no laboratório de Towashi onde meus pais trabalhavam, e ambos foram expostos à radiação." Kaito enrijeceu. Dizer as palavras em voz alta parecia estranho, e muito como uma traição. O que Eiko diria? Patas-Ligeiras? A imperatriz?

Mas as palavras precisavam sair. Talvez fosse melhor que Kaito estivesse dando-as para um estranho.

"Ah," o homem disse. "Dificilmente alguém na Cidade Subterrânea consegue a tecnologia médica certa para envenenamento por radiação. É de longe caro demais."

O rosto de Kaito corou com uma raiva nascente que ele nem mesmo sabia que tinha. "Meu pai—ele tinha a tec-médica. Ele ia usá-la com a minha mãe. Mas~não tinha sido aprovada ainda."

"Mercado negro?"

Kaito acenou com a cabeça. "Meu pai foi preso. Ele morreu na prisão, e minha mãe morreu não muito tempo depois."

A voz do homem estava afiada com compaixão. "Não é certo que qualquer um devesse controlar quem vive e quem morre. A tecnologia deveria ser para as pessoas. Para que elas possam cuidar de si mesmas, quando ninguém mais vai."

Kaito torceu a boca. "Mas sem regulações, qualquer um poderia construir qualquer coisa. Pessoas más poderiam construir armas." Precisava haver regras. Patas-Ligeiras tinha enfatizado esse ponto mais do que uma vez.

O homem deu um tapinha no ombro de Kaito e se inclinou. "Isso é o que as pessoas dizem quando elas querem controlar você." Ele puxou sua mão e arrancou outro pequeno drone tsuru de origami de sua armadura. "Aqui. De uma pessoa com a qual o sistema falhou para outra."

Kaito pegou o presente, surpreso pelo quão reconfortante ele o achou. Os Imperiais tinham drones próprios, mas este parecia diferente. Era um pedaço de um mundo que Kaito ainda tinha que ver.

O povo da lua caminhou a passos largos para a porta, os membros fluindo com graça apesar das arestas ásperas de sua voz. "Estou atrasado para uma reunião. Mas foi bom conversar com você, garoto."

"Não sou um garoto," Kaito chamou atrás dele.

O homem riu por cima de seu ombro. "Se você alguma vez estiver procurando por um emprego, eu acho que os Futuristas poderiam usar alguém como você. Apenas pergunte por Katsumasa."

Ele desapareceu para dentro do prédio, e Kaito sentiu como se a terra tivesse sacudido algo solto. Algo que ele tinha enterrado há muito tempo e tinha muito medo de revisitar.

Até agora.

Ele desejava ter alguém com quem conversar. Mas Eiko era dedicada à vida Imperial—ela nunca entenderia o conflito em seu coração. Nem a imperatriz. Não quando ela governava Kamigawa e acreditava tão plenamente que controlar a tecnologia era a única maneira de manter o equilíbrio entre os reinos mortal e espiritual em fusão.

Kaito assistiu os cavaleiros de mariposa voarem sobre o palácio, se perguntando se Patas-Ligeiras garantiria que aquele seria ele um dia. Um lealista até o fim.

Mas pelo menos ele estaria com as pessoas com quem se importava. Talvez desistir de uma parte de seu coração não seria tão ruim se ele estivesse lutando uma batalha que mantivesse sua família segura.

Ele já tinha perdido seus pais. Ele não perderia mais ninguém, nunca mais.

Guardando o drone tsuru em seu bolso, Kaito suspirou para as nuvens e lembrou que ele tinha uma reunião própria. Ele escalou de volta a parede e foi encontrar sua amiga.


Os meses passaram lentamente. Kaito nunca contou a ninguém sobre o Futurista no jardim. Era um segredo que ele carregava consigo. Um segredo que não deixaria seus pensamentos.

Mas ele de fato contou à imperatriz como seus ideais estavam mudando. Ela não concordou, mas ela o deixou falar, e de alguma forma isso apenas deu aos seus sentimentos mais propósito. Mas mesmo enquanto sua mente começou a se ramificar para longe dos ensinamentos Imperiais, o resto de sua vida parecia completamente inalterado.

Até o dia que Kaito encontrou Patas-Ligeiras de pé no jardim de sakura.

"Onde está Braço-Ligeiro?" Kaito inclinou a cabeça, intrigado. "Nossa lição de treinamento de combate foi cancelada?"

"Não haverá mais lições de treinamento de combate." Patas-Ligeiras enfiou as mãos na frente dela. Houve um tempo em que ela parecia se erguer sobre Kaito, mas agora eles tinham a mesma altura.

"Eu não entendo." O olhar de Kaito vagou ao redor do jardim pela imperatriz, mas ela não estava lá.

O nariz de Patas-Ligeiras se contraiu levemente. "Você é quase um adulto, Kaito. Não há razão para você ser o parceiro de treinamento de combate de ninguém. Você deve escolher um caminho e começar sua própria jornada. Braço-Ligeiro acha que você seria um bom encaixe para—"

"Eu não quero ser um samurai," Kaito interrompeu. Ele nem mesmo tinha percebido que ele tinha tomado a decisão até que as palavras saíram de sua boca.

Mas ele estava cansado de esconder quem ele era, e como ele se sentia.

As caudas de Patas-Ligeiras se endireitaram atrás dela. "Eu sei que você e a imperatriz têm uma amizade." Kaito desviou o olhar. "Mas é hora de ambos de vocês focarem em seus deveres para com Kamigawa—a imperatriz para com o seu povo, e você para com a imperatriz."

"Eu não preciso me juntar à Academia Cauda-Dourada para fazer isso," Kaito argumentou acaloradamente.

"A imperatriz tem muitos inimigos que desejam que ela falhe," Patas-Ligeiras alertou. "Ela precisa de samurais. Lealistas ." Ela pausou, a voz se afiando como uma lâmina. "Não um parceiro de treinamento de combate mais interessado em encher a cabeça dela com ideias sobre um futuro diferente."

O coração de Kaito rachou no meio. "Ela—ela te contou?" Eles tinham falado sobre tantas coisas ao longo dos anos, uma sombra para a outra. Eles tinham contado um ao outro seus medos. Suas esperanças para o plano.

Mas nunca uma vez Kaito pensou que ela iria trair os seus sentimentos para Patas-Ligeiras.

"É nosso dever proteger a imperatriz, sempre. Privacidade é uma ilusão para alguém do seu status." Patas-Ligeiras suspirou, dando um passo em direção a Kaito. "Talvez eu tenha permitido que você se agarrasse à sua infância por muito tempo. Poderia ter sido melhor se eu tivesse intervindo e colocado você em um caminho melhor."

"Um caminho melhor?" Kaito engasgou, os punhos tremendo. "Você não tem ideia do que isso é!"

Os olhos escuros de Patas-Ligeiras permaneceram fixos. "O equilíbrio é o único caminho. As máquinas que nós construímos podem mudar Kamigawa. Esse é um poder que precisa de supervisão."

"Um único caminho apenas funciona quando todos são iguais," Kaito disparou de volta. "Os Imperiais estão seguros em Eiganjo. Há harmonia com os kami, e a tecnologia está disponível sempre que eles precisam dela. Mas existem lugares em Kamigawa que não têm esses luxos. Pessoas que precisam empurrar os limites da tecnologia porque o seu mundo não é projetado para o conforto. E você a desliga—você os controla porque você não consegue imaginar um plano onde um civil possa precisar inventar equipamento diferente para se manter vivo, e seguro. Você limita o acesso para qualquer um que não tenha as permissões certas, sem qualquer consideração para aqueles que não podem pagá-las. Onde está o equilíbrio nisso? Você está matando pessoas e—"

"Isso é o suficiente, Kaito," Patas-Ligeiras estalou, as orelhas dobradas e as narinas dilatando. "Essas permissões e regulações garantem que a tecnologia é segura . Você está usando palavras radicais que não têm lugar no palácio Imperial."

"O que você quer dizer," Kaito respondeu amargamente, "é que eu não tenho lugar aqui."

Foi a primeira vez que Kaito tinha virado as costas para a sua mentora. Não pareceu corajoso, ou poderoso, ou atrasado.

Pareceu como cortar algo que talvez nunca seja consertado.


Kaito não conseguiu dormir naquela noite. Ele rolou e virou por horas, tentando não pensar sobre o que tinha desmoronado entre ele e Patas-Ligeiras.

Quando o alarme tocou através do palácio, ele já estava acordado.

Arrancando-se da sua cama, Kaito agarrou o seu drone tsuru de metal da cômoda. Tinha sido modificado para o uso diário e agora se encaixava confortavelmente contra o seu pulso. Ele correu para o corredor; samurais e funcionários Imperiais estavam em toda parte, alertando uns aos outros e correndo para os seus postos.

Kaito começou a se mover em direção aos aposentos de Eiko quando ele avistou uma das bibliotecárias correndo em direção a ele. Ele ergueu um braço para pará-la. "O que aconteceu?"

Ela balançou a cabeça para frente e para trás, o terror persistindo nos seus olhos. "Há um intruso no palácio. Eles estão dizendo que os Insurgentes estão aqui!" Empurrando o braço dele para longe, ela passou por ele a toda velocidade para a segurança.

Kaito hesitou. Ninguém estaria procurando por Eiko. Ela estaria segura com os outros estudantes diplomatas.

Mas a imperatriz~

Kaito girou nos calcanhares, procurando pela varanda mais próxima. Os samurais estariam observando os corredores, e as entradas, e os portões. Mas Kaito passou anos correndo pelo palácio, movendo-se para dentro e para fora de lugares sem ser visto.

E os guardas raramente observavam os telhados.

Sob o céu de veludo e estrelado, Kaito pegou a rota mais rápida para os aposentos da imperatriz. Seu peito queimava enquanto ele voava através das telhas pretas, os olhos cravados no jardim onde ele tinha passado tantas tardes. Quando ele avistou a varanda, não havia luz derramando sobre a grama.

Mas a porta já estava aberta.

Kaito saltou da parede, rolando até uma parada cuidadosa no degrau de baixo. Ele caminhou na ponta dos pés silenciosamente, pausando na porta, e removeu o drone de metal do seu pulso. Dobrou-se em um tsuru de origami e voou direto para as sombras.

Ele pressionou um dedo no chip contra a sua têmpora que o deixava ver através da câmera do drone. A imperatriz não estava lá, e nem o intruso. Mas a porta para a câmara de Kyodai também estava aberta, e lá dentro, a luz do luar varria o chão.

Um som ecoou através da sala—como três vozes chorando ao mesmo tempo. Um grito, uma canção, e um sussurro, todos eles afiados em dor.

Kaito não se importou em esperar no drone para mostrar a ele o que estava atrás da porta. Ele correu para o som. Porque se Kyodai estivesse com problemas, então a imperatriz~

Ele derrapou até parar quando ele alcançou a grande câmara, justo quando o drone pousou de volta em seu pulso. Uma fonte termal interna formava uma poça à distância, o nevoeiro cobria a água como um cobertor, fazendo parecer como se a sala se estendesse por uma eternidade.

Kaito nunca tinha posto os olhos em Kyodai antes. O espírito guardião de Kamigawa apenas falava através da imperatriz—canalizava a si mesma através da imperatriz de uma maneira que ninguém mais poderia jamais experimentar. Não sem a benção do grande kami, que apenas deveria ser dada na morte da imperatriz.

A kami era enorme, com centenas de braços dourados, de tamanho humano, formando a sua barriga e membros. Esferas de ouro seguiam ao longo dos leques nas suas costas, com uma grande preta embutida na sua testa. Com uma boca pontuda como um dragão, três máscaras forravam o rosto de Kyodai. Elas representavam Michiko Konda—a primeira imperatriz a canalizar com Kyodai.

[Kyodai, Alma de Kamigawa | Arte por: Daniel Zrom

O olhar de Kaito vagou para a enorme máquina central pendurada no teto. Uma vez lhe foi dito que Kyodai se agarraria a ela como um enorme cabo, quase como se ela estivesse se mantendo separada do plano mortal abaixo.

Mas agora Kyodai se contorcia na água, atacando o nevoeiro como se ela estivesse machucada e confusa.

A imperatriz não estava em lugar algum para ser encontrada.

Kaito estava pronto para chamar os guardas—para gritar para que eles viessem rapidamente e vissem o que estava errado com Kyodai—quando ele viu um homem estranho se erguer do nevoeiro ao lado do corpo da kami.

Um homem vestido em armadura de cromo como nada que Kaito já tinha visto antes, e um braço de metal que pulsava com energia roxa, as pontas formando uma garra monstruosa.

Quando ele cruzou os olhos com Kaito, eles brilharam em um rosa de outro mundo.

Com um escárnio, o homem saltou do nevoeiro em direção à varanda aberta. Kaito não tinha arma, mas não importava; ele não deixaria o intruso escapar, não importa o que custasse.

Ele o perseguiu pelos telhados. As telhas quebraram sob o peso do estranho. Ele era rápido demais, e determinado demais.

Mas Kaito estava determinado, também.

De olho em uma telha solta, Kaito atirou sua mão para frente e enviou o objeto navegando pelo ar. Estilhaçou contra o lado da cabeça do estranho.

Mas isso mal pareceu machucá-lo afinal. O homem com o braço de metal girou, os dentes à mostra, e então baixou o seu olhar para o pulso de Kaito. Um escárnio se formou em sua boca, e ele deu um peteleco no ar com os seus dedos.

Kaito sentiu o seu pulso puxar, e então ele foi arrancado do telhado, se debatendo enquanto ele tentava agarrar a borda—por qualquer coisa afinal—antes que o seu corpo caísse pelo ar.

Suas costas atingiram o jardim de areia com um baque . Kaito recuou, arrancando o drone de metal de seu pulso como se ele não estivesse com certeza se tinha sido comprometido, e mancou de volta para a parede, escalando tão rapidamente quanto o seu corpo ferido permitiria.

Quando ele alcançou a inclinação do telhado, o homem já tinha ido embora.

No momento em que ele retornou aos aposentos de Kyodai, onde todos os guardas de alta patente e conselheiros estavam esperando, ele percebeu que a imperatriz tinha ido embora, também.

Os Imperiais falavam uns sobre os outros, tentando descobrir o que fazer—o que tinha acontecido . Eles mal prestaram qualquer atenção em Kaito de forma alguma, ocupados demais tentando culpar os Insurgentes pelo ataque.

"Eu o vi," Kaito argumentou. "A pessoa que fez algo com a imperatriz. Ele tinha um braço de metal, e olhos brilhantes—ele não era um Insurgente." Ele não poderia ter sido. Não com aquelas roupas estranhas e um poder sobre a tecnologia que Kaito nunca tinha testemunhado antes.

Patas-Ligeiras apareceu com todas as sete caudas em leque atrás dela. "Um braço de metal?"

Kaito acenou com a cabeça, aliviado. Patas-Ligeiras acreditaria nele. Ela ouviria ele. Ela entenderia que—

Ela se virou para os outros conselheiros. "Talvez os Futuristas sejam responsáveis por isso. Eles podem ter usado um dispositivo protético não regulamentado para sequestrar a imperatriz, para tentar e forçar ela a mudar as leis."

"O quê? Não! Isso não é o que aconteceu," Kaito disse suplicantemente. "Não foram os Futuristas. Eu sei o que eu vi!"

Mas Patas-Ligeiras não estava escutando. Ela estava ocupada se reunindo com os Imperiais, descobrindo quem culpar e como retaliar.

Kyodai estremeceu à distância, balançando como se ela não entendesse o que estava acontecendo ou onde ela estava.

Talvez até quem ela era.

Era possível que em algum lugar lá fora, a imperatriz estivesse tão assustada e confusa quanto?

O rosto de Kaito queimava. Havia uma fúria pura em sua voz. "Você está olhando na direção errada. Você está tentando culpar os Futuristas ao invés de perseguir o homem que eu vi—o homem que eu sei que é responsável por isso."

Ninguém parou para ouvir. Não para Kaito.

Ele gritou acima do barulho e do nevoeiro. "Ele está fugindo. Se alguém não fizer algo, nós podemos nunca mais ver a imperatriz novamente!"

Patas-Ligeiras se virou, com os olhos repreendendo. "Vá para o seu quarto, Kaito. Este é um assunto Imperial."

Kaito sentiu isso então—o que ele sempre soube.

Ele não pertencia a esse lugar.

Ele nunca pertenceu.

Arrancando-se do templo, ele não parou as lágrimas de raiva de caírem pelas suas bochechas. E no momento em que ele chegou ao seu quarto, ele sabia o que ele tinha que fazer.

Partiria o seu coração deixar Eiko, mas ela tinha um lugar em Eiganjo. Ela tinha um propósito.

E mesmo que não fosse aquele que ele queria, agora Kaito tinha um propósito, também.

Ele iria vasculhar Kamigawa pelo homem com o braço de metal. Ele encontraria sua amiga e a traria para casa. E enquanto ele pudesse evitar, ele nunca mais colocaria os pés no palácio novamente.

Naquela noite, Kaito escalou sua parede final em Eiganjo, e ele não olhou para trás.

24/01/2022 | Por Akemi Dawn Bowman

Episódio 2: Mentiras, Promessas e Chamas Neon

Dez anos se passaram desde que Kaito deixou as muralhas de Eiganjo, mas alguns hábitos eram difíceis de quebrar.

A chuva dançava pelos telhados como uma canção. Kaito inclinou-se para a frente, as sobrancelhas franzidas enquanto vasculhava as ruas abaixo.

Towashi estava cheia de ainda mais cor do que o habitual. Um desfile de guarda-chuvas modificados parecia flutuar pelo pavimento, cada um deles brilhando com um escudo de energia neon que mantinha as pessoas sob eles secas. Um painel de vidro estalou com vida enquanto o menu noturno de uma casa de chá rolava pela tela. No alto, um par de carpas laranjas maciças e ardentes agitava suas caudas de seda enquanto nadavam em direção a um oceano de céu e luz das estrelas.

Normalmente, Kaito adorava a vibração de Towashi à noite, mas ele não tinha tempo para nostalgia. Ele estava procurando por alguém.

[Kaito Shizuki | Arte por: Yongjae Choi

Kaito pressionou um dedo na têmpora, e a transmissão ao vivo do seu drone apareceu em sua visão. O dispositivo pairava sobre um beco escuro, e Kaito conduziu o drone em forma de tanuki em direção à agitada rua em tons de arco-íris.

Uma década de avanços tecnológicos significava que era muito mais sofisticado do que o drone tsuru de origami da infância de Kaito. O tsuru tinha sido fácil de reciclar. Mas Kaito não tinha certeza se algum dia seria capaz de substituir seu drone atual, não importando o quão desatualizada ela se tornaria um dia.

O tanuki e Kaito tinham muita história.

Tameshi o avisou para não se apegar a uma única peça de tecnologia. "Tudo o que é novo um dia se torna velho," seu amigo havia dito.

Na maioria das vezes Kaito ficava feliz em ouvir a sabedoria de Tameshi. Ele havia sido tanto um amigo quanto um mentor ao longo dos anos. Mas Tameshi também havia passado a vida tentando não se apegar a ninguém, ou a nada.

Kaito era o oposto. Ele se sentia amarrado às pessoas com quem mais se importava, e faria qualquer coisa para proteger esses laços.

A drone tanuki, Himoto, era mais do que apenas uma peça de tecnologia — ela representava a kami que havia mudado a vida de Kaito para sempre.

Também era um lembrete de que sua amiga ainda estava desaparecida.

A drone parou perto de uma esquina antes de descer por uma fileira de vendedores de rua, todos eles abrigados por toldos brilhantes com bordas de lanternas penduradas.

Um Kami dos Vendedores de Rua sentou-se mal-humorado na beirada de um balcão, seu rosto parecido com massa franzido em uma careta. Três gyoza pairavam ao redor dele como se estivessem cambaleando na beira da esperança.

O vendedor próximo pegou uma porção generosa de ramen em uma tigela antes de adicionar bolo de peixe branco e rosa brilhante, fatias de ovo cozido e uma pitada de cebolinha por cima — tudo cozido com perfeição. Ele passou a refeição para um cliente que esperava, e o kami soltou um gemido decepcionado.

Mesmo através da câmera da drone, Kaito pegou a preocupação no olhar do vendedor. Os Kami estavam por toda parte em Kamigawa, mas nem todo mundo queria comer uma refeição ao lado de um espírito com um temperamento. Às vezes era melhor mantê-los felizes.

Com um suspiro, o homem estendeu a mão para trás do balcão pegando sua própria tigela de macarrão inchado que estava no caldo quente por tempo demais. O rosto rechonchudo do kami se transformou em puro deleite, e o prato mal tocou o balcão antes que ele jogasse o rosto no ramen e sorvesse furiosamente.

O vendedor revirou os olhos e se virou para o seu próximo cliente.

Kaito cutucou a drone para o céu em direção à altura dos prédios próximos. Com uma visão panorâmica, eles escanearam a cidade, procurando nos becos um por um até que ele avistou um grupo de samurais Imperiais parados do lado de fora de um apartamento. A maioria das janelas superiores estava selada com suas cortinas fechadas, mas uma havia sido deixada ligeiramente entreaberta. A fenda era tão pequena, que dificilmente seria notada por uma pessoa comum.

Kaito abriu um meio sorriso. Ele não via o impossível — ele via um convite.

Ele bateu em sua têmpora novamente, desligando os visuais da drone, e deslizou pelas telhas até a varanda abaixo. Seguindo a grade até o canto do prédio, Kaito escorregou pelas barras e escalou a parede de volta para o pavimento, perdendo-se na multidão próxima.

Ninguém notou a drone se aproximando, ou como Kaito pegou o dispositivo do ar em um movimento fluido. Em suas mãos, o metal se moveu como papel, dobrando-se e redobrando-se novamente até ela se tornar uma máscara.

A personificação do kami em forma de tanuki que fez a centelha de Kaito se acender.

Ele havia se tornado um planeswalker naquele dia. Alguém destinado à grandeza mesmo além das fronteiras de Kamigawa.

Kaito escovou um dedo contra a borda do dispositivo. Ele havia seguido a Kami da Centelha até Boseiju na esperança de encontrar a imperatriz. Mas não era sua amiga quem estava esperando por ele no distrito florestal — era seu destino.

Ele encolheu os ombros contra a chuva, pressionou a máscara em seu rosto e ajeitou seu capuz. Kaito não se importava com grandeza; ele só queria sua amiga de volta.

Kaito trocou as ruas pelas sombras como um espectro indetectável. Virando esquina após esquina, ele seguiu os becos em direção ao coração de Towashi. Quando alcançou o iminente prédio de apartamentos, ele começou a escalar.

Os samurais Imperiais estavam posicionados na porta. Ele podia ouvir o movimento da armadura de metal deles cada vez que se moviam. Armadura feita para a batalha, não para a furtividade.

Tanto barulho desnecessário , Kaito pensou consigo mesmo antes de balançar sobre a borda e plantar os pés na pequena varanda.

O tempo o havia mudado. Ele não era mais uma criança, ou um Imperial.

Mas ele ainda era o Kaito que escalava telhados e entrava furtivamente por janelas que não deveria.

Empurrando o vidro com sua mão enluvada, Kaito escorregou para o quarto sem fazer um som.

O quarto estalava com a luz do fogo. Kaito sentiu movimento, seu olhar saltando em direção à lareira. Ele esperava encontrar um kami aninhado dentro da chama, mas não havia ninguém lá. Apenas um brilho âmbar que fazia as sombras piscarem na parede.

"Não se preocupe", disse uma voz familiar. "Estamos sozinhos."

Kaito ergueu uma sobrancelha, mas não se virou. "Foi atencioso da sua parte deixar a janela aberta."

Houve um bufo irritado. "Nós dois sabemos que você não estava planejando usar a porta da frente. Se suas viagens interplanares não lhe ensinaram nada sobre etiqueta, tenho certeza de que é inútil até ter esperança."

"Se eu realmente quisesse aprender sobre etiqueta", Kaito começou, virando-se para encarar sua irmã, "eu teria vindo direto para você."

Os lábios de Eiko se curvaram em um sorriso. "É bom ver você."

Kaito empurrou sua máscara de tanuki para trás da cabeça. "É bom ver você também." Ele hesitou, tentando juntar a alegria de ver sua irmã com a realidade de quem ela cresceu para se tornar. Ele não odiava que ela fosse uma Imperial, mas odiava a distância que vinha com isso. "Eu sei que você não sai muito do palácio ultimamente."

"É difícil", Eiko admitiu. "Risona tem apoiadores por toda Kamigawa — não apenas os Insurgentes Asari nas montanhas Sokenzan, mas espiões em Towashi e na Cidade Subterrânea também. Não é sempre seguro para alguém como eu viajar sem proteção."

"Eu me lembro de você ser bem capaz de cuidar de si mesma", Kaito rebateu.

"Eu sou uma conselheira Imperial agora. Há mais a considerar do que apenas eu mesma", ela disse calmamente.

Kaito torceu a boca. As palavras dela o lembraram de alguém. Alguém com quem ele não falava desde o dia em que fugiu de Eiganjo. "A Pata-Ligeira está aqui com você?"

Os caminhos deles não se cruzavam há uma década. Kaito não estava intencionalmente evitando sua ex-professora, mas ele também não estava procurando por um reencontro. Porque quando se tratava da Pata-Ligeira, Kaito ainda sentia a dor como um hematoma sob a superfície.

Eiko balançou a cabeça. "Pata-Ligeira não tem tempo para reuniões diplomáticas. Ela está muito ocupada tentando evitar uma rebelião e impedir que o resto da corte se voltem uns contra os outros em sua aposta para ganhar mais poder." Havia um tom de frustração em sua voz. "Os Insurgentes Asari ficam mais ousados a cada dia. Quanto mais tempo o trono permanece vazio, mais Risona é capaz de ganhar apoiadores que acreditam que o império deveria ser abolido."

Por mais que Kaito acreditasse que os Imperiais podiam ser restritivos, ele nunca quis um fim completo à orientação do Imperial. Eles desempenhavam um papel importante quando se tratava de negociar com os kami. E a última coisa que Kaito queria era que Kamigawa explodisse em violência.

"A imperatriz vai voltar para casa." A garganta de Kaito se apertou com a memória do que ele havia perdido. Do que Kamigawa perdeu.

Ele havia viajado pelo Multiverso para encontrá-la, mas ele não estava mais perto do que estivera quando sua centelha acendeu. Tudo o que Kaito sabia era que o homem com o braço de metal era um planeswalker.

O que significava que a imperatriz poderia estar em qualquer lugar.

Eiko acenou solenemente com a cabeça. "Espero que você esteja certo. Pelo bem de Kamigawa, e pelo seu."

Kaito desviou o olhar. Às vezes, quando os dias eram longos e as noites calmas, a dor em seu coração parecia tão poderosa quanto havia sido quando ele ficou na câmara de Kyodai e percebeu que sua amiga se fora.

Mas agora não era o momento para corações doloridos. Fazia meses desde que ele vira sua irmã — ele não queria perder o tempo deles juntos ficando triste.

"Você sempre adorou se preocupar comigo." Ele se virou novamente, erguendo uma sobrancelha como se a estivesse provocando. "É por isso que você arriscou enviar uma drone Imperial até Towashi?"

Eiko franziu os lábios. A dinâmica deles era familiar — isso facilitava a recaída em velhos hábitos. E as brincadeiras sempre foram um dos seus favoritos. "Você não é o único com olhos nesta cidade, Kaito. Se você estivesse com problemas, eu saberia."

As palavras escorregaram da boca de Kaito com facilidade demais. "Eu não percebi que teria que deixar este plano apenas para ter um pouco de privacidade."

Eiko piscou. "Você não iria embora novamente sem dizer adeus." Não foi uma pergunta; foi um lembrete da promessa de Kaito.

Ele não se arrependia de ter deixado o palácio, mas se arrependia de como havia deixado Eiko sem nenhum aviso.

Eles haviam percorrido um longo caminho desde então. Eiko estivera em Boseiju com Kaito quando eles rastreavam a Kami da Centelha. Ela era a única Imperial em Kamigawa que acreditava que ele estava certo sobre o homem com o braço de metal ter algo a ver com o desaparecimento da imperatriz.

Mas algumas memórias deixavam suas marcas. E às vezes essas marcas ardiam.

Kaito ergueu os ombros, encabulado. "Oh, qual é. Você já deve ter me perdoado a esta altura. Eu basicamente salvei a sua vida no distrito florestal. Duas vezes ."

"Isso não é nem perto do que aconteceu. Você estava se embrenhando no território kami sem qualquer sentido. Você tem sorte de sequer ter sobrevivido tempo suficiente para acender essa sua centelha."

"Você sempre foi minha diplomata kami favorita."

"Eu diria que lisonjas não vão te levar a lugar nenhum, mas nós dois sabemos que essa é praticamente a única carta que você tem."

Sua risada ecoou pelo espaço. "Você me fere."

O fogo tremeluzia no olhar cintilante de Eiko. "Eu ouvi os rumores sobre Futuristas pesquisando bio-aprimoramentos ilegais que podem mexer com a física da realidade. Talvez você pudesse pedir a seus amigos que o ajudem a ter uma pele mais grossa."

O sorriso de Kaito desbotou levemente. Outra memória que carregava uma dor. "Nós não somos os vilões, sabe. Acreditamos que experimentar com tecnologia é o caminho a seguir — não para machucar as pessoas, ou começar guerras, mas para ajudar. Para curar ."

"Nós já temos tecnologia para isso."

"Sim, mas quem tem acesso a isso? Qualquer um que não pode pagar as licenças ou placas-mãe aprimoradas tem que esperar pela bênção de um kami para ter qualquer tipo de poder. E nós dois sabemos o quão raro isso é."

"Você já parou para pensar que talvez nem todos devessem ter acesso ao poder?" Eiko rebateu. "Os Imperiais não estão tentando ser regressivos. Mas temos portões de fusão para construir e proteger, e kami que veem nossas cidades em expansão como ameaças aos lares deles. O que acontece se eles começarem a ver nossas invenções como uma ameaça à existência deles?" Ela balançou a cabeça. "Para o bem do reino mortal e do reino espiritual, precisa haver equilíbrio."

"Dar poder a poucos sempre criará uma divisão. A tecnologia nivela o campo de jogo. Não apenas para os ricos e a elite, mas para todos . Não precisamos mais depender da magia kami — podemos nos proteger."

"De quem é que você precisa tanto se proteger? Porque da última vez que verifiquei, as únicas pessoas tentando começar uma guerra são aquelas que querem a mesma coisa que você," Eiko comentou friamente.

"Eu não apoio os Insurgentes," Kaito disse claramente. "Mas Kyodai não tem sido ela mesma desde que a imperatriz desapareceu. O que acontece se algo der errado com os portões de fusão e kami destrutivos forem libertados? Pode levar milênios para que os reinos mortal e espiritual se tornem um. Isso são mil anos de incerteza. A Guerra dos Kami pode ser lenda, mas você pode garantir honestamente que não veremos uma ameaça como essa novamente?"

Eiko enrijeceu. "Os kami não são nossos inimigos."

"Nós sequer sabemos quem é nosso inimigo." Kaito parou, engolindo o nó na garganta. "A imperatriz foi levada do templo de Kyodai, e ninguém nem mesmo viu isso acontecer."

Ele não tinha sido capaz de impedir. Ele tinha sido tarde demais, fraco demais, e despreparado demais.

Todos eles tinham.

O rosto de Eiko endureceu. "Não havia nada que você pudesse ter feito naquela noite."

"Se nós tivéssemos uma tecnologia melhor—"

"Tecnologia não regulamentada pode muito bem ter sido como a imperatriz foi levada em primeiro lugar!" Eiko interveio, bochechas ficando rosadas.

Kaito franziu a testa. "Os Imperiais já culparam os Futuristas — e os Insurgentes — sem a menor evidência. Eles quase causaram uma guerra ."

Eiko ficou em silêncio por muitos segundos.

Kaito viu a hesitação nos olhos da sua irmã. Ela estava escondendo algo. "O que você ouviu?" Ele piscou, a esperança batendo contra sua caixa torácica como um maremoto. "Você sabe onde a imperatriz está?"

"Não," Eiko disse. "Mas eu recebi algumas informações." Mesmo na luz do fogo, Kaito podia ver a tensão por trás dos olhos dela.

Seja lá o que ela soubesse, ela não devia contar para Kaito.

Ele deu um passo à frente, urgente. "Se isso é sobre a imperatriz—"

"É sobre Tameshi," Eiko interrompeu.

Os pensamentos de Kaito pararam. Ele não tinha certeza se tinha ouvido direito. "O que Tameshi tem a ver com qualquer coisa disso?"

[Arte por: Scott M. Fischer

Os olhos de Eiko se prenderam na porta. Kaito nunca a tinha visto tão nervosa. Ela alcançou o interior de suas vestes e tirou um pequeno dispositivo com o formato de um leque de papel. Com um roçar de polegar, as bordas se expandiram em um pequeno domo. A energia irradiou para fora, criando um casulo de luz branca ao redor dos irmãos.

"Um supressor de ruído?" Kaito cruzou os braços sobre o peito. "Isto deve ser sério se você nem confia em seus guardas."

Eiko respirou fundo. "Minhas fontes têm observado Tameshi por algum tempo. Ele está envolvido em negociar estudos de fusão ilegais envolvendo kami, e—"

"Se você pensa que eu vou fornecer informações sobre o meu melhor amigo aos Imperiais, você está redondamente enganada." Kaito rangeu os dentes. "Eiko, você é minha irmã, e eu amo você. Mas se você está me pedindo para ser o seu espião~"

"Eu não estou te dizendo isso porque eu quero a sua ajuda. Eu não deveria estar te dizendo isso de forma alguma . Mas—" Eiko apertou a ponte de seu nariz. "Não são apenas os estudos de fusão. É com quem ele estava." Ela suspirou, abaixando a mão. "Tameshi foi visto se encontrando com um homem na Cidade Subterrânea. Um homem com um braço de metal."

O fogo estalou atrás dele, mas Kaito podia sentir brasas queimando em seu próprio peito. Uma chama de desafio. "Seja lá o que suas fontes achem que viram, elas estão erradas."

Tameshi havia conhecido ambos no distrito florestal. Ele sabia sobre a imperatriz, e o kami, e o homem que Kaito estava procurando. Não havia um único segredo que Kaito mantivesse de seu amigo — nem então, e nem agora.

Não fazia sentido que Tameshi escondesse algo tão importante. Ele não poderia ter escondido.

"Acredite em mim, eu nunca compartilharia informações com você se eu não tivesse a certeza absoluta de que era verdade." Os ombros de Eiko caíram. "Especialmente não sobre isso."

A voz de Kaito era oca. "Tameshi não me trairia."

"Estou lhe contando o que eu sei," Eiko disse. "Dez anos atrás, você jurou que nunca pararia de procurar a imperatriz. Se Tameshi conhece o homem com o braço de metal e nunca lhe contou, você não quer descobrir o porquê?"

"Eu não vou alimentar você com informações," Kaito disse seriamente. "E eu não vou entregar meu amigo para ser usado como bode expiatório."

"Eu não estou lhe pedindo para fazer isso. Nós queremos a mesma coisa — encontrar a imperatriz, o mais rápido possível. Eu estou simplesmente lhe dando a informação que você precisa para fazer a coisa certa. Para descobrir a verdade ."

Kaito desviou o olhar amargamente. Tinha que haver outra explicação. Tameshi nunca mentiria para ele. Ele nunca o trairia.

Ele trairia?

"Kamigawa precisa de uma governante," Eiko disse cuidadosamente. "Alguém para restaurar o equilíbrio entre nosso povo."

Kaito ergueu o queixo, encarando a irmã. "Eu não acredito que um trono seja a chave para restaurar o equilíbrio. Mas eu farei o que for preciso para encontrar a imperatriz."

Ele havia confiado em Tameshi por um longo tempo.

Mas ele havia confiado em Eiko por muito mais tempo.

Se a inteligência dela estava certa ou errada, Kaito acreditava em sua irmã o suficiente para seguir a trilha. E se espionar seu melhor amigo era a única maneira de provar a inocência dele, então Tameshi apenas teria que perdoá-lo.

Kaito moveu-se para a janela, deixando a proteção do domo atrás de si.

Eiko fechou o leque de metal antes de guardá-lo de volta em suas vestes. "Me desculpe, Kaito." Ele parou perto da borda, ouvindo sua voz sombria. "Eu sei o que ele significa para você."

Kaito não queria acreditar. Mas se Tameshi realmente estivesse trabalhando com o homem com o braço de metal, e se ele tivesse conhecimento do que aconteceu com a imperatriz todo esse tempo~

Então, talvez a amizade deles nunca tivesse sido o que Kaito pensava.


Kaito ficou na borda do beco, as costas pressionadas contra a parede de pedra. Otawara estava no alto das nuvens, e às vezes Kaito se convencia de que a cidade flutuante tinha menos sombras por causa disso, e muito menos lugares para se esconder.

Seu drone tanuki era muito reconhecível para ser de qualquer ajuda por perto de Tameshi, então Kaito teve que segui-lo à moda antiga — com seus olhos, ouvidos e pura determinação. Conforme as semanas passavam e ele continuava a coletar informações, Kaito se viu odiando a nova máscara que usava.

A máscara de um mentiroso.

Doía cambalear na beira de trair seu amigo. Mais de uma vez, Kaito quase convenceu a si mesmo de que era tudo um mal-entendido. Que Eiko estava errada, e que não poderia ter sido o mesmo planeswalker que ele vira no templo de Kyodai.

Mas cada pedaço de informação que Kaito descobria apenas confirmava o que sua irmã lhe dissera.

Tameshi estava escondendo algo. Não apenas de Kaito, mas dos outros Futuristas, também.

[Arte por: Alayna Danner

Kaito o observava dia após dia, trabalhando no departamento Futurista como se suas crenças estivessem alinhadas com o resto de Otawara. E então o sol se punha, e quando todos os outros iam para casa, Tameshi ficava dentro de seu laboratório, prosseguindo com um projeto que ninguém mais no complexo parecia conhecer.

Kaito vira Tameshi fazer acordos de aperto de mão em becos escuros por intensificadores de poder roubados. Ele observara seu amigo esgueirar caixas de carga para o seu local de trabalho secreto na calada da noite. E ele observara os drones não regulamentados deixarem o complexo e irem direto para a Cidade Subterrânea de Towashi.

Eram provas de que Tameshi estava fazendo algo ilegal. Mas Kaito precisava de provas de sua traição .

Tameshi apareceu na entrada principal do complexo, o drone já desdobrado em sua mão. Com um empurrão gentil, ele enviou o dragão semelhante a uma fita para o ar, observando enquanto ele se arqueava além das árvores em busca do chão lá embaixo. Ele checou o painel na sua manga, observando a hora, e em um passo gracioso, ele voou para o ar e desapareceu em direção ao horizonte.

Kaito não esperou muito. Não havia mais ninguém por perto; os colegas de Tameshi haviam ido para casa horas antes. Ele removeu um dispositivo de seu cinto — uma pequena estrela de arremesso que brilhava em azul nas bordas — e mirou na câmera de segurança mais próxima. Ele moveu o pulso bruscamente, e a estrela girou pelo ar antes de se fixar no lado da câmera. Ela piscou uma vez. Duas vezes.

E então as bordas brilhantes ficaram verdes.

Mascarado com o capuz puxado firmemente, Kaito deixou o beco e andou direto pelas portas da frente do complexo de Tameshi. Nenhuma câmera o veria agora — não com o dispositivo congelando as filmagens.

Mas ele precisava ser rápido. Não havia como saber quando Tameshi estaria de volta.

Os pisos de cerâmica ecoavam como osso, frios e vazios. Kaito lutou contra o calafrio que percorria por ele. Não era sua primeira vez dentro do complexo, mas era a primeira vez que ele se sentia como um estranho.

Como um traidor , sua mente zumbiu, e ele tentou afastar isso.

Se Kaito estivesse errado sobre Tameshi, ele aceitaria as consequências que poderiam cruzar o seu caminho. Mas se Tameshi tivesse mentido para ele todo esse tempo~

Kaito não estava pronto para encarar a verdade, mas pelo bem da imperatriz, ele faria isso de qualquer maneira.

Ele passou pela porta de metal que levava ao laboratório de Tameshi sem um segundo olhar. Não fazia sentido tentar invadir — não sem um cartão-chave, ou um mecha gigante.

E Kaito não achava que explodir o laboratório em pedaços faria muito bem de um ponto de vista de evidência.

Em vez disso, Kaito foi direto para o escritório de Tameshi. Uma mesa enorme ficava no centro, atulhada com uma combinação de chips de dados e papelada. Uma lanterna redonda ficava no canto, e Kaito pressionou um dedo na lateral para trazê-la à vida. Usando sua telecinese, Kaito ergueu a lanterna para o ar até que ela pairasse firmemente ao lado dele.

Ele olhou por cada gaveta e armário na sala e revistou cada pedaço de papel na mesa de Tameshi. A maior parte não era importante, mas havia uma mensagem codificada que Kaito encontrou enfiada embaixo de um arquivo. Não demorou muito para Kaito decifrá-la — ele havia aprendido cada truque que Tameshi estivera disposto a lhe ensinar.

Era vago no que diz respeito a mensagens, mas parecia ser um pedido para um encontro na Cidade Subterrânea. Era um longo caminho para uma reunião; a Cidade Subterrânea ficava na superfície, espremida entre as sombras de Boseiju — a maior e mais antiga árvore viva em Kamigawa — e os arranha-céus de Towashi. Certamente não era uma localização prática para negócios corriqueiros.

Ir tão longe de Otawara~implicava uma necessidade ainda maior de segredo do que a que o Futurista médio requeria.

Kaito tamborilou os dedos ao longo da beirada da mesa, franzindo a testa para a mensagem enquanto checava novamente a data e a hora. A reunião aconteceria hoje à noite, e logo — devia ser para onde Tameshi estava indo.

Mas quem ele estava encontrando? E por quê?

Conforme Kaito começava a se levantar, ele avistou um chip de dados escondido atrás de alguns dos papéis. Ele o conectou com sua máscara tanuki, levou alguns momentos para contornar a criptografia, e assistiu enquanto a imagem aparecia no painel interno.

Era a planta de um dispositivo estranho, fino e quadrado, com braços semelhantes a arames saindo dele como uma água-viva. Kaito nunca tinha visto nada parecido antes.

[Arte por: Campbell White

Mas isso ainda não provava que Tameshi conhecia o homem com o braço de metal.

Para isso, Kaito teria que invadir uma reunião na Cidade Subterrânea.

Kaito removeu o chip de dados da sua máscara tanuki e o escondeu debaixo das páginas. Ele se afastou da mesa e flexionou seus dedos, enviando a lanterna de volta para seu suporte, e se apressou para fora.

Quando ele estava em segurança pelas portas, Kaito estalou os dedos, e o dispositivo se desengatou da câmera e flutuou de volta para ele. Ele o pegou do ar, enfiou em seu cinto, e foi em direção à balsa celestial.


Kaito contornou a barriga da Cidade Subterrânea com facilidade. Mesmo se não fosse no meio da noite, nenhuma luz do sol jamais chegava à superfície, e as luzes neon da cidade pareciam não alcançar as ruas mais estreitas. Os cursos de água turvos estavam cobertos de flores de cerejeira, mas mesmo a estética charmosa não podia mascarar o fedor de suor e esgoto no ar.

Não demorou muito para rastrear Tameshi — o povo da lua não se aventurava com frequência na Cidade Subterrânea, e mais de um estranho ficava feliz em trocar informações por uma pequena taxa.

Kaito seguiu o rastro de seu amigo até as docas. As fontes de luz eram escassas na beirada da cidade, e a água do canal era quase preta. Kaito podia sentir o gosto de um azedume desagradável em seus lábios — a mancha química que vinha de estar tão perto dos esgotos da Cidade Subterrânea.

Ele fez uma careta, mantendo suas mãos soltas ao seu lado, pronto para pegar sua espada ao primeiro sinal de problema. Ele não sabia o que encontraria, mas se ele visse o homem com o braço de metal de novo, ele não estava planejando deixá-lo escapar.

O vapor dos respiradouros próximos ajudava a mascarar os passos de Kaito enquanto ele vagava pela beirada das docas. Contêineres de metal estavam empilhados em fileiras uniformes, oferecendo muitos lugares para se esconder. Mas a atenção de Kaito estava fixada no armazém à frente, onde a luz derramava de um par de portas largas de baia.

Kaito removeu sua máscara, deixando Himoto se transformar de volta em um drone de quatro patas. Silenciosamente, ela voou em direção ao armazém. Ao mesmo tempo, Kaito estendeu a mão para a espada em suas costas. Com um movimento no cabo, as bordas se expandiram em duas fileiras de dentes afiados e irregulares.

Apertando sua empunhadura, Kaito se arrastou atrás da drone e pressionou um dedo na sua têmpora.

Dentro do armazém, a drone tanuki flutuou em direção a um espaço escuro acima das vigas. Caixas de metal preenchiam a maior parte do cômodo, mas no extremo oposto havia uma área aberta cheia de mesas e equipamentos de laboratório. Béqueres brilhantes estavam contorcidos uns aos outros como um labirinto de vidro. Alguns deles borbulhavam com líquido neon, e outros soltavam faíscas com energia. Instrumentos cirúrgicos estavam espalhados pela superfície — havia facas de formato estranho que pareciam triângulos largos, e outras que eram finas como gravetos. Béqueres menores preenchidos com estranhos soros de tons metálicos estavam dispostos em uma mesa de trabalho, e fragmentos de metal e fios desfiados circundavam uns aos outros como peças de quebra-cabeça que não se encaixavam muito bem.

Inquietação percorreu os ossos de Kaito. Esses experimentos~eles não se pareciam em nada com o trabalho Futurista que ele vira em Otawara. Ou em qualquer lugar em Kamigawa, por falar nisso.

Kaito conduziu Himoto para mais perto do equipamento de laboratório quando uma sombra enorme o fez parar. Ele podia ouvir vozes da porta. Uma discussão que estava em andamento há muito tempo.

Mesmo com a câmera da drone, tudo o que Kaito podia ver abaixo era uma sombra grande demais. Quando ela se moveu, Kaito ouviu um tremor não natural na voz da figura, como metal rangendo contra metal.

"A utilidade prévia do ser de carne é irrelevante. A dúvida e a fraqueza devem ser extirpadas do todo."

[Arte por: Joshua Raphael

Houve um arrastar de passos perto de um dos contêineres, e uma voz ríspida murmurou algo que Kaito não pôde ouvir.

A figura enorme se moveu mais uma vez, pisando ainda mais para a luz. Kaito prendeu a respiração quando um monstro estranho apareceu. Seu corpo era feito de cromo, com braços com garras e uma espinha curva. Costelas expostas e vértebras pontiagudas eram exibidas como trabalho em metal. Seu rosto e boca eram monstruosos e parecidos com um pássaro, com muitos pontos afiados e dentes longos e chatos que fizeram Kaito cambalear para trás, mesmo fora do armazém.

Este não era o homem com o braço de metal que Kaito vira no templo de Kyodai. Isto era algo completamente diferente.

A criatura se moveu pelo espaço com uma marcha não natural, e Kaito puxou sua drone ainda mais para dentro das sombras por cobertura.

"Finalizem a coleta dos materiais necessários e transfiram os espécimes adquiridos." O monstro se virou, mandíbulas se abrindo enquanto o chocalho metálico de sua voz fazia o estômago de Kaito ficar oco. "Não diminuam a velocidade do progresso. Os sujeitos recuperarem um estado totalmente consciente é um resultado inevitável."

Um grupo de capangas apareceu na câmera da drone. Acertadores, pelo visual de suas roupas. Havia quase uma dúzia deles, embaralhando apressadamente o equipamento da mesa e para dentro de um veículo à espera. Eles deixaram os béqueres para trás, ainda borbulhando com cor, e começaram a deslocar um dos contêineres maiores em direção ao veículo, em vez disso.

O tamanho perfeito para armazenar algum tipo de arma , Kaito pensou brandamente. No que Tameshi se envolveu?

Os capangas tinham a carga parcialmente carregada no veículo quando um grito soou de dentro. O coração de Kaito se apertou com o pensamento da imperatriz em uma jaula em algum lugar, mas os ruídos dentro da carga eram mais animais do que humanos.

Eles soavam como kami .

Ele queria investigar. Ele sabia que o que quer que estivesse dentro do contêiner poderia fornecer respostas sobre o que estava acontecendo no armazém.

Mas não havia tempo, e Kaito não podia enfrentar uma dúzia de Acertadores e um monstro todo sozinho.

"O que nós fazemos sobre os béqueres?" um dos capangas perguntou.

A criatura fez seu caminho em direção ao veículo sem olhar para trás. "Todas as evidências devem ser erradicadas. A expansão do trabalho continuará em um local mais otimizado, cortesia do ser de carne."

Com um sorriso de escárnio, o Acertador se virou, pegou um dos béqueres sozinhos, e o jogou contra o resto do vidro com força.

A explosão fez Kaito pular em alarme, a pegada apertando ao redor de sua espada. Ele piscou rapidamente, pressionando a têmpora para chamar sua drone de volta, e ouviu o estrondo do veículo enquanto ele acelerava para longe.

O estalo e o sibilar raivoso do fogo foram um aviso.

Mas também havia evidência lá dentro. Evidência que estava sendo destruída.

Kaito correu para o armazém sem um segundo pensamento, apressando-se em direção às chamas coloridas que já estavam subindo pela lateral do armazém. Em mais alguns minutos, todo o prédio estaria engolfado.

Seus olhos examinaram as mesas por algo para pegar — algo que pudesse ajudá-lo — mas tudo o que foi deixado para trás já estava queimando, feroz e brilhante demais para parar.

Os ombros de Kaito caíram, bem quando um gemido soou em algum lugar atrás dele.

Ele girou, a espada erguida, e viu Tameshi caído no canto ao lado de um dos contêineres. O tecido de suas vestes havia sido cortado no meio, arranhado por um braço de metal. Seu rosto havia empalidecido para um tom que Kaito nunca tinha visto em seu amigo antes. E ao redor dele, o sangue começou a se acumular.

Tameshi estava mortalmente ferido.

Enfiando sua espada de volta na bainha, Kaito correu para o lado do amigo e caiu de joelhos. Havia tantas coisas que ele queria dizer. Tantas coisas que ele queria perguntar.

Mas naquele momento, seu coração se sentiu tão estilhaçado quanto o vidro queimando atrás dele, e ele não tinha nenhuma palavra.

Tameshi ergueu a cabeça, os olhos lutando para se manterem abertos. "Kaito~"

Kaito balançou a cabeça de novo e de novo. Isto não podia estar acontecendo. Ele não iria perder outro amigo.

Mas a morte tinha outros planos.

A voz de Tameshi era tão fraca quanto a cinza. "Eu—Eu cometi tantos erros. Mas mentir para você foi o pior deles."

Kaito sentiu o fogo rugir atrás dele. Ele não podia mover Tameshi — isso apenas aceleraria o inevitável. E se segundos eram tudo que lhe restavam~

Ele queria lhe dizer para não se preocupar. Para lhe dar paz e perdão naqueles momentos finais. Para lhe dar tudo o que um amigo merecia.

Mas ele tinha outra amiga, também. E ainda havia tempo de ajudá-la.

"Me diga o que você sabe sobre a imperatriz," Kaito implorou, lutando contra o ardor em seus olhos. "Como você conhece o homem com o braço de metal?"

Os olhos de Tameshi tremeram.

"Não!" Kaito agarrou as vestes do amigo e puxou. "Não se vá ainda. Não sem me dizer a verdade."

O último suspiro de Tameshi parou como o último sussurro de uma luta. Ele olhou para Kaito com tanto arrependimento quebrado e irreparável.

Ele estava sem tempo.

"Tezzeret," Tameshi sussurrou como se estivesse quebrando um feitiço. E então ele se foi.

O choro de Kaito se tornou um suspiro engasgado, e as lágrimas escorrendo por suas bochechas pareciam que estavam sendo cauterizadas em sua pele. Ele sentiu o calor alcançar suas costas, o fogo crescendo perigosamente perto.

Serrando os dentes, Kaito pressionou a mão nos olhos de Tameshi e murmurou um adeus silencioso. Mesmo parecendo errado, ele alcançou o bolso de seu amigo e removeu o cartão-chave para o seu laboratório.

Tameshi podia estar morto, mas Kaito tinha mais a fazer.

Seu drone tanuki apareceu ao seu lado, dobrando-se de volta em uma máscara. Kaito cobriu seu rosto e ficou sobre o corpo do amigo, lutando contra a angústia que balançava seus ombros, e foi embora.

Atrás dele, o armazém ardia.

25/01/2022 | Por Akemi Dawn Bowman

Episódio 3: Uma Aliança Inesperada

A luz do sol derramava através das árvores, ondulando sobre o pântano. Kaito não se afastou da estrada. Ele sabia que até a flor de aparência mais inocente poderia ser mortal no pântano.

Os nezumi nunca esconderam que não gostavam de visitantes; usar a paisagem venenosa a seu favor era o impedimento perfeito. E sob circunstâncias normais, Kaito nunca teria arriscado se aventurar tão fundo no território deles.

Mas a chave para encontrar Tezzeret estava com os nezumi.

[Arte por: Bryan Sola

Após a morte de Tameshi, Kaito passou semanas rastreando cada pedaço de informação que pudesse encontrar sobre Tezzeret. Ele tinha ido às bibliotecas de Otawara, vasculhou cada arquivo, e falou com alguns dos Historiadores Vivos mais reverenciados de Kamigawa.

Tezzeret não existia em nenhum disco de dados.

Mas ele existia em uma memória.

Um Historiador que se apresentava em um dos teatros mais antigos de Towashi falou de uma vila habitada pela gangue Nezumi-Katsuro. Ela havia queimado cinco anos antes, atacada por forças que nunca foram responsabilizadas.

Um dos sobreviventes era uma criança chamada Nashi, cujos pais tentaram levá-lo para a segurança quando o ataque começou. Nashi tinha apenas chegado à beira da vila quando assistiu com terror sua mãe ser queimada viva e faíscas de fogo acenderem cada cabana ao seu redor.

A vila nezumi queimou durante a noite, e depois que o fogo se dissipou e os sobreviventes se reuniram perto das cinzas, Nashi ouviu os adultos sussurrarem o nome do homem que ordenou o ataque.

Eles o chamavam de Tezzeret—e ele tinha sido traído por seus subordinados, que o deixaram com morte cerebral na vila queimada para os nezumi encontrarem. Eles mantiveram Tezzeret até o dia em que um dragão chegou e negociou por seu corpo.

Os nezumi temiam retaliação da organização de Tezzeret. Eles tinham medo de que se alguém descobrisse que havia sobreviventes, alguém poderia retornar para terminar o trabalho. Então, os nezumi fizeram a única coisa que podiam—eles ajudaram a criança a se tornar um fantasma. Então eles se tornaram fantasmas, também.

Eles poderiam se esconder pelo resto de suas vidas, mas Nashi não tinha nenhuma família sobrevivente. Era mais bondoso enviá-lo para longe do pântano, onde a organização de Tezzeret nunca seria capaz de encontrá-lo e ele poderia recomeçar.

Mas os nezumi das vilas vizinhas não falariam com Kaito. Não apenas sobre Nashi, mas sobre qualquer coisa . Eles gritavam maldições e batiam suas portas e até ameaçaram envenená-lo se ele não fosse embora. A julgar pelo número de flores tóxicas ao longo da estrada, ele não duvidava que estivessem falando sério.

Kaito não tinha amigos no pântano. Mas havia respostas aqui, e ele não estava pronto para voltar antes de encontrá-las.

Ajustando sua máscara de tanuki, ele seguiu a estrada quebrada, uma faixa translúcida de energia, através da água turva. Era o suficiente para manter Kaito seco, mas ele olhou para as rachaduras amarelas brilhantes nervosamente. Se a estrada cedesse, não havia nada para mantê-lo acima do solo.

Ser comido vivo por enguias venenosas não era exatamente o fim que Kaito tinha imaginado para si mesmo. Não que ele tivesse aversão a enguia; ele gostava bastante delas quando eram assadas com óleo de gergelim e enroladas em arroz e alga marinha.

Kaito se apressou para a próxima linha costeira. Raízes maciças se projetavam do chão como uma bagunça de fios emaranhados, bloqueando a estrada brilhante à frente. Uma trilha menor era tudo o que restava, coberta de seixos e cobertura morta achatada.

Kaito seguiu a trilha até chegar a uma vila. Era menor do que algumas das outras, com casas feitas de telhados de palha e portas de papel deslizantes. Casas que facilmente desmoronariam se o vento soprasse muito rápido.

Ou um incêndio , Kaito pensou sombriamente.

O que aconteceu com a família de Nashi foi violento. Talvez até vingativo.

Kaito precisava saber o porquê—e como isso se conectava a Tameshi, e ao monstro que ele viu nas docas.

Como isso se conectava à imperatriz .

Um amplo caminho de terra cortava pelo centro da vila. No final havia um ferro-velho cheio de sucatas de metal e pedaços desatualizados de máquinas.

Havia rumores de que os nezumi nos pântanos estavam fazendo experimentos com tecnologia não regulamentada. Eles frequentemente trocavam suas criações com os Reckoners de Okiba—uma gangue de motoqueiros que era exclusivamente nezumi—em troca de um fluxo quase constante de bens roubados.

Mas Kaito era um Futurista, cujas crenças centrais eram expandir os limites da tecnologia para um bem maior.

Quem era ele para julgar no que os nezumi se metiam?

Uma nezumi grisalha mais velha estava atrás de uma cerca de madeira, o pelo ao redor de sua boca salpicado de prata. Suas garras estavam enroladas ao redor do cabo de uma ferramenta de jardinagem, a lâmina serrilhada em forma de pinça e presa a uma caixa de metal que vibrava com energia.

"Você não é bem-vindo aqui", ela latiu.

Kaito hesitou, olhando para a lâmina irregular. Ela poderia facilmente ser usada como uma arma.

A nezumi estreitou seus olhos rosa-escuros. "É para colher cogumelos. Corta os caules na medida certa para evitar que os esporos sejam liberados." O nariz dela se contraiu. "Se você está aqui para checar nossas licenças—"

"Não estou", Kaito disse rapidamente, segurando suas mãos na frente dele, esperando mostrar que não era uma ameaça. Não no momento, de qualquer forma.

Seus inimigos eram mais monstros do que roedores.

Ela cheirou o ar. "Humanos não viajam até aqui a menos que seja para seu próprio benefício." Ela mostrou seus dentes amarelos. "Nós nunca valemos a inconveniência."

"Seus bens roubados e projetos paralelos ilegais não são minha preocupação. Estou aqui por informação." Kaito deixou o silêncio se seguir. Era um risco chamar os nezumi tão descaradamente, mas ele tinha lidado com o suficiente deles em Towashi para saber que eles respeitavam a honestidade brutal muito mais do que palavras adoçadas.

Na maioria das vezes.

Um nezumi marrom-escuro apareceu na varanda próxima, cauda longa arrastando atrás dele. Ele olhou para sua vizinha, sibilando violentamente. "Você compartilha demais com este estranho, Cauda-de-Lama."

A nezumi anciã estalou as mandíbulas em resposta. "Vá para dentro e cuide da sua própria vida, antes que um desses cogumelos faça um desvio pela sua casa."

O vizinho rosnou levemente, pelos se arrepiando na nuca, mas ele deu um passo para trás em submissão.

"Estou procurando por alguém chamado Nashi." Kaito olhou entre eles. "Ele costumava morar a alguns quilômetros daqui quando era criança."

Ao som de seu nome, vários kami espiaram suas cabeças debaixo da varanda do vizinho. Kami que inconfundivelmente pertenciam ao pântano, com sua coleção de cogumelos flutuantes e flores venenosas girando em torno de suas cabeças. Um olhou para Kaito com seis enormes olhos de sapo. Quatro bolhas circulavam em torno dele, com girinos se contorcendo ansiosamente dentro.

Os nezumi podiam ter experiência em mentir, mas os kami não.

Debaixo da varanda, eles começaram a sussurrar uns para os outros. Cauda-de-Lama lançou-lhes um olhar afiado, e eles recuaram para as sombras.

Ela deu de ombros para Kaito. "Nunca ouvi falar deles."

Kaito olhou para o telhado. A palha estava rala e desfiada perto dos cantos. "Parece que você vive aqui há muito tempo. Tempo suficiente para lembrar do incêndio."

A cauda dela levantou atrás dela, balançando hipnoticamente. "Os humanos não nos ajudaram naquela época. Por que nós algum dia ajudaríamos você agora?"

"Talvez pela minha boa aparência e personalidade charmosa?" Quando a nezumi não reagiu, Kaito levantou os ombros. "Olha—eu só quero falar com ele."

Cauda-de-Lama encostou o cabo de madeira na cerca e se moveu para a casa. "Eu não acho que isso seja realmente sua escolha." A nezumi estava quase na sua porta da frente quando ela disparou, "Leve suas perguntas de volta para onde quer que seja que você veio. Não queremos você aqui."

Foi a dispensa mais educada que ele teve o dia todo.

Quando ela desapareceu lá dentro, Kaito olhou para o estranho ainda na varanda. Os olhos dele eram mais escuros—mais ônix do que rubi.

"Eu sei que os nezumi o esconderam. Eu sei que vocês querem protegê-lo." Os dedos de Kaito estavam inquietos, dançando em seus lados. "Mas o que ele sabe~poderia ajudar todos nós em Kamigawa."

"Eu nunca mordi um humano antes. Nós paramos de atacar com nossos dentes para parecer mais civilizados para vocês humanos. Achamos que isso poderia mudar as coisas—mostrar a vocês que éramos iguais, não animais." Ele deu um sorriso de escárnio. Um aviso. "Mas alguns de nós estão cansados de fingir ser algo que não somos."

Levaria a Kaito apenas meio segundo para puxar sua espada de suas costas. Sem mencionar que ele poderia alvejar o nezumi com cogumelos venenosos meramente estalando os dedos.

Teria sido o mais divertido que ele teve a semana toda. Mas não daria informação a ele. Para isso, Kaito precisava ser bonzinho.

Ou pelo menos fingir ser.

Ele deu um passo para trás. "Obrigado pelo seu tempo." Kaito se virou da vila, sentindo os olhos de uma dúzia de nezumi em suas costas.

A estrada brilhante apareceu à frente, e Kaito alcançou sua máscara, deixando o metal se transformar em um pequeno tanuki. Ele não parou de andar, mesmo quando Himoto, o drone, foi lançado de sua mão e desapareceu através das árvores próximas, de volta na direção da vila.

Kaito caminhou até ter certeza de que não poderia ser visto.

Esquivando-se atrás de um salgueiro, ele manteve distância de toda planta desconhecida e pressionou um dedo na têmpora. Usando a câmera de seu drone, ele voou através do pântano e entrou na vila pela lateral. O drone se escondeu nas plantas murchas, miras travadas no Kami da Área Úmida que caminhava pesadamente em direção a outra cabana, bolhas flutuando ao redor dele com urgência.

O drone correu atrás dele, com cuidado para ficar fora de vista, e seguiu o telhado em direção a uma chaminé sem fumaça antes de mergulhar em direção à lareira.

Kaito ouviu o coaxar do kami enquanto ele se arrastava para a sala de estar, retransmitindo uma mensagem mal audível para quem quer que estivesse lá dentro.

"Eu sei", uma voz rouca retrucou. "Nossa vila não é a primeira que ele visitou—e quanto mais ele fala o nome de Nashi, em mais perigo ele o coloca."

O kami coaxou novamente. Desta vez, Kaito pegou uma palavra.

Otawara.

"Sim. Vou avisá-la. Mas não há sentido em enviar um drone antes do anoitecer—ele seria capaz de rastreá-lo muito facilmente à luz do dia", a figura disse com uma voz abafada. "Por agora, só precisamos nos certificar de que nosso silêncio é tudo o que damos ao humano."

O drone tanuki se ergueu de volta pela chaminé, acomodou-se atrás das pedras e esperou.

Quando Kaito chegou à beira do pântano, o sol tinha se posto. Com a transmissão do drone ainda ao vivo, ele assistiu enquanto o drone do nezumi se dobrava na forma de um coelho e partia na escuridão.

O tanuki o seguiu, e Kaito seguiu na direção de Otawara.


Era quase amanhecer quando Kaito alcançou a cidade no céu. O drone do nezumi havia desaparecido em um dos bairros lotados, mas não importava. Kaito procuraria nas ruas a pé.

Após se reunir com sua máscara de tanuki, ele se moveu através do parque, escaneando as casas à distância. Não foi até que ele virou em um jardim de musgo estreito que ele percebeu que não estava sozinho.

Uma sombra se estendia sobre a grama. Em um instante, a mão de Kaito estava ao redor do punho de sua espada, e ele a balançou para frente e girou para enfrentar a figura que se aproximava.

Um povo da lua pairava na frente dele com quase nenhum lampejo de emoção atrás de seus olhos roxos. Em sua mão estava um pergaminho não enrolado, com vários mais agrupados em uma bolsa em sua cintura.

Kaito girou sua espada, e a borda serrilhada da lâmina apareceu apenas por um momento antes de uma dúzia de lâminas em forma de estrela se separarem umas das outras, mantidas no lugar por sua telecinese.

A mulher olhou brevemente para a arma. "Não é meu desejo machucá-lo."

"Dê um minuto", Kaito disse, voz suave. "Você mal me conhece."

A estranha deslizou para a esquerda, movendo-se como uma brisa silenciosa. "Sua busca deve terminar hoje. Por favor, vá para casa em paz e não fale o nome da criança novamente."

"Desculpe", Kaito respondeu. "Eu não vou a lugar nenhum até que eu e o garoto tenhamos uma conversa."

Ela abaixou o queixo. "Uma conversa não requer tantas lâminas."

"Meio que depende do quão disposta a pessoa está a falar, não é?"

A mandíbula dela ficou tensa. Claramente Kaito tocou numa ferida.

Ele não tinha intenção de prejudicar a criança nezumi, mas ele também não estava no humor de se explicar para uma estranha—ou receber ordens de uma.

"Se há informação que você precisa, tenho certeza de que você pode encontrá-la em outro lugar", ela disse, voz equilibrada. "Mas você vai ficar longe da minha família."

"Parece que há uma ameaça misturada aí em algum lugar", ele notou, o punho apertando. Ele nunca tinha visto pergaminhos como os dela antes, mas se eles eram mágicos, ele não ia correr nenhum risco.

Os pés dela pairavam vários centímetros acima do musgo. "Violência não é minha intenção."

Kaito deu um sorriso letal. "Você se esgueirou atrás de mim com um ultimato e um pergaminho flutuante—então me perdoe se eu não acredito em você." Ele girou o cabo de sua lâmina, e cada estrela disparou em direção ao pergaminho não enrolado da mulher.

Ela girou, rápida e graciosa, e abriu a palma da mão ao seu lado para que o pergaminho flutuasse ao lado dela.

As estrelas de arremesso fizeram um arco pelo céu antes de retornar a Kaito, brilhando sob o sol. Com um grunhido, Kaito investiu contra o esguio povo da lua, esperando distraí-la com combate corpo a corpo. Ela pulou para trás como se estivesse dançando no ar, braços estendidos como asas enquanto ela permanecia fora do alcance de Kaito.

Lançando-se para frente, ele golpeou com força, mas a mulher foi rápida. Ela se abaixou antes de girar para o lado, mãos erguidas como se fosse meramente parte de uma performance.

Os olhos de Kaito estavam fixos no pergaminho flutuante. Com um empurrão mental, cada estrela foi navegando em direção ao pergaminho, perseguindo-o em círculos enquanto a mulher usava sua própria telecinese para afastá-lo. Kaito girou a perna para encontrá-la, mas ela disparou para o céu. Ele se equilibrou, alcançando as estrelas-navalha ainda circulando o jardim, e as convocou de volta em linha com sua espada. Ele assistiu enquanto os olhos da mulher se desviavam de volta para o pergaminho.

Se ele tivesse apenas um momento, ele ia aproveitar.

Kaito comandou as estrelas a atacarem mais uma vez, mirando não na mulher ou nos pergaminhos, mas na corda presa à sua cintura. Apenas uma delas encontrou seu alvo, mas foi o suficiente. A corda arrebentou, e a bolsa começou a escorregar para o chão.

Varrendo um braço ao seu lado, ela pegou a corda antes que os pergaminhos caíssem, mas a distração deixou seu primeiro pergaminho desprotegido. Kaito estendeu uma mão, e ele navegou pelo ar e para dentro de seu punho.

A mulher piscou, e um segundo rolo de pergaminho derivou para o ar e se desenrolou na frente dela.

No momento em que ela leu as palavras, Kaito sentiu todo o seu corpo endurecer. Sua espada caiu de sua mão, e as lâminas desgarradas se seguiram, batendo no musgo como brinquedos quebrados. O pergaminho flutuou para cima, e na hora que os pés da estranha tocaram o chão, ele havia retornado para a bolsa com todos os outros.

Kaito não conseguia se mover. Seus ossos pareciam de ferro, pesados e inflexíveis. Esforçando-se contra a magia, ele rangeu os dentes. "Eu não estou~tentando machucar~o garoto."

Ela inclinou a cabeça curiosamente, e quando falou, sua voz etérea soou apenas na mente de Kaito. Você está dizendo a verdade, e por isso, eu tenho apenas gratidão. Mas meu filho não será encontrado. Por ninguém.

"Seu—seu filho?" Kaito tentou virar a cabeça quando a mulher se moveu ao lado dele, mas ele permaneceu imóvel como pedra. Apenas seus olhos podiam segui-la.

Ela acenou secamente antes de arrancar um dos pergaminhos de seu estojo e desenrolá-lo.

"O que você vai fazer comigo?" Kaito perguntou, bochechas ficando quentes. Ele ainda estava pensando rápido, esperando por uma saída disso.

"Você não precisa ter medo de um feitiço de memória simples." Com sua mente, ela adicionou, Enviar você em um caminho diferente vai manter você e minha família a salvo. Não se preocupe—você não vai lembrar de nada disso.

O estômago de Kaito pareceu vazio. Depois de tudo que ele fez para chegar aqui~para encontrar a imperatriz e trazê-la para casa~

Ele não podia deixar que tudo fosse por nada. Ela não podia tirar suas memórias .

Suas palavras foram alimentadas por uma raiva imprudente. "Estou tentando salvar a imperatriz, e seu filho pode ser a única pessoa em Kamigawa que pode ajudar!"

A mulher flutuou na frente dele, boca se transformando em uma linha plana. "Você está enganado. Nashi não sabe de nada da imperatriz."

"Mas ele sabe sobre Tezzeret", Kaito disse, ainda lutando contra o feitiço de paralisia.

Quase não havia nenhuma cor no rosto dela já, mas naquele momento, ela pareceu pálida como cinzas. Seus olhos estudaram Kaito—procurando por um pingo de falsidade—mas não encontraram nenhum.

Ela pairou com a verdade por um período de tempo antes de gentilmente guardar o pergaminho. Imediatamente, o movimento estremeceu de volta pelo corpo de Kaito, e ele desabou de joelhos.

Com um gemido, ele agarrou sua espada caída e se levantou, músculos doendo. Depois de convocar cada lâmina do musgo, ele embainhou a espada reformada em suas costas e se virou para enfrentar o povo da lua.

"Então", Kaito disse, ainda ofegando um pouco. "Você vai me dizer como sabe sobre Tezzeret, ou nós vamos ter que lutar de novo?"

"Sua arrogância é parte de por que você perdeu a batalha." Ela acenou com uma mão esbelta. "Ela te torna sem foco."

Ele esfregou a nuca. "Digo, a maioria das pessoas me chama de Kaito, mas 'sem foco' serve também." Eiko e Pata-Leve quase certamente concordariam.

Havia um leve toque de diversão em seu olhar. "Eu sou Tamiyo", ela disse, voz tão inabalável quanto aço. "E talvez você e eu estejamos destinados a ser aliados."


Kaito absorveu os detalhes do quarto. Pinturas em aquarela estavam espalhadas pelo espaço. Paisagens que poderiam parecer fantásticas para as pessoas de Kamigawa.

Mas Kaito as reconheceu. Eram lugares reais. Outros planos .

Ele se virou de volta para Tamiyo, que encheu duas xícaras com chá verde antes de colocar o bule de porcelana cuidadosamente em uma mesa baixa.

Kaito piscou. "Você é uma planeswalker." Não era uma pergunta.

Tamiyo sentou-se na cadeira oposta e levantou a xícara aos lábios, soprando suavemente o vapor. "Eu acredito que apenas um companheiro planeswalker poderia fazer essa descoberta simplesmente por olhar para algumas pinturas amadoras."

Kaito sabia que havia outros planeswalkers no Multiverso. Mas ele não fazia ideia de que havia outro em Kamigawa. Seu olhar pousou nos livros encadernados em couro e feixes de pergaminhos espalhados por quase todas as superfícies.

A compreensão amanheceu nele. "Você está reunindo informações." Ele franziu a testa. "Por quê?"

Tamiyo bebeu seu chá. "Eu acredito que é meu dever preservar as verdades do Multiverso." Levantando a sobrancelha, ela adicionou, "Conhecimento nos ajuda a crescer—como indivíduos e como uma sociedade. É um dom que eu não dou como certo."

Kaito segurou sua xícara entre as palmas das mãos, deixando o calor se mover através dele. "Me fale sobre Tezzeret. Quem é ele? O que ele quer?"

Tamiyo começou a responder quando sua atitude mudou abruptamente. Seus olhos pousaram em algum lugar atrás de Kaito, e seu rosto suavizou em um sorriso. "Acredito que você saiba do meu filho, Nashi."

[Arte por: Valera Lutfullina

Kaito se virou para encontrar o jovem nezumi parado na porta. Com pelo branco brilhante e manchas cinzas, ele usava uma jaqueta de couro preta com cortes afiados e anéis de prata ao longo da borda de sua orelha.

Nashi deu apenas um olhar para Kaito antes que seu rosto se iluminasse. "Máscara legal! Isso é um drone?" Ele segurou um pedaço de hardware que piscava com pixels. "Eu estive tentando construir um eu mesmo com peças recicladas. Sabe—fazer algo velho novo de novo, e tudo aquilo. Você construiu o seu? Que tipo de chip você usou para linkar sua câmera? Você usa micro implantes, ou—" Nashi congelou por um momento antes de sorrir timidamente. "Desculpe. Provavelmente são perguntas demais de uma vez."

Kaito puxou sua máscara da cabeça, deixando-a se dobrar de novo e de novo até que ela parecesse um tanuki de origami.

"Uau", Nashi disse, radiante. "Legal."

Tamiyo levantou o queixo, olhos cheios de humor gentil. "Você precisava de alguma coisa, Nashi?"

Ele levantou o metal. "Eu preciso de um chip de dados antigo. Eu fritei o meu tentando conectar um pedaço de hardware quebrado. Posso ir ao mercado de segunda mão?"

"Leve Rumiyo e Hiroku com você. E tente se conter de se encher de bolinhos e pães de coco antes do jantar." Tamiyo sorriu para seu filho, mas os pensamentos dela estavam muito dentro da cabeça de Kaito. Não pergunte a ele sobre Tezzeret. A maior parte do que sei foi mantida em segredo dele, para proteger seu coração. Eu não desejo lembrá-lo de uma escuridão que ele tentou tão arduamente escapar.

Kaito acenou levemente com a cabeça e sorriu para Nashi. "Boa sorte com o drone."

Nashi deu um sorriso cheio de dentes e correu de volta para fora do quarto.

Quando os passos dele desapareceram e ele estava fora do alcance da audição, Kaito colocou sua xícara na mesa e olhou para Tamiyo. "Me conte tudo."

Então, ela o fez.

Kaito aprendeu que Tezzeret não era apenas um planeswalker—ele era o planeswalker com o braço de metal. O homem que Kaito viu na câmara de Kyodai todos aqueles anos atrás.

O homem que teve algo a ver com o desaparecimento da imperatriz.

Os olhos de Kaito arderam com sal. Ele sentiu uma dor no peito—uma mistura de luto e clareza que era muito avassaladora para carregar em um momento tão curto. Mas ele ouviu mesmo assim, mesmo enquanto sua cabeça balançava e ele sentia o plano se inclinando.

Tamiyo explicou que Tezzeret tinha vindo para Kamigawa para adquirir artefatos mágicos do pântano perto da vila de Nashi. Mas quando os nezumi se recusaram a vender suas terras, Tezzeret retaliou. As coisas escalaram rapidamente, e a vila inteira queimou como resultado.

Kaito piscou devagar como se estivesse reunindo seus pensamentos de um lugar distante. "Mas o que ele estava fazendo com Kyodai? O que ele quer ?"

"Eu acredito que ele está pesquisando kami. Eu não sei quais são suas verdadeiras intenções, mas estou determinada a descobrir." A voz de Tamiyo se tornou mais afiada. "Não é meu desejo intervir nos assuntos de outros planos. Mas Tezzeret trouxe seus experimentos para cá, para meu lar. Minha família é tudo para mim, e muito mais importante do que meu desejo por neutralidade."

Kaito parou. "Você vai tentar pará-lo?"

"Não até que eu tenha aprendido tudo que há para saber sobre a pesquisa dele."

"Ameaçar kami e sequestrar a imperatriz não foi o suficiente?" Kaito balançou a cabeça, bochechas coradas enquanto suas emoções começavam a tomar conta. "Eu não preciso entendê-lo—eu quero saber para onde ele levou minha amiga."

Tamiyo desviou o olhar momentaneamente, e Kaito sentiu o desconforto nos olhos dela.

Havia uma aspereza desesperada na voz dele. "O que você não me contou?"

O olhar dela derivou de volta para ele como uma onda revolta. "Há uma planeswalker chamada a Errante que eu conheci uma vez em Ravnica. Ela me falou sobre Tezzeret e a arma que ele estava prototipando."

Kaito franziu a testa. "Que tipo de arma?"

"É chamado de Chip de Realidade, e pode ser perigoso não apenas para Kamigawa, mas para múltiplos planos. Na noite em que a imperatriz desapareceu, Tezzeret tinha ido ao palácio para tentar controlar Kyodai usando um protótipo do chip." Tamiyo piscou solenemente. "Não funcionou. Não da maneira que Tezzeret tinha a intenção. Em vez disso, o chip ativou a centelha da Errante."

O coração de Kaito batia contra suas costelas. Quando ele falou, ele mal conseguia ouvir sua voz sobre o zumbido em seus ouvidos. "O que você está dizendo?"

Tamiyo exalou. "A Errante e a imperatriz são uma e a mesma coisa."

A imperatriz. Ela ainda estava viva, assim como Kaito sempre acreditou.

Ouvir a verdade fez seu peito tremer com alívio.

"Uma planeswalker. Todo esse tempo." Ele engoliu o nó em sua garganta. "Por que ela não voltou para casa?"

"Ela é incapaz de fazer isso", Tamiyo explicou. "O Chip de Realidade deixou a centelha dela instável. A Errante não controla seu dom da maneira que você e eu podemos."

Kaito apertou os punhos. "Se o protótipo do Chip de Realidade a mandou para longe, talvez ele faça o oposto, também. Nós encontramos Tezzeret, roubamos o chip, e trazemos a imperatriz para casa."

"Eu concordo que precisamos tentar. Mas nós devemos trabalhar juntos nisso. Tezzeret não nos espera—nós podemos ter apenas uma chance." Tamiyo parou. "Há mais acontecendo nos laboratórios do que qualquer um de nós sabe. Quem quer que seja que Tezzeret esteja envolvido está atrás de algo maior do que apenas a Errante. Isso não é sobre governar Kamigawa—ele deve querer controle sobre os kami por um motivo, e eu pretendo descobrir qual é esse motivo. Antes que nós o persigamos debaixo da terra indo atrás do Chip de Realidade despreparados."

"A imperatriz precisa de nós", Kaito argumentou. Ele não a desapontaria. Não novamente.

"Nós devemos ser pacientes", Tamiyo insistiu.

Kaito levantou-se subitamente, o pulso acelerando. "Eu esperei dez anos."

"Toda Kamigawa aguardou o retorno da imperatriz."

"Não como eu. Ela—" Kaito não conseguia encontrar as palavras.

Mas Tamiyo entendeu mesmo sem elas. Ela era sua amiga , a mente dela disse. Eu entendo a perda que você sentiu, e a esperança com a qual você está desesperado para substituí-la. Mas nós não estamos prontos para esta luta. Ainda não.

Kaito travou o maxilar, puxou sua máscara sobre o rosto e se moveu para a porta. "Obrigado pelo chá", ele chamou por cima do ombro, "mas eu tenho outro lugar para estar."

Se o Chip de Realidade trouxesse sua amiga de volta, então ele iria atrás dele.

E ele não ia esperar pela permissão de Tamiyo.


Kaito estava do lado de fora do laboratório de Tameshi, olhando para as portas sólidas e o painel brilhante na parede. Na sua mão estava o cartão-chave de Tameshi—aquele que Kaito tinha pegado do bolso de seu amigo logo antes do armazém explodir em chamas.

Ele nunca quis que Tameshi morresse. Mas se a morte dele levasse a trazer a imperatriz para casa~

Kaito torceu a boca teimosamente. Ele não queria pensar sobre a troca. Se Tameshi tivesse vindo a ele, talvez houvesse outra maneira. Um final diferente para a jornada deles que envolvesse eles trabalhando juntos .

Ele tinha confiado a Tameshi sua vida. Mas a confiança de Tameshi vinha com segredos. Segredos que o fizeram ser morto.

A dor que isso deixou no coração de Kaito duraria uma eternidade.

Ele passou o cartão-chave sobre o painel, e uma luz verde piscou. A porta deslizou aberta, e quando Kaito pisou lá dentro, ele murmurou uma palavra de gratidão ao amigo que ele nunca veria novamente.

Era a coisa mais próxima da redenção que Tameshi talvez pudesse algum dia conseguir.

Kaito já tinha feito sua mágica nas câmeras, mas ele manteve seus passos silenciosos, movendo-se pelas sombras da sala como se ele fosse uma sombra em si. Ele passou de fininho por enormes cilindros de vidro que borbulhavam com líquido rosa. Ele não sabia o que tinha sido mantido dentro, mas ele reconhecia uma gaiola quando via uma.

Checando por movimento, ele se arrastou em direção à janela de vidro à frente e espiou lá dentro. A sala estava cheia de mesas cobertas pelos mesmos tubos de vidro que ele tinha visto nas docas, mas havia muito mais deles do que Kaito poderia contar facilmente. Não era apenas um experimento do dia para a noite—era uma operação inteira.

Mas mesmo com a abundância de líquidos de tons de neon e equipamento de metal espalhado nas mesas, foram as formas no chão que Kaito não conseguia parar de olhar.

Corpos. Corpos de kami .

Havia dúzias deles—vivos, mas murchos e opacos, como se a própria essência deles estivesse sendo sugada para fora deles. Kaito sentiu seu coração se estilhaçar. Ele tinha ouvido os gritos na noite nas docas, e não tinha feito nada para impedi-lo. Os kami estavam lá dentro, roubados como carga, e trazidos ao laboratório de Tameshi para se tornarem cobaias.

Os kami não tinham sido a missão de Kaito. Mas olhando para eles agora, ele sentiu uma culpa horrível surgir por seu corpo.

Se Eiko estivesse aqui—se ela soubesse que Kaito tinha ouvido os gritos e não feito nada—ela o culparia?

Ele se afastou da janela para procurar na próxima sala, apenas para encontrar outro kami inconsciente. O corpo dele tinha o formato de uma lanterna de papel, com quatro pequenas velas espalhadas ao seu redor, confinado a uma cama cirúrgica de metal. Havia um cinza assustador em seu rosto, e seus pavios de vela pareciam frios ao toque.

Mas o objeto atrás do kami chamou sua atenção.

Sentado ao lado de uma máquina enorme estava um pedaço de metal, fino e quadrado e não maior do que a palma da mão de Kaito, com fios pendurados das bordas como uma água-viva.

Kaito tinha visto aquilo antes quando revistou o escritório de Tameshi. A planta estava em um disco de dados criptografado. Naquela época, ele não sabia o que era, ou o que podia fazer.

Mas enquanto ele observava a maneira como a luz pulsava ao redor, seguindo a trilha de fios que conectava a máquina ao corpo do kami, Kaito sabia exatamente o que era.

O Chip de Realidade.

Kaito deslizou pela porta, olhos fixos no chip enquanto ele passava pelo kami comatoso. Não havia ninguém guardando a máquina. Nenhuma caixa para escondê-lo de dedos curiosos.

Estava apenas ali, esperando.

Então Kaito estendeu a mão, agarrou o Chip de Realidade de seu suporte e enfiou-o no bolso.

Viu, Tamiyo? Kaito pensou presunçosamente. A paciência é superestimada.

Ele saiu da sala, puxando a porta para fechar atrás de si, e se apressou para a saída. Mas quando ele virou a esquina final, uma sombra ameaçadora o forçou a parar em seu caminho. A espada de Kaito estava em sua mão antes mesmo de seus olhos registrarem o monstro bloqueando seu caminho.

O monstro que assassinou Tameshi.

[Arte por: Chase Stone

Kaito cerrou os dentes, olhos brilhando com raiva.

"Seus olhos de carne sugerem familiaridade, mas o conhecimento do nosso encontro evade a minha memória. A existência de um segundo Jin-Gitaxias neste plano é altamente improvável, portanto seu reconhecimento deve ser aceito como genuíno." O monstro inclinou a cabeça, luz artificial refletindo de sua espinha de metal. "Esquemas não são importantes nesta instância. O roubo é uma ofensa que exigirá retaliação rápida."

Kaito ignorou o peso do Chip de Realidade no bolso, focado apenas no monstro. "Sim, bem, considere isso uma retaliação pelo que você fez a Tameshi."

Jin-Gitaxias soltou um som gutural e metálico. "Seus objetivos derivam de vingança, mas eles estão sujeitos a suposições equivocadas—seu companheiro de carne foi um participante disposto, mesmo em sua morte. Mas suas investigações o tornaram ineficiente. O trabalho deve ser protegido."

Meia dúzia de ninjas armados apareceu nos lados do monstro. Capangas contratados da Cidade Subterrânea eram notórios por fazer o trabalho sujo de qualquer um, desde que fossem pagos.

Kaito puxou a espada para trás. "Ainda bem que eu nunca fui de conversa fiada."

O primeiro ninja avançou, e Kaito golpeou sua arma contra a lâmina da figura mascarada com um golpe inflexível. Para toda a sua confiança, o estranho não estava preparado, estremecendo sob o peso da lâmina. Kaito empurrou com força, forçando-os para o chão, quando a próxima figura atacou.

Kaito não perdeu tempo—ele balançou para o agressor que se aproximava, que pegou a lâmina com duas adagas de duas pontas. Jogando o pé para trás, Kaito se preparou antes de girar o cabo de sua espada. A lâmina se quebrou em estrelas de arremesso, e Kaito rolou para a direita assim que a figura caiu para a frente surpresa.

As estrelas cortaram a armadura do estranho, fazendo-o gritar antes que seu corpo caísse mole no chão. Ele não se levantou.

Kaito sentiu o ar mudar quando os capangas se aproximaram. Eles estavam com raiva—mas Kaito também.

Chamando as estrelas de volta para seu punho, elas pairaram em linha como uma lâmina que tinha sido esticada longe demais. Quando os próximos dois ninjas se aproximaram, Kaito deslizou sua espada para baixo, enviando as estrelas intermitentes estalando pelo ar como um chicote, pegando um dos capangas no rosto.

O outro balançou uma adaga em Kaito. Ele se abaixou, pernas tensas, e convocou suas lâminas de volta ao lugar para reformar sua espada. Ele balançou para cima, contra a adaga do ninja, assim que mais dois ninjas da Cidade Subterrânea atacaram. Um violento choque de metal soou, e Kaito bloqueou de novo e de novo.

Ele vagamente registrou Jin-Gitaxias lá na frente, andando de um lado para o outro com o tipo de calma que sugeria que ele acreditava que a luta estava quase no fim. Que ele tinha vencido.

Mas ele não conhecia Kaito. Isso não era sobre vingança—era sobre cumprir uma promessa que estava em formação havia dez anos.

Esta noite, ele não falharia.

Kaito se tornou um redemoinho de metal e precisão, afastando cada agressor com o tipo de foco que teria deixado Pata-Leve orgulhosa. Mas havia muitos deles, e a energia de Kaito não duraria para sempre. Então, ele lutou contra eles, forçando-os para trás, e puxou um pequeno dispositivo de metal do seu cinto com o formato de uma bolota. Ele atirou-o contra o chão com um estalo feroz.

Fumaça preta explodiu através da multidão, e Kaito disparou para fora de seu alcance logo antes da eletricidade estalar através da nuvem. Os capangas gritaram de confusão no começo—e então de dor.

Kaito correu para as portas do laboratório sem olhar para trás.

Ele correu do complexo, ar frio prendendo em sua garganta. Ele não sabia para onde estava correndo, apenas que ele tinha que fugir o mais rápido possível. Postes de luz seguiam a estrada brilhante, mas Kaito saltou sobre um muro baixo e tomou um caminho pelos prédios em vez disso. Jin-Gitaxias estava quase certamente ciente de que Kaito havia fugido com o Chip de Realidade agora. Se eles não estivessem na sua cola, estariam em breve.

[Arte por: Mila Pesic

Pés batendo contra o concreto, Kaito derrapou até parar perto de uma das plataformas cercadas. Estava escuro, mas ele podia ver a queda em direção às nuvens abaixo.

Kaito se virou, procurando por um esconderijo, quando viu os capangas contratados se aproximando, escalando os telhados do outro lado do trecho de passarela. Acima deles, um enorme mecha apareceu, o metal se dobrando sobre si mesmo até que se assentou na forma de um dragão. Ele saltou sobre o prédio mais próximo, aterrissando a uma distância de Kaito, e soltou um rugido poderoso.

Magia encheu seu núcleo, brilhando em azul por dentro. Carregando para um ataque que seria quase impossível de escapar.

Kaito considerou transplanar. Isso o levaria para um lugar seguro, longe do mecha e dos capangas de Jin-Gitaxias.

Mas o Chip de Realidade ainda estava em seu bolso.

O que aconteceria se ele transplanasse com isso? O afetaria da maneira que afetou a imperatriz?

Ele seria capaz de encontrar o caminho de volta para Kamigawa e terminar o que começou?

Partir agora mesmo era um risco muito grande.

Ele cravou os calcanhares no chão, cerrou os punhos e se preparou para fazer o que fosse necessário para lutar pelo seu caminho para fora disso.

O mecha se aproximou, abrindo suas mandíbulas largas para revelar um orbe de energia crepitante, quando Kaito sentiu o Chip de Realidade se movendo em seu bolso. Sobrancelhas franzidas, Kaito o tirou e olhou horrorizado enquanto os fios se contorciam contra o ar da noite, vibrando com vida.

E então o dragão uivou.

Quando Kaito olhou para cima novamente, a luz nas mandíbulas do mecha havia sumido, e uma listra laranja brilhante estava cortada por toda a sua garganta blindada. Por um momento, o mecha permaneceu perfeitamente imóvel—e então ambas as peças escorregaram para longe uma da outra e colidiram com a terra, não sendo mais uma ameaça para ninguém.

De pé atrás da máquina quebrada estava uma mulher de cabelos brancos como a neve e uma espada na mão. Ela levantou o rosto, as feições aparecendo debaixo de seu chapéu largo, e Kaito reconheceu seus olhos castanhos imediatamente.

A última vez que ele tinha visto a Imperatriz de Kamigawa, ela ainda era uma criança. Mas os anos a haviam mudado. A profundidade em seu olhar parecia carregar a sabedoria de cem vidas. Ela não estava apenas mais velha; ela era uma guerreira. Uma planeswalker.

A Errante.

[Arte por: William Arnold

Kaito pressionou uma mão no peito como se não pudesse conter as emoções. O alívio .

Sua amiga finalmente havia voltado para casa.

A imperatriz caminhou em direção a ele, sem prestar atenção às figuras escalando os telhados. Ela estava olhando apenas para Kaito.

O som de movimento soou perto, e Kaito quebrou o olhar deles para encontrar Tamiyo flutuando no céu noturno, a boca franzida com leve desaprovação.

"Isso não é nem um pouco o que eu quis dizer quando sugeri que criássemos um plano." Tamiyo desdobrou o pergaminho em sua mão, reconhecendo a imperatriz apenas com um breve aceno.

No momento em que os olhos de Tamiyo terminaram de passar sobre o pergaminho, as sombras acima dos prédios pararam de se mover. Os capangas de Jin-Gitaxias não estavam mais correndo; eles estavam vasculhando o chão por algo que não conseguiam ver.

"Não devemos nos demorar", Tamiyo disse em voz baixa. "Há lugares muito melhores para ter uma reunião, e o feitiço de invisibilidade não durará para sempre."

Ocultos sob a magia de Tamiyo, os três planeswalkers fugiram de Otawara em silêncio.

26/01/2022 | Por Akemi Dawn Bowman

Episódio 4: A Invasão

A imperatriz estava de pé diante de Kaito, o brilho âmbar das lanternas próximas delineando sua figura esguia e seu rosto semiescondido sob a sombra de seu chapéu largo.

Dez anos atrás, Kaito jurara nunca pisar no palácio até que a imperatriz retornasse. E agora ela estava ali — uma planeswalker, assim como ele — cercada pelas muralhas do Palácio Imperial.

Kaito não sentia nenhuma nostalgia por Eiganjo. Estar no jardim de sakuras da imperatriz parecia estar em um sonho que não lhe pertencia. Como se ele fosse uma peça no quebra-cabeça errado.

Havia um vazio nos olhos da imperatriz que sugeria que ela sentia isso também — o deslocamento.

Tamiyo enrolou seu pergaminho e o guardou cuidadosamente em sua bolsa, cortando o feitiço de invisibilidade que os havia ocultado por horas. "Eu ainda acho que deveríamos ter alertado os guardas sobre a sua chegada ao portão." Ela balançou a cabeça com o tipo de graça sedosa que Kaito nunca dominou. "Nós não podemos manter seu retorno em segredo para sempre."

"Eu não preciso de para sempre," a imperatriz respondeu em voz baixa, os cabelos brancos se movendo com a brisa da manhã. "Eu só preciso de alguns momentos." Ela se virou para a varanda, deslizou a porta do templo de Kyodai e desapareceu lá dentro.

Kaito tentou não reagir ao nó que se formava em sua garganta. Ele havia sonhado com a reunião deles por quase uma década, mas a imperatriz mal olhara para ele desde que ela parara o meca em Otawara.

Talvez o tempo os tivesse tornado estranhos.

Ela era a Imperatriz de Kamigawa; uma amizade de infância era provavelmente a menor de suas preocupações.

"Deve ser avassalador voltar aqui depois de tantos anos," a voz de Tamiyo flutuou como uma canção de ninar. Não apenas para a imperatriz , ela adicionou sem palavras, mas para você também.

Kaito contraiu os lábios. "Isso é um palpite de sorte ou você está lendo minha mente?"

"Eu não consigo ouvir pensamentos em toda a sua complexidade. Mas sinto a verdade por trás dos seus olhos." Tamiyo gesticulou para o jardim ao redor. "Você já esteve aqui antes. Muitas vezes, talvez."

Kaito rangeu os dentes enquanto encarava as flores próximas. Elas pareciam mais murchas do que ele já tinha visto, e não havia um kami sequer para ser encontrado.

Quando criança, o jardim da imperatriz era um dos lugares favoritos de Kaito em Kamigawa. Mas agora? Parecia vazio de vida, como se não fosse mais do que um cemitério esquecido ou um santuário vazio.

Kaito nunca perdeu a esperança de que a imperatriz voltaria para casa, mas talvez nem todos os Imperiais compartilhassem de sua fé.

"Nós costumávamos nos encontrar aqui, quando éramos crianças," Kaito disse baixinho. "Eu nunca senti que pertencia a Eiganjo, mas a imperatriz~" Sua voz se tornou solene. "Ela foi o motivo pelo qual fiquei o tempo que fiquei."

Tamiyo assentiu. "Ela também foi a razão pela qual você partiu. Um caminho que o levou a se tornar um planeswalker."

Kaito soltou uma risada cansada. "Se você está prestes a me dar uma palestra motivacional sobre destino e coisas que acontecem por um motivo, não se preocupe. Eu acredito que a vida é uma série de escolhas." Ele deu de ombros. "Se não gostamos de nossas opções, podemos implorar, lutar ou roubar para mudá-las."

A sobrancelha de Tamiyo contraiu-se, não impressionada. "Você tem um senso de otimismo muito sombrio, Kaito."

Antes que ele pudesse responder, um gemido estranho soou de dentro do templo. Kaito reconheceu a voz de Kyodai — como um grito, uma canção e um sussurro, tudo ao mesmo tempo. Os olhos de Tamiyo piscaram em direção à porta, sua mente avaliando além do que Kaito podia ver, mas ele não esperou pela permissão dela. Ele correu em direção a Kyodai e à imperatriz, os pés batendo no chão de madeira da mesma forma que seu coração batera há dez anos quando ele corria pelo mesmo corredor.

Fora Tezzeret que ele encontrara na sala naquela noite. O homem com o braço de metal que ele caçara por dez anos.

Kaito virou a última esquina e derrapou até parar. Não era Tezzeret que esperava por ele — era Kyodai, finalmente reunida com a imperatriz.

O corpo dourado da kami se esticava pelas profundezas da névoa, meio escondido na água rasa. Ela se contorcia desconfortavelmente, mesmo com a mão da imperatriz pressionada contra seu rosto abaixado, a esfera preta em sua testa mais baça do que Kaito lembrava.

Kyodai gemeu como se sentisse dor, e a imperatriz recuou, segurando o estômago em resposta.

Tamiyo flutuou com urgência para o lado dela. "Sua centelha ainda está instável. Você não pode permanecer em Kamigawa sem ajuda."

Havia um tremor nas pontas dos dedos da imperatriz. A luta para ficar neste plano não era fácil.

"Que tipo de ajuda ela precisa?" Kaito caminhou em direção a eles, braços colados ao lado do corpo. "O que eu posso fazer?"

O olhar violeta de Tamiyo prendeu-se no da imperatriz. Elas estavam tendo uma conversa da qual Kaito não fazia parte.

Ele não se importava em ser deixado de fora. Ele só queria o melhor para sua amiga.

A imperatriz deu um leve aceno de cabeça, e Tamiyo olhou para Kaito e estendeu a mão. "O Chip de Realidade, por favor."

Kaito tirou o objeto de seu bolso sem a menor hesitação, enfiando-o contra a palma de Tamiyo. "Isso vai impedi-la de transplanar?"

Tamiyo estudou os fios semelhantes a uma água-viva por um momento antes de pegar a mão da imperatriz. "Eu acredito que isso vai ajudar a estabilizá-la por um tempo, mas não é uma solução permanente. Sem estudá-lo, não posso saber todos os seus efeitos — ou se algum deles representaria um perigo para você."

O queixo da imperatriz se contraiu. Acima dela, Kyodai uivou de confusão. "Faça o que deve ser feito."

[Art by: Alix Branwyn

Tamiyo colocou o Chip de Realidade nas costas da mão da imperatriz. Em um instante, o painel piscou com luz, e os fios se fundiram à sua carne como veias pulsando com energia. Ela soltou um ganido agudo, preparando-se contra a dor, até que o Chip de Realidade pareceu se estabelecer como uma mera extensão de seu próprio ser.

Kyodai se acalmou e, por um momento, a imperatriz pareceu em paz.

Kaito viu seu rosto se contorcer mais uma vez, e ela levou as mãos às têmporas, apertando como se estivesse em agonia. Ele se virou para Tamiyo. "Vá encontrar Patas-Leves — ela precisa saber que a imperatriz voltou. Talvez haja algo que ela possa fazer para ajudar!"

Tamiyo assentiu e voou para a porta sem dizer mais nada. Quando a imperatriz caiu de joelhos, Kaito se ajoelhou também, as mãos pressionadas contra os ombros dela como se formalidades não importassem mais.

Fora do treino de combate, teria sido proibido tocar a imperatriz assim. Mas Kaito não viu a Imperatriz de Kamigawa — ele viu uma amiga que estava sofrendo.

"Do que você precisa?" Seu olhar caiu para a mão dela. "Se está machucando você, eu posso removê-lo."

"Não," a imperatriz disse rapidamente, a respiração ofegante. "Não — não é isso. São as visões." Seus dedos coçaram contra seu crânio. "Eu posso ver o laboratório. Eu posso ver o monstro ."

Jin-Gitaxias. Kaito franziu a testa. Ele tinha encontrado o Chip de Realidade ao lado de uma máquina. Era possível que os dois estivessem ligados de alguma forma?

A imperatriz estremeceu, mas depois de alguns segundos, a tensão em sua testa cedeu, e seu rosto suavizou. Ela deixou cair as mãos sobre os braços de Kaito. Foi o mais perto que eles já estiveram de um abraço.

Ela olhou para cima, piscando para afastar a confusão. "Kaito?"

"Eu estou aqui," ele disse, a voz embargada. Ele esperara dez anos para dizer aquelas palavras.

A imperatriz respirou superficialmente. "O monstro — ele informou Risona e os Insurgentes Asari do meu retorno. Eles planejam atacar o palácio iminentemente. Eles esperam pegar os Imperiais despreparados, antes que a notícia se espalhe por Kamigawa de que sua imperatriz voltou para casa."

A mente de Kaito acelerou. "Se os Insurgentes estão chegando, nós temos que avisar os samurais Imperiais. Eiganjo está em perigo."

A imperatriz apertou os braços de Kaito. "Nós temos que parar o monstro. Ele tem feito experimentos em kami. Torturando inocentes." Ela balançou a cabeça. "Eu não deixarei que ele cause outra guerra entre os reinos mortal e espiritual."

"Você acha que é isso que Jin-Gitaxias quer? Uma guerra?" Kaito estava estoico. A Guerra dos Kami aconteceu há milhares de anos. Os Historiadores Vivos e os arquivos podiam ter preservado as histórias, mas aqueles dias antigos eram como um mito para a maioria das pessoas. Algo que era mais lenda do que realidade.

Poderia realmente acontecer de novo?

Kaito não conseguia entender a lógica. Certamente haveria maneiras mais fáceis de causar atrito entre os kami e os humanos. Jin-Gitaxias poderia ter atacado os portões de fusão ou massacrado kami à luz do dia.

Não. Isso não era sobre guerra — isso era sobre outra coisa. O que Jin-Gitaxias estava fazendo com os kami nunca deveria ser descoberto. Ele o fez em segredo e até assassinou Tameshi para impedi-lo de fazer perguntas demais.

"O que quer que Jin-Gitaxias esteja tramando envolve Tezzeret." Kaito olhou para cima para Kyodai, que ainda balançava no alto acima dele. Ele nunca tinha percebido o quão aterrorizante a kami realmente era até que pudesse ver as centenas de membros dourados se contorcendo sob o corpo dela. "A noite em que você desapareceu, Tezzeret usou um protótipo do Chip de Realidade em Kyodai. Eu acho que ele está tentando encontrar uma maneira de controlar os kami."

"Eu não me importo com o que ele quer," a imperatriz disse. "Mas eu o impedirei antes que ele ponha em perigo o meu povo."

Os olhos de Kaito dispararam entre os dela, quando ele subitamente percebeu o quanto tinha ficado encarando-a, procurando no rosto dela por sua velha amiga. Ele começou a se afastar, mas a imperatriz apertou as mãos em volta dos braços dele.

"Você estava me procurando," ela disse calmamente. "Mesmo depois de todo esse tempo."

Ele piscou, o rosto corando. "Como você sabia?"

"Eu viajei para muitos planos ao longo dos anos. Um planeswalker de Kamigawa em busca de sua imperatriz desaparecida não é uma história que as pessoas esquecem facilmente." Ela ofereceu um sorriso fraco. "Às vezes eu estava apenas um passo atrás de você. Se eu pudesse controlar minha centelha, nossa reunião poderia ter acontecido muito antes."

Kaito sentiu a dor em seu peito novamente. Todo esse tempo ele estivera procurando por ela, nunca lhe ocorreu que ela também pudesse estar procurando por ele.

"Sinto muito ter demorado tanto para trazê-la para casa," Kaito disse.

"Eu não poderia esperar outra coisa," a imperatriz respondeu. "Você estava sempre atrasado para tudo — até mesmo para nossas aulas de combate."

"O que? Isso não é—" Kaito conteve-se, ouvindo a risada escondida nas bordas da voz dela. Ele suspirou. "Eu cheguei atrasado uma vez."

A imperatriz sorriu, os olhos brilhando como um nascer do sol tímido. Como se fizesse muito tempo desde que se sentira verdadeiramente contente.

Eles podiam ter mudado ao longo dos anos, mas naquele momento, Kaito sentiu que eles realmente não tinham mudado em nada. Eles eram dois amigos no Palácio Imperial, conversando um com o outro como se todas as regras do plano não importassem.

E desta vez, não havia nem mesmo um biombo de seda entre eles.

Kyodai cantou acima deles, o corpo recuando para dentro da névoa.

"Ela ainda está confusa," a imperatriz admitiu. "É por causa de nosso vínculo — a incerteza da minha centelha a afeta muito."

"Existe alguma maneira de consertar isso?" Kaito perguntou, mas a imperatriz não respondeu. Ela simplesmente fitou Kyodai, assistindo a kami desaparecer no vasto comprimento da sala.

Um farfalhar de passos soou do lado de fora, e as portas do templo se escancararam. De pé sob o arco estavam Patas-Leves e Eiko, com Tamiyo flutuando logo atrás delas.

A boca de Patas-Leves estava entreaberta em choque, seus olhos escuros movendo-se da imperatriz para Kaito e de volta. Kaito imediatamente tirou as mãos dos ombros da imperatriz, e ambos se levantaram.

A imperatriz levantou o queixo com uma graça inabalável e disse: "É bom vê-la, Patas-Leves. Obrigada por ajudar a cuidar de Kamigawa na minha ausência. Eu sou grata por tudo que a corte fez."

Patas-Leves não apenas tropeçou em uma reverência — ela praticamente desabou nela. Eiko se curvou pela cintura, o rosto pálido sob as luzes brilhantes.

A imperatriz contorceu a boca. "Por favor — nós temos pouco tempo para formalidades. Risona e os Insurgentes Asari estão a caminho de Eiganjo neste momento. Nós devemos preparar as nossas forças imediatamente."

[Art by: Ekaterina Burmak

Patas-Leves levantou-se, o nariz tremendo de confusão. "Como você sabe disso?"

Olhando rapidamente para Kaito, a imperatriz ergueu a mão com o Chip de Realidade incrustado. "Parece que este dispositivo ainda está conectado ao complexo do qual foi roubado."

Tamiyo apoiou os pés no chão. "Você teve uma visão do presente?"

A imperatriz assentiu. "O monstro alertou os Insurgentes do meu retorno. Eles querem atacar enquanto acreditam que têm a vantagem."

"Eu não entendo o que Jin-Gitaxias tem a ganhar atacando Eiganjo." Kaito encolheu os ombros. "Ele quer cobaias, não um trono."

"Talvez ele esteja usando a guerra como uma distração." Os olhos da imperatriz ficaram vidrados. "Talvez ele queira Kyodai. Ou talvez ele só queira o que lhe foi roubado." Ela olhou para o Chip de Realidade. Se isso a deixava nervosa, ela escondia bem. "De qualquer forma, uma batalha está chegando, e nós precisamos estar prontos para lutar."

"O Chip de Realidade é perigoso mesmo nas mãos mais nobres." Tamiyo estendeu os braços, enfatizando o aviso em sua voz. "A melhor coisa que poderíamos fazer por Kamigawa é destruí-lo enquanto ainda temos a chance."

"Absolutamente não," Kaito argumentou, o sangue subindo para o rosto. "Esse chip é a única coisa que impede a imperatriz de transplanar. Sem ele, ela poderia se perder por outra década — talvez até mais." Ele balançou a cabeça teimosamente. "Nós temos que encontrar uma alternativa."

A imperatriz estudou o dispositivo como se estivesse refletindo sobre seus pensamentos. "Eu não desejo vagar pelo Multiverso sem ter como voltar para casa. Mas se for uma questão de proteger Kamigawa~"

"Kamigawa precisa de um imperador," Patas-Leves interrompeu. "Você é o que há de melhor para o seu povo."

Ao lado dele, Eiko cruzou as mãos e assentiu. "Nós estivemos nos preparando para uma rebelião por muitos anos. Os samurais Imperiais estão prontos — nós protegeremos você e Kyodai."

Kaito olhou para Tamiyo seriamente. "Tem que haver outra maneira de parar Jin-Gitaxias."

"Eu não conheço uma maneira de o Chip de Realidade existir sem representar uma ameaça, mas talvez o perigo mais imediato seja a pesquisa que deixamos para trás." Tamiyo franziu os lábios, pensativa. "Se destruirmos o laboratório, nós destruiremos tudo para o que eles estiveram trabalhando — e talvez destruir a ligação com o Chip de Realidade dará à imperatriz mais controle."

A mistura de inquietação e esperança na sala era palpável.

"Eu vou fazer isso," Kaito insistiu. "Eu vou destruir o complexo de Tameshi." Seus olhos passaram por Patas-Leves, ignorando o aperto no peito enquanto o fazia, e olhou para sua irmã em vez disso. "Tudo de que eu preciso são de alguns detonadores do cofre Imperial. Vou levar as cargas para dentro do laboratório e detoná-las do lado de fora."

Eiko contraiu o rosto com desaprovação. "Essas armas foram confiscadas, Kaito. Elas não são aprovadas pelo regulamento. Você nem deveria saber sobre elas."

Kaito levantou uma sobrancelha, provocando. "Por que mantê-las trancadas se vocês nunca as usariam?"

"Elas são guardadas até que possam ser descartadas com segurança," Eiko corrigiu rispidamente.

Kaito estendeu as palmas das mãos. "É exatamente isso que eu estou sugerindo! Eu vou descartar os detonadores com segurança. Dentro do complexo de Tameshi. De preferência ao lado da máquina do Chip de Realidade."

Eiko fechou a cara. "Explodir um prédio não é—"

"Kaito tem razão," a imperatriz interrompeu, fazendo Eiko — e Patas-Leves — ficarem rígidas. "Nós devemos destruir o complexo e toda a pesquisa lá dentro." Ela se virou para Patas-Leves. "Nós estamos lidando com um inimigo de outro plano, um perigo para Kamigawa que nunca presenciamos antes. Usar armas não aprovadas pode não ser o ideal, mas é a nossa melhor solução. E isso permitirá que cada Imperial permaneça em Eiganjo, onde eles são mais necessários."

Eiko e Patas-Leves abaixaram a cabeça em aceitação.

"Você precisará de ajuda," Tamiyo disse a Kaito, os dedos se movendo delicadamente ao seu lado. "Eles enviaram um meca atrás de você da última vez. Sabe-se lá quantos capangas ainda estão procurando por você em Otawara."

Kaito ergueu uma sobrancelha. "Você se oferecendo?"

"Eu acredito que dois planeswalkers são melhores do que um," Tamiyo respondeu com naturalidade.

"Eu me juntarei a vocês dois." A imperatriz moveu-se no lugar. "Minhas visões de dentro do complexo podem ser úteis. E há kami que ainda precisam ser libertados."

"Com respeito, Imperatriz, mas você é necessária aqui," Patas-Leves disse, abaixando as orelhas. "Seu povo vai procurar você por orientação."

"Eles podem procurar a corte por orientação, como têm feito durante minha longa ausência," a imperatriz respondeu. Suas palavras não tinham malícia ou rancor — ela estava apenas afirmando um fato.

Mas Kaito sentiu a mudança na voz dela novamente. Kamigawa não era mais o lar que ela deixara. Talvez ela estivesse se perguntando onde se encaixava nisso, da mesma maneira que Kaito tinha feito durante a maior parte de sua infância.

Eiko hesitou antes de falar. "Se o Chip de Realidade é o que este Jin-Gitaxias está procurando, então o lugar mais seguro para você é cercada por estas paredes e pelos samurais que juraram protegê-la."

As caudas de Patas-Leves agitaram-se atrás dela em resposta. Um sinal de aprovação. Kaito conhecia isso bem — era algo que ele nunca teve, enquanto sua irmã tinha em abundância.

Ele nunca sentira ciúmes de Eiko por qualquer coisa exceto isso.

A imperatriz ficou com seus pensamentos por vários longos momentos, pesando suas opções. Ela era tanto a Imperatriz de Kamigawa quanto a Errante — mas talvez cada papel devesse ser diferente. "Eu permanecerei aqui," ela disse por fim.

Patas-Leves e Eiko assentiram, saindo do templo para alertar os guardas. Tamiyo moveu-se para segui-las, pausando na entrada da porta do outro lado da sala.

Kaito não se mexeu. Ele ainda estava tentando ler sua amiga por trás do silêncio dela.

A imperatriz olhava para a névoa como se estivesse buscando respostas.

"Ninguém em Kamigawa pode proteger o Chip de Realidade melhor do que você. E nenhuma muralha fará a diferença," Kaito disse calmamente. "Mas algo me diz que você já sabe disso."

Ela encontrou o olhar dele. "Meus deveres com Kamigawa envolvem mais do que simplesmente mostrar minha força. Às vezes é mais poderoso dar força ao meu povo."

"Deixando-os pensar que eles têm que proteger você?"

"Ter algo pelo que lutar une as pessoas. Tem sido dessa maneira até onde os Historiadores registraram nossas histórias." A imperatriz gesticulou para Kyodai. "E há outra pessoa para proteger. Se é Kyodai que eles estão atrás, eu vou me certificar de que ela esteja a salvo. Mas~prometa-me que você libertará qualquer kami cativo antes de detonar a carga."

"Você tem a minha palavra," Kaito respondeu.

Tamiyo desviou o olhar, fingindo privacidade, mas seus pensamentos escorregaram para a mente de Kaito. Nós devemos ir agora. Temos uma longa jornada pela frente.

Kaito deu um aceno curto e moveu-se para a porta. Ele olhou por cima do ombro, observando enquanto a imperatriz pisava na névoa onde Kyodai estava escondida, e fez uma promessa silenciosa de que encontraria uma maneira de ajudá-la e fazer de forma que ela nunca tivesse que desaparecer novamente.


Na época em que Kaito e Tamiyo alcançaram Otawara, o céu estava listrado com tons de damasco e ameixa. Um sinal da luz do sol se desvanecendo.

As ruas estavam silenciosas, mas não de forma incomum. Não havia indícios de capangas da Cidade Subterrânea escalando os telhados ou observando dos becos. Sem mecas inspecionando o solo por Kaito e seus amigos.

Parecia que eles não estavam sendo caçados de jeito nenhum.

Kaito não conseguia se livrar do nó em sua testa. Por um lado, não era surpresa que os capangas de Jin-Gitaxias não estivessem invadindo a cidade flutuante. Eles eram forasteiros, afinal, e trabalhando fora do que a maioria dos Futuristas defendiam. Mas, por outro lado~

Isso parece fácil demais , Kaito pensou consigo mesmo.

O rosto de Tamiyo estava pintado com a mesma suspeita. Talvez nossos inimigos em Otawara uniram forças com os Insurgentes Asari e estejam indo para Eiganjo , sugeriam os pensamentos dela.

Kaito não invejou o que os Imperiais estavam prestes a enfrentar. Eles eram alguns dos melhores lutadores de Kamigawa, treinados nas academias mais prestigiosas e de elite. Mas eles estiveram vivendo em relativa paz por mais de um século. Eles nunca tinham conhecido a guerra fora dos registros históricos.

Os Insurgentes eram diferentes. Eles sabiam o que era trabalhar duro e lutar para sobreviver. Até o clima vulcânico e nevado em que eles cresceram era severo. Eles sabiam qual era a sensação de verdadeira perseverança — e o que estavam dispostos a sacrificar para vencer.

Kaito não duvidava de que os Imperiais pudessem igualar-se a eles em habilidade, mas e em sacrifício?

Eles abririam mão do Chip de Realidade para manter a imperatriz a salvo? E se a imperatriz fosse levada~eles abririam mão do trono para tê-la de volta?

Patas-Leves nunca permitiria isso , a mente de Kaito zumbiu. Ela sempre dizia que um trono era mais do que uma cadeira — era uma posição. E se você desistisse de um trono, você abria mão do símbolo que mantinha Kamigawa unida.

Kaito nunca teve muita fé nos Imperiais, mas a imperatriz tinha Patas-Leves e Eiko do seu lado — e Kaito tinha fé nelas.

Movendo-se rapidamente em direção ao complexo de Tameshi, Kaito e Tamiyo escorregaram para dentro sem serem vistos e correram para o laboratório. Ainda havia evidências da visita anterior de Kaito. O dispositivo dele ainda estava interferindo com as câmeras. Havia marcas de arranhões no chão, sem dúvida dos capangas que se apressaram para ir atrás dele.

E as portas do laboratório tinham sido deixadas destrancadas.

Kaito franziu a testa, hesitando perto do painel. Algo não parecia certo. Era como se todas as barreiras tivessem sido deixadas desprotegidas. Meses de experimentos de Jin-Gitaxias estavam além das portas. Ele nunca os deixaria tão vulneráveis. A não ser que—

Kaito congelou. A não ser que ele já os tenha movido.

Sibilando uma maldição sob a respiração, Kaito disparou através das portas do laboratório, ignorando o aviso agudo de Tamiyo para esperar. Ele não via sentido em esperar, não quando ele talvez já estivesse muito atrasado.

Quando ele virou a esquina para o laboratório, ele viu o equipamento através da longa janela de vidro, ainda brilhando com cores neon.

Mas os kami~

Kaito sentiu a ausência deles antes de chegar à janela. Com a testa pressionada contra o vidro, seus olhos escanearam as camas de metal vazias, cada uma marcada com um brilho de cinza metálica. A única evidência de um kami se desmaterializando.

A culpa corroeu os ossos de Kaito, e ele se empurrou do vidro em direção à próxima sala onde encontrara o Chip de Realidade. A máquina ainda estava lá, cintilando com vida, mas o kami que estivera preso a ela com fios tinha se ido. Assassinado pelas mesmas pessoas que haviam matado Tameshi.

Cerrando os punhos, Kaito virou-se para Tamiyo. "Nós chegamos tarde demais para salvá-los." Duas vezes ele vira o que estava acontecendo com os kami, e tinha virado as costas para eles por seus próprios motivos. Ele tinha dito a si mesmo que sua missão vinha em primeiro lugar — encontrar a Imperatriz era tudo que importava.

Mas ele nunca teve a intenção de que eles morressem dessa forma.

E ele tinha prometido à imperatriz~

O rosto de Tamiyo estava inexpressivo. Controlado. "Não é sua culpa, Kaito. Você não poderia saber o que aconteceria."

[Art by: Marta Nael

Ele puxou os ombros para trás, assentindo em direção à máquina. "Nós precisamos destruí-la. Toda ela. De modo que eles nunca mais possam ferir os kami de novo."

"Não são os kami que nós estivemos verdadeiramente procurando," uma voz baixa arrastou.

Kaito e Tamiyo giraram. Em pé a alguns metros de distância estava um homem com olhos cor-de-rosa e um braço de metal.

Tezzeret.

A voz de Kaito foi um rosnado áspero. "Você."

O entendimento tomou conta de Tezzeret enquanto ele estudava o rosto de Kaito. "O menino do palácio — dos telhados." Seu tom estava carregado de zombaria. "Você parecia tão zangado então quanto parece agora."

Tamiyo deu um passo à frente. "Se vocês não estão atrás dos kami, então por que mataram tantos deles?"

"Nós precisávamos testar a conexão entre kami e o reino espiritual, para estudar a ligação entre os aspectos material e imaterial da existência — o corpo e a alma. E os kami são muito mais fáceis de encontrar do que o que Phyrexia realmente precisa." Tezzeret exibiu os dentes, os olhos faiscando como um incêndio. "Eu deveria agradecer-lhe."

Kaito fechou a cara. "Pelo que?"

Um arranhão horrível de metal soou, e Jin-Gitaxias apareceu das sombras, movendo-se ao lado de Tezzeret como um pesadelo iminente. Tezzeret não piscou, mesmo quando Jin-Gitaxias flexionou as garras de metal e inclinou-se para a frente.

"Por permitir que a pesquisa florescesse ao trazer planeswalkers ao nosso laboratório," Jin-Gitaxias disparou com um deleite assustador.

Kaito ficou tenso antes de trocar um olhar cauteloso com Tamiyo.

Somos nós que eles querem , ela pressionou na mente dele. Os experimentos — são sobre planeswalkers, não kami.

Quando a espada de Kaito estava em sua mão, os capangas da Cidade Subterrânea apareceram de todos os cantos da sala. Eles estiveram esperando todo o tempo, sabendo que Kaito voltaria.

Era uma armadilha — e Kaito e Tamiyo tinham caminhado direto para ela.

Kaito podia sentir os pensamentos de Tamiyo pressionando contra os dele, mas ele os ignorou, focando, em vez disso, na borda serrilhada de sua lâmina. Ele quebrou sua espada com a mente, enviando cada pedaço para a frente em rajadas de velocidade afiadas, cada lâmina em forma de estrela em direção ao peito de Tezzeret.

Mas elas pararam no ar, a centímetros do homem com o braço de metal.

Tezzeret desdenhou, os olhos escurecendo, e ele agitou uma mão em direção às estrelas de arremesso e as enviou espalhadas de volta para Kaito e Tamiyo. Eles recuaram em uníssono, preparando-se para um impacto que nunca veio.

As lâminas pairaram contra a pele deles, desafiando-os a se moverem.

Tamiyo alcançou um pergaminho, quando uma tira de equipamento de metal foi arrancada do teto e se envolveu em torno de sua mão como uma contenção monstruosa. Ela mal piscou quando um dos pergaminhos começou a se erguer da bolsa dela, mas Tezzeret apenas estalou a língua.

"Eu não faria isso. Não se você quiser que o seu amigo viva," Tezzeret avisou.

Quando Tamiyo olhou para Kaito, ela viu as duas lâminas-estrela que haviam avançado contra a garganta dele. Levaria menos de um segundo para perfurar sua pele.

"Não se contenha por minha causa," Kaito ofereceu com uma respiração irregular. "Além disso, ele precisa de nós. Eu vi o que eles fizeram com os kami — conectando-os a aquelas máquinas por sabe-se lá quanto tempo. Ele não vai deixar nenhum de nós morrer antes de nos colocar naquelas mesas."

A voz de Jin-Gitaxias estalou como um inseto mecânico. "Várias cobaias forneceriam mais oportunidades de expandir nosso conhecimento. Mas se um dos seres carnudos ameaçar a produtividade, então um único espécime será o suficiente."

Tezzeret olhou de cima para Kaito. "Você é o planeswalker que tem feito perguntas sobre mim. Aquele procurando pela imperatriz pelo Multiverso." Ele deu um passo à frente, e Kaito sentiu as lâminas de metal cravando em sua armadura, a momentos de atravessá-la. "Tenho que admitir, eu imaginava alguém menos~decepcionante."

A garganta de Kaito queimou. "Não se preocupe — estou apenas me aquecendo."

Tezzeret moveu-se, o cabelo caindo sobre os ombros, mas antes que ele tivesse a chance de responder, Kaito estalou os dedos contra o ar. Uma adaga escondida no seu cinto foi lançada em direção ao teto, cortando os fios que sustentavam uma das luzes suspensas.

Faíscas explodiram, e a lanterna caiu do teto em direção a Tezzeret, que pulou para fora do caminho assim que pedaços cintilantes de vidro estouraram pelo chão. Kaito usou a distração para se desvencilhar das lâminas, avançando para o ninja mais próximo que já tinha levantado a espada para atacar.

Kaito abaixou-se, varrendo uma perna contra os joelhos do agressor, e balançou o cotovelo de volta até colidir com o queixo dele. Disparando para a frente, ele removeu um dos dispositivos de fumaça de seu cinto, preparando-se para jogá-lo em direção a Jin-Gitaxias, quando a voz de Tamiyo soou em seus pensamentos.

Kaito , ela disse. Soava como um apelo.

Ele olhou por cima do ombro e viu Tamiyo envolta em ainda mais metal do que antes, com um fragmento de prata esticado sobre seus olhos. Ela não podia ler seus pergaminhos, e Kaito nunca seria capaz de libertá-la de tantas contenções.

Se ele lutasse para sair do complexo, ele teria que deixar Tamiyo para trás.

"Como eu disse," soou a voz rouca de Tezzeret, as mãos estendidas ao lado do corpo enquanto cada pedaço de tecnologia ao seu redor parecia vibrar em resposta. "Nós só precisamos de um de vocês."

Kaito não podia ajudar Tamiyo. Mas também não podia deixá-la para trás.

Não para esse destino. Não quando ele vira no que os kami tinham se tornado, torturados até a morte.

Kaito ficaria, e lutaria, e provavelmente seria capturado — se não fosse morto primeiro. Mas como isso ajudaria a imperatriz?

Ele alcançou a carga em seu bolso. Ainda havia tempo para destruir o laboratório, com Jin-Gitaxias e Tezzeret junto com ele. Ele poderia proteger Kamigawa. A imperatriz e Kyodai estariam seguras de danos.

Talvez sem o Chip de Realidade atado à máquina, a imperatriz poderia até encontrar uma maneira de reparar a sua centelha.

Os dedos de Kaito curvaram-se ao redor do detonador. As pessoas sacrificam tudo para a guerra.

Mas isso?

Ele faria esse sacrifício apenas por uma amiga.

Em um movimento rápido, Kaito tirou o dispositivo do bolso e o arremessou em direção à sala com a máquina, ouvindo o assobio enquanto ele voava pelo ar.

Mas a arma nunca causou impacto — ela parou pouco antes do vidro antes de flutuar lentamente para a mão de Tezzeret.

Ele soltou uma risada sombria. "O seu problema," Tezzeret disse friamente, "é que você depende muito de uma tecnologia que eu já dominei." Na sua palma, o detonador se desfez pedaço por pedaço, até se tornar nada mais do que uma pilha de metal e microchips inúteis.

Algo rachou contra a nuca de Kaito, e tudo ao redor dele desapareceu na escuridão.

[Art by: Lie Setiawan

Os olhos da Errante se abriram em alarme. O suor acumulou-se em sua testa, e ela arfou contra o ar frio, as pontas dos dedos cravando-se no chão enevoado do templo.

Eiko estava ao lado dela, o rosto contorcido de preocupação. "O que foi? O que você viu?"

A Errante inspirou bruscamente, vasculhando a sala como se estivesse tentando se lembrar exatamente de onde estava.

Não teria sido a primeira vez que ela acordara num quarto desconhecido.

Mas o lento gemido de Kyodai foi suficiente para lembrá-la de que ela ainda estava em Kamigawa. Ela ainda estava em casa, por mais antinatural que isso pudesse parecer.

A Errante segurou as suas vestes ao se levantar. "Kaito e Tamiyo~eles estão com problemas."

Os olhos de Eiko se arregalaram, inchados de medo. A Errante não conhecia Eiko da maneira que conhecia Kaito, mas ela ainda se lembrava das histórias que ele lhe contara sobre a irmã. Ela sabia que o vínculo deles era forte — talvez até mais forte do que a ligação entre kami e canalizadores.

Depois do que a Errante vislumbrou dentro do complexo, Eiko tinha razão em estar preocupada.

Patas-Leves parou de andar de um lado para o outro na beira da névoa. "Que tipo de problemas?"

"Eles foram emboscados por Tezzeret e Jin-Gitaxias." A Errante estremeceu com a lembrança. Parecia tão visceral e real, como se ela mesma estivesse lá. "Se eu não os ajudar, eles nunca conseguirão sair."

As caudas de Patas-Leves se ergueram atrás dela como um leque. "Eiganjo precisa de seu Imperador. Nós passamos muito tempo sem um governante, e isso causou atritos na corte Imperial e instabilidade por toda Kamigawa. Sem mencionar que os Insurgentes Asari poderiam estar em nossos portões a qualquer momento."

A Errante encontrou o olhar de Patas-Leves. "Você tem ajudado a cuidar do palácio por dez anos sem mim. Você consegue aguentar mais dez minutos."

Patas-Leves abriu a boca para argumentar — para implorar que a Errante ficasse para trás — mas foi Eiko quem interrompeu.

"Nós protegeremos o palácio na sua ausência," Eiko disse, curvando-se levemente. Quando ela levantou o rosto, seus olhos brilhavam com lágrimas recentes. "Por favor, traga-o para casa," ela gesticulou com os lábios de forma inaudível.

Para Eiko, a sua lealdade ao palácio sempre vinha em primeiro lugar. Mas ela não arriscaria a vida do seu irmão por dever. Nem mesmo com Patas-Leves observando.

Era um alinhamento que a Errante e Eiko compartilhavam.

A Errante assentiu. Ela se virou para encarar Kyodai ao longe, erguendo a mão para chamá-la para mais perto.

Minha velha amiga , a Errante enviou os seus pensamentos através da névoa. Eu preciso da sua ajuda.

Kyodai apareceu com um choro melodioso e abaixou a cabeça. O que é que você precisa de mim, Imperatriz? Para qualquer outro, a voz de Kyodai era uma mistura de sons, sobrepostos juntos como um coro. Mas na cabeça da Errante, era tão leve e clara quanto o som de um sino num quarto vazio.

Eu não consigo controlar a minha centelha. Mas talvez com a sua ajuda — com o nosso vínculo — eu consiga estabilizá-la o suficiente para transplanar para o complexo , a Errante explicou.

Será perigoso , Kyodai avisou. O monstro fará tudo o que puder para levar o Chip de Realidade, e você.

Eu não tenho medo dos monstros que consigo ver , a Errante respondeu. Eu prefiro enfrentar o inimigo quando ele está bem na minha frente do que deixá-lo me caçar nas sombras.

Alcançando a omoplata, a Errante sacou a espada, segurando-a firmemente com as duas mãos. Ela acenou para Kyodai, que zumbiu acima dela, balançando distraidamente na névoa.

Energia encheu o peito da Errante. Ela podia sentir o chamado errático de sua centelha — mas o calor de Kyodai estava lá também, acalmando-a. Centrando-a como uma bússola apontando na direção de casa.

Mesmo que ela não tivesse mais certeza de onde isso ficava, algo dentro de seu coração se perguntou se o lar não precisava ser um lugar.

Talvez o lar fosse com as pessoas com quem ela se importava, que se importavam com ela também.

E Kaito nunca desistiu da Errante. Ele viajou pelos planos para encontrá-la e voluntariamente enfrentou um monstro para trazê-la para casa.

Ela não desistiria dele agora.

Deixando Patas-Leves, Eiko e Kyodai no templo, a Errante transplanou de Eiganjo e para dentro do complexo de Tameshi com um clarão de luz. Ela não se anunciou. Ela não procurou por Kaito na sala. E ela não hesitou quando os olhos do monstro cromado se viraram para encontrá-la.

A Errante desceu sua espada como um golpe dos céus e fendeu Jin-Gitaxias do pescoço ao peito.

A ferida era grave, e o grito metálico que irrompeu de sua garganta ressoou através dos tímpanos dela. A Errante lutou para chegar a Kaito e Tamiyo, ambos amarrados a mesas cirúrgicas como se estivessem sendo preparados para um experimento. Ela deu uma olhada nas restrições e as separou também.

[Art by: Cristi Balanescu

Puxando Kaito para si com um braço, ela viu os olhos dele piscarem de volta à consciência.

"O-o que você está fazendo aqui?" ele perguntou grogue, os dedos tateando por uma arma que não estava mais lá. "Afaste-se — eu dou conta."

Aquele era o Kaito que ela se lembrava — o menino que se recusava a admitir que perdera uma briga.

"Eu acho que você verá que sou eu quem está salvando a sua vida. O que, pelas minhas contas, é a segunda vez em menos de um dia." Os olhos dela piscaram com humor. "Existem outras maneiras de chamar minha atenção, você sabe."

A Errante podia ouvir o arrastar de passos nas proximidades. Eles estavam prontos para lutar.

Mas ela também estava.

A Imperatriz de Kamigawa entregou a Kaito uma adaga de seu cinto e sorriu maliciosamente. "Eu posso ver que todo o nosso tempo separados deixou você severamente para trás no seu treinamento, mas tente acompanhar."

27/01/2022 | Por Akemi Dawn Bowman

Episódio 5: Fios da Guerra

O complexo era um caos de metal e sangue, mas a Vagante não parava de se mover. Ela era parte da dança — uma figura na batalha em constante movimento.

Perto dali, a espada de Kaito chocava-se repetidamente, combatendo o ataque dos capangas contratados de Jin-Gitaxias. Tamiyo pairava ao longe, com o pergaminho solto enquanto mantinha Tezzeret em um estado temporário de paralisia.

Marcas profundas de garras estavam riscadas pelo chão onde o corpo semi-decepado de Jin-Gitaxias jazia. Um sinal de que ele havia tentado — e falhado — em se levantar.

Agora, ele estava imóvel.

A Vagante não se deu ao trabalho de verificar se ainda havia vida nele. Lutar parecia como estar em um transe. Consumia cada um de seus pensamentos, e não terminaria até que o perigo passasse.

Um por um, seus inimigos caíram. A Vagante e Kaito garantiram isso.

Quando o caos desapareceu, apenas o toque do silêncio preencheu os ouvidos da Vagante. Ela se virou, com a respiração controlada apesar da adrenalina correndo por ela, e viu um lampejo de alívio no sorriso de Kaito.

"Fazemos uma boa equipe", disse ele, girando o punho de sua espada até que a borda denteada se achatasse e a lâmina ficasse novamente lisa. "É uma pena que não sobrou ninguém para o segundo round."

"Eu não sabia que você tinha desenvolvido tanto gosto pela guerra", respondeu a Vagante, endireitando seu chapéu. "O menino de quem me lembro teria preferido muito mais os espólios da cozinha do palácio."

A risada de Kaito foi solta. Em um movimento suave, ele embainhou sua espada nas costas. "Você esteve fora por muito tempo se acha que a comida do palácio ainda é a melhor em Kamigawa. Vou te apresentar a esse vendedor em Towashi — eles fazem uns rolinhos de caranguejo defumado que praticamente derretem na boca e —"

Tamiyo limpou a garganta, apontando para um Tezzeret magicamente preso. Embora seu corpo não se movesse, seus olhos rosados fervilhavam de vida.

Kaito passou a mão pela cabeça raspada, encabulado. "Certo. Negócios primeiro, comida depois."

Tamiyo olhou para ele brevemente antes de focar sua atenção na Vagante. "Está claro que este homem representa uma ameaça para Kamigawa, mas talvez beneficiaria a todos nós descobrir a verdade sobre seus planos antes de o prendermos?"

A Vagante afastou uma mecha de cabelo branco de sua testa. "Quaisquer que sejam seus planos, foram os kami que ele feriu — e talvez seja aos kami que ele deva responder."

Kaito franziu a testa. "Você quer levá-lo para Kyodai?"

Sua voz era tão inflexível quanto a pedra. "Sim. Decidiremos o destino dele juntas."

A imperatriz foi ensinada a controlar suas emoções, mesmo durante a batalha. Mas ela ainda era uma criança quando sua centelha a enviou para outro plano. Por muito tempo, ela esteve completamente sozinha. Sofrendo sozinha.

Então, ela fez a única coisa que podia — apertou o cadeado em seu coração e transformou seu comportamento controlado em um meio de sobrevivência.

Agora que estava em casa, ela podia sentir suas emoções trovejando contra seu peito, ansiando por serem libertadas. Mas ela não baixaria a guarda. Não até ter certeza de que poderia ficar em Kamigawa.

Porque se ela abrisse as portas de seu coração e se permitisse sentir a alegria de ver seu povo novamente — de ver Kaito novamente — apenas para ter isso arrancado dela mais uma vez?

Poderia levar uma vida inteira para se recuperar desse tipo de desgosto.

A Vagante deu um passo em direção a Tezzeret e embainhou sua própria espada. O que quer que ele tivesse feito a Kyodai dez anos atrás, inadvertidamente ativou a centelha da Vagante. Talvez isso significasse que ele também era a chave para reverter qualquer dano que seu chip protótipo tivesse causado.

Ela obteria respostas dele. Mas faria isso com Kyodai ao seu lado.

"Partiremos para Eiganjo imediatamente", ordenou a Vagante.

Tamiyo fez uma leve reverência em reconhecimento. Kaito apenas assentiu.

Mas Tezzeret os observava com uma nova energia. As veias em seu pescoço tensionavam-se contra a magia de história de Tamiyo, o olhar derivando para onde o Chip da Realidade estava incrustado nas costas da mão da Vagante. Ele não podia mover seu corpo, mas sua mente?

Talvez sua mente fosse tudo de que ele precisava.

Um calafrio gelado percorreu a Vagante. Não houve tempo para dizer nada — não houve tempo para gritar um aviso antes que Tezzeret assumisse o controle do Chip da Realidade.

A Vagante gritou, as mãos indo para as têmporas enquanto o dispositivo pulsava com energia. Os fios de metal enterravam-se mais profundamente em sua carne, latejando com poder. Houve um clarão branco, e ela sentiu sua mente saltar do complexo para o Palácio Imperial, onde Kyodai lamentava em sua câmara. Era como se suas mentes tivessem sido unidas — e a conexão significava que Kyodai também estava em agonia.

[Arte de: Wylie Beckert

A Vagante sentia como se sua alma estivesse oscilando entre o limiar de um plano e o próximo. O Chip da Realidade estava perturbando sua centelha, forçando-a à beira de transplanar. Mas também aguçava o vínculo da Vagante com Kyodai e, através dele, a Vagante podia ouvir os pensamentos de Kyodai tão claramente como se estivessem na mesma sala.

Eiganjo está sob ataque, chamou Kyodai. Risona trouxe um exército. Você não deve transplanar novamente — o palácio precisa de você.

A Vagante tentou responder — para contar a Kyodai sobre Tezzeret e o Chip da Realidade — mas foi inútil. A dor irradiava por cada nervo. Sua centelha estava se desestabilizando.

A mente da Vagante vacilou.

"Não!" Kaito gritou, com a voz rouca. Ele estendeu a mão, alcançando um grande caixote ao longe, e puxou com sua mente. Com um rosnado desesperado, Kaito enviou o objeto voando pela sala, onde pousou com um estalo pesado contra a espinha de Tezzeret.

Ele caiu de joelhos, atordoado, mas Kaito não lhe deu tempo para se recuperar. Um segundo caixote colidiu com a nuca de Tezzeret, mais alto e mais rápido que o primeiro.

O impacto nocauteou Tezzeret.

Tamiyo cerrou os lábios e releu o feitiço de paralisia. "Seu poder sobre a tecnologia permite que ele manipule o Chip da Realidade." Seu olhar derivou para a Vagante. "O que quer que ele tenha feito — está tornando sua centelha volátil."

Kaito ajoelhou-se ao lado da Vagante, o rosto contraído de preocupação. "Eu pensei que você tivesse dito que o chip a manteria em Kamigawa?"

Tamiyo flutuou para mais perto. Com uma graça etérea, ela se inclinou e levantou a mão da Vagante para olhar mais de perto o dispositivo. "Acredito que Tezzeret ativou algo dentro do dispositivo. Mas esta tecnologia está além da minha compreensão. Não vejo uma maneira de desfazê-la."

"Eu consigo sentir. É como se eu estivesse me partindo por dentro", disse a Vagante com um aceno dolorido. "Por favor — ajude-me a removê-lo."

"Você correrá o risco de transplanar se eu o fizer", observou Tamiyo.

"O chip não vai me manter aqui. Não mais. E se eu transplanar com ele, estarei perdida no Multiverso com um Chip da Realidade instável. Quem sabe o que poderia acontecer?" A Vagante agarrou o peito, lutando por uma maneira de se prender a este plano. "O chip abriu um caminho para Kyodai. Posso concentrar minha energia nela e usar nosso vínculo para tentar controlar minha centelha."

"Será o suficiente?" Kaito perguntou, a voz crua de esperança.

A Vagante não se atreveu a olhá-lo nos olhos. Ela estava com muito medo de que ele visse as rachaduras. "Terá que ser", foi tudo o que ela disse.

Tamiyo deu um aceno de compreensão e pressionou um dedo no Chip da Realidade, esperando enquanto os fios estranhos se contorciam e se soltavam da pele da Vagante.

[Arte de: Aurore Folny

A Vagante mordeu o lábio, tentando não ofegar de dor. "Tem mais uma coisa", acrescentou ela, observando a maneira como Tamiyo estudava o chip como se não fosse uma arma, mas um livro em uma biblioteca antiga. Algo que precisava de tempo para ser compreendido. "Kyodai disse que Eiganjo já está sob ataque. Se houver qualquer esperança de parar os Sublevados, precisamos chegar lá antes que Risona alcance Kyodai."

Kaito franziu a testa. "Ela não machucaria um kami, machucaria?" E não qualquer kami — Kyodai era o espírito guardião de toda Kamigawa.

O rosto da Vagante empalideceu. "Risona quer abolir o império e acabar com o governo imperial. Talvez ela acredite que tomar o trono pela força será suficiente para destruí-lo. Mas se ela perceber que Kamigawa nunca aceitará uma república radicalizada sem a bênção de Kyodai, ela pode tentar remover Kyodai completamente. De qualquer forma, devo proteger o templo."

"Levará horas para chegarmos a Eiganjo." Kaito apontou para um Tezzeret ainda inconsciente. "E a menos que um dos pergaminhos de Tamiyo por acaso seja um feitiço de levitação, teremos que carregar nosso prisioneiro por todo o caminho até lá. Que, permita-me ressaltar, é quase exclusivamente músculo e metal." Ele deu de ombros. "Só estou dizendo, este pode não ser o melhor momento para uma lesão nas costas."

"Eu consegui transplanar de Eiganjo para este complexo", disse a Vagante. "Posso retornar ao palácio da mesma maneira."

"Mas você estaria sozinha." Kaito balançou a cabeça. "Sem mencionar que você não tem o chip desta vez. E se não funcionar?"

"Então precisamos de transporte." A voz da Vagante era firme. Séria. "Algo mais rápido que a balsa aérea, com espaço para carregar nós quatro."

Kaito torceu a boca. "Existem mecas de vigilância por toda Otawara. Mas eles não são pilotáveis. Alguém teria que hackear os controles e traçar um curso para Eiganjo manualmente."

Tamiyo cantarolou, pensativa. "Talvez haja uma alternativa. O Chip da Realidade parece aumentar o poder que já existe, como a centelha da Vagante." Ela olhou para Kaito. "Como você, eu sou telecinética."

Kaito ainda estava ajoelhado ao lado da Vagante, a preocupação formando um vinco em sua testa. "Por favor, diga-me que você não está sugerindo o que eu acho que está sugerindo."

Tamiyo levantou o Chip da Realidade até as costas de sua própria mão e pressionou o painel em sua carne. Os fios se aninharam em sua pele, fazendo-a dar uma inspiração rápida antes que as bordas do dispositivo começassem a brilhar.

Ela gesticulou para Tezzeret. "Ajudem-me a carregá-lo até o meca mais próximo. Eu nos levarei para Eiganjo."

O grupo moveu-se rapidamente, carregando o peso de seu inimigo nos ombros. Eles seguiram para a borda de Otawara, onde um meca de vigilância com a forma de um enorme réptil de origami estava empoleirado em uma plataforma alta. Suas miras estavam coladas na balsa aérea abaixo.

Kaito inclinou a cabeça em direção à máquina blindada, onde um par de projéteis repousava em seus ombros. "Mais alguém vê o problema aqui?"

"Deixe comigo", disse a Vagante, como se aceitasse um desafio amigável.

Ela moveu-se rapidamente pelo pavimento, mantendo-se fora do alcance das câmeras do meca. Espada na mão, a Vagante levantou o punho sobre o ombro, com a lâmina apontada para o céu, e lançou a arma direto para o pescoço da besta metálica — bem entre duas placas de armadura no topo de sua espinha.

A espada atingiu com força, e faíscas voaram de seu pescoço como uma exibição de fios defeituosos. O meca soltou um gemido áspero antes de baixar o corpo ao chão e entrar em um estado de hibernação.

A Vagante subiu em suas costas, usando a armadura em forma de leque como degraus, e recuperou sua espada antes de se virar para olhar para os outros. "Devemos nos apressar — é apenas uma questão de tempo até que alguém perceba que a transmissão de vigilância não está mais funcionando. E não temos exatamente tempo para responder perguntas."

Kaito e Tamiyo ajudaram a arrastar o corpo de Tezzeret para as costas do meca, fazendo o melhor que podiam para se segurarem na matriz de discos de metal dispostos ao longo da espinha.

Com Tezzeret preso sob um de seus braços, Kaito olhou cautelosamente para a Vagante e depois de volta para Tamiyo. "Certo, então contamos até três ou —"

Tamiyo não esperou que ele terminasse; ela fechou os olhos, respirou fundo e deixou o poder do Chip da Realidade correr por suas veias.

Abaixo deles, o meca reptiliano tremeu. A Vagante estendeu a mão para a frente, apoiando-se contra uma das omoplatas. Parecia que o céu estava sendo rasgado ao meio — e então o meca ergueu-se no ar.

O coração da Vagante deu um salto quando Tamiyo enviou a máquina navegando sobre a borda de Otawara. Eles voaram através das nuvens, o vento martelando contra seus rostos. Kaito sorria loucamente, aproveitando cada momento, enquanto a testa de Tamiyo estava franzida em profunda concentração.

O meca estremeceu sob eles — era uma grande quantidade de metal para controlar, e a Vagante não tinha certeza de como o Chip da Realidade poderia estar afetando Tamiyo. A Vagante o usou para ajudá-la a transplanar, mas isso levou apenas alguns segundos. Levaria significativamente mais tempo para chegar a Eiganjo.

Ela apertou o aperto em volta de Tezzeret e esperou que a brisa os levasse mais rápido.

Quando finalmente romperam as nuvens, a Vagante pôde ouvir o som fraco da guerra ao longe. O choque do metal. Os gritos dos feridos.

Na superfície abaixo, a Vagante observava enquanto as muralhas do lado de fora do Palácio Imperial se transformavam em escombros.

Risona e os Sublevados Asari de fato tinham vindo para Eiganjo — e já haviam rompido os portões.

Quando Tezzeret se mexeu, a Vagante não foi rápida o suficiente para sacar sua espada.

Com um movimento feroz de sua mão, ele arrancou todos os dispositivos de fumaça do cinto de Kaito, espalhando-os pelas costas do meca. Eles explodiram em rajadas de fumaça branca e cinza, deixando Kaito, Tamiyo e a Vagante tossindo violentamente e lutando por ar limpo. O meca roncou, balançando de um lado para o outro, e a Vagante sentiu sua mão começar a escorregar.

Kaito estendeu a mão, os dedos travando-se desesperadamente em torno de seu antebraço. "Peguei você!"

Mas os olhos da Vagante estavam fixos nos olhos rosados e brilhantes de Tezzeret. Ele zombou antes de se lançar do meca. Ao mesmo tempo, Tamiyo soltou um grito tenso.

Ela não conseguia controlar o meca sozinha — e estavam a segundos do impacto, perto demais da superfície para evitar colidir com a terra.

A Vagante olhou para Kaito com uma urgência desesperada. "Precisamos pular", ordenou ela.

Kaito não queria soltar — ela podia ver isso em seu olhar horrorizado. Mas a Vagante não ia dar escolha a ele.

Ela arrancou o braço de seu aperto e saltou para a superfície.

A última coisa que a Vagante viu antes de torcer o corpo para suavizar seu próprio pouso foi o meca explodindo contra a lateral de um apartamento Imperial.


Quando a névoa enfumaçada finalmente se dissipou, Kaito se levantou, a força retornando aos seus membros, e procurou perto dos restos do meca qualquer sinal da imperatriz.

Ele não conseguiu encontrá-la.

Talvez fosse bom não encontrar um corpo. Talvez significasse que ela sobreviveu à queda.

Cavaleiros de mariposa sobrevoaram antes de mergulharem no campo de batalha próximo. Eles não estavam interessados nos destroços. Não quando a guerra continuava a rugir do outro lado da muralha.

E Tezzeret — para onde ele tinha ido?

Quando Tamiyo apareceu na clareira, Kaito olhou com os olhos arregalados. "O que acabou de acontecer? Eu pensei que ele estivesse paralisado!"

Tamiyo levantou a mão, exibindo o Chip da Realidade oscilante que permanecia ali. "Usar o chip deve ter interferido com minha magia. Eu não consegui manter o feitiço e pilotar o meca ao mesmo tempo."

Kaito entrelaçou os dedos e apoiou-os contra a cabeça. "Ele é um planeswalker — ele pode estar em qualquer lugar."

"Tezzeret não deixará este plano sem o Chip da Realidade", ressaltou Tamiyo. "E ele ainda acredita que está em posse da imperatriz."

O estômago de Kaito afundou, mas o som rangente de metal sobre metal desviou sua atenção. Ele correu para o outro lado dos escombros, parando derrapando antes de chegar ao parapeito, e olhou para baixo para o caos que inundava o pátio Imperial.

Um meca enorme dobrou-se na forma de um leão, energia brilhando de suas mandíbulas estendidas em direção aos Sublevados que avançavam pela muralha quebrada. O templo de Kyodai ainda estava protegido, mas com a primeira muralha rompida e uma enxurrada de corpos lotando os jardins, Kaito não podia dizer com certeza qual lado estava vencendo.

Ao longe, ele viu a imperatriz. O chapéu redondo protegendo a maior parte de seu cabelo branco, ela estava seguindo em direção à câmara de Kyodai. Ela se movia como uma rajada de vento, determinada e focada, e quando o olhar de Kaito derivou para cima, ele viu o porquê.

Risona estava lá, alguns prédios à frente, com vários Sublevados escalando a muralha ao lado dela. Ela deve ter usado a batalha como uma diversão e se esgueirado pelas áreas mais fortemente guardadas.

Mas a imperatriz estava se movendo rápido. Se seu caminho permanecesse livre, ela seria capaz de interceptar Risona antes que os Sublevados chegassem ao templo.

A menos que Tezzeret a encontrasse primeiro.

Tamiyo chegou à borda de Otawara, um dedo esguio apontando para o telhado abaixo. "Ali." Sua voz era aguda. "Ele está indo atrás da imperatriz."

As sobrancelhas de Kaito se franziram enquanto ele escaneava as telhas pretas. Com suas roupas pretas e cabelos escuros, Tezzeret não era fácil de encontrar. Mas quando a luz do sol brilhou em seu braço de metal, Kaito sibilou entre os dentes.

"Vou nos levar para mais perto", disse Tamiyo. Com um passo, ela envolveu os braços em volta de Kaito, levantou-o no ar e voou em direção à muralha interna de Eiganjo.

Eles bateram contra um dos telhados com um baque desagradável. Kaito balançou nos calcanhares para não escorregar, fazendo várias telhas caírem no chão.

"Peço desculpas pelo pouso brusco." Tamiyo levantou-se, recuperando a compostura. "Voar é muito mais fácil como um empreendimento solo."

Kaito removeu sua máscara. Himoto dobrou-se e redobrou-se como papel de metal antes de mudar para sua forma familiar de tanuki. Lançando-a para a frente com uma mão, o drone voou para baixo no caos abaixo.

"O que você está fazendo?" Tamiyo perguntou, intrigada.

Ele piscou, observando o drone desaparecer na multidão. "Garantindo que tenhamos um plano de reserva." Não havia tempo para explicar — não quando a imperatriz estava em perigo.

[Arte de: Cristi Balanescu

Kaito avançou pelo telhado, escalando muralha após muralha, tentando fechar a lacuna entre ele e seu inimigo. Tezzeret estava focado demais na imperatriz para notar Tamiyo voando acima, com o pergaminho já começando a desenrolar.

Mas Kaito estava ansioso e faminto por uma luta. Ele deu uma olhada na lanterna de pedra empoleirada no jardim próximo e usou sua mente para enviá-la voando em direção a Tezzeret. O objeto espatifou-se contra o ombro de Tezzeret, fazendo-o cambalear sobre as telhas. Ele girou, lívido, e avistou Tamiyo primeiro.

O reconhecimento em seus olhos quando avistou o Chip da Realidade em sua mão exposta foi inconfundível.

Tamiyo não teve chance de ler seu pergaminho; Tezzeret usou seu poder para invocar um leque elétrico laminado de um jardim de areia do outro lado da muralha e o lançou em direção a ela. Quando estava a apenas um braço de distância, Tezzeret fechou a mão em um punho, e o ornamento explodiu.

Areia atingiu os olhos de Tamiyo e, quando ela recuou, seu pergaminho caiu.

Kaito saltou para encontrá-los no telhado, sem se dar ao trabalho de alcançar sua espada. Suas armas não o ajudariam agora; não quando cada uma delas era aprimorada com tecnologia Futurista.

Com as duas mãos na frente dele, Kaito puxou várias telhas do telhado e enviou-as em direção a Tezzeret como uma investida de flechas. Tamiyo flutuou de volta, apertando os olhos enquanto procurava no jardim pelo pergaminho que havia caído.

Kaito atacou antes que Tezzeret tivesse tempo de se recuperar, girando a perna até que seu pé colidisse contra o queixo de Tezzeret. Novamente, Tezzeret tropeçou, com a mandíbula cerrada e as mãos tornando-se punhos.

Kaito podia sentir o latejar do poder de Tezzeret puxando cada pedaço de tecnologia em seu corpo — cada arma e peça de armadura~tudo isso tornava Kaito vulnerável.

Mas esta era Kamigawa. A casa de Kaito. E ele passara a maior parte da vida escalando os telhados, garantindo que na próxima vez que encontrasse o homem à sua frente, estaria pronto.

Não havia nada de vulnerável na retribuição. Se alguma coisa, isso tornava Kaito mais forte. Seu coração estava nesta luta, muito mais do que o de Tezzeret jamais poderia estar.

Kaito livrou-se do grosso de seu equipamento aprimorado, deixando suas facas e dispositivos de bolso escorrerem pelo telhado como chuva pesada. Ele não precisava deles. Não para esta luta.

O punho de Kaito encontrou a bochecha de Tezzeret. Ele golpeou com força implacável, empurrando Tezzeret de volta pelo telhado, desferindo soco após soco.

Tezzeret levantou seu braço de metal em defesa. Desta vez, quando Kaito golpeou, Tezzeret agarrou sua camisa, puxando-o para perto. Apenas um punho de metal permanecia entre eles.

"Você e eu estivemos aqui uma vez antes", Tezzeret sibilou. "E não terminou bem para você."

"Bem, você sabe o que dizem — se de primeira você não conseguir~" Kaito preparou-se, "então, da próxima vez, traga um amigo."Tezzeret parou, a confusão assumindo o controle, quando sua boca se abriu e ele soltou um uivo de dor. Ele soltou Kaito, tropeçando para trás na crista do telhado. Em sua coxa havia uma adaga reluzente, o cabo de ouro entalhado com o símbolo dos Imperiais.

Kaito olhou para baixo, para o pátio, onde samurais e Sublevados haviam destruído qualquer semelhança de ordem no jardim de musgo, e encontrou Eiko. Ao lado dela, o drone de Kaito pairava no ar, e uma lâmina idêntica estava em um de seus punhos.

Ele fez uma saudação fingida para a irmã antes de se voltar para Tezzeret, que acabara de conseguir remover a lâmina de sua perna ferida.

Tamiyo flutuou para baixo, um pergaminho de paralisia estendido à sua frente. Em um instante, Tezzeret endureceu como se tivesse virado pedra.

Tamiyo não tirou os olhos dele e, quando falou, sua voz era como ferro. "Diga aos Imperiais para prepararem uma cela de detenção apropriada. Algum lugar sem tecnologia."

Kaito deu um aceno curto. "Vou avisar Patas-Leves." Ele se virou, preparando-se para descer pela treliça mais próxima, quando a voz fria de Tezzeret estalou como o crepitar de uma última brasa.

"Não há necessidade de me manter em Eiganjo", ele disse com a voz arrastada e sedosa. "Eu já tenho o que Phyrexia quer."

Kaito se virou, com a testa franzida, e assistiu horrorizado enquanto a mão de Tamiyo brilhava e o Chip da Realidade ganhava vida.

Tamiyo não estava preparada para o domínio que Tezzeret teria sobre ela, ou como isso cortaria sua conexão com sua magia de histórias. Ela cambaleou, com o rosto pálido, e apertou a mão contra o peito.

Kaito mal teve tempo de processar a angústia dela antes que Tezzeret avançasse, agarrando o corpo trêmulo de Tamiyo pelos ombros. Rosnando, Tezzeret golpeou o ar com seu braço de metal, e uma linha violenta e denteada rasgou o céu. O estalo de eletricidade perfurou os ouvidos de Kaito enquanto ele observava o portal crescer até a altura total de Tezzeret.

Tezzeret puxou Tamiyo através da luz estalante, e ambos desapareceram do telhado.

Kaito deu um passo à frente, piscando como se tentasse fazer tudo voltar a ser como era. Mas não adiantou. O portal soltou um chiado metálico e se fechou abruptamente.

Tamiyo — e Tezzeret — haviam partido.


Risona movia-se em círculos, passos calculados e o cabelo grudado no suor de seu rosto. "Eu não vou ceder."

A Imperatriz Errante acompanhou seu passo. "A rendição não é um requisito", disse ela, com a voz ecoando por toda a câmara.

Os corpos caídos dos Sublevados de Risona estavam estirados no chão. Eles haviam entrado no templo apenas para encontrar a Errante à espera. A maioria deles foi fácil de abater, mas Risona era obstinada, e seu estilo de luta com espada era brutal e implacável. Teria feito a maioria dos Imperiais suar.

Mas a Errante não era uma Imperial qualquer. E, ao contrário de Risona, ela havia treinado em mais de um plano. Adaptar-se era agora uma segunda natureza para a Errante.

[Arte por: Johan Grenier

Risona girou sua espada no ar, acumulando impulso para seu próximo golpe.

Isso não lhe serviria de nada. A Errante poderia ter encerrado a luta eras atrás com uma lâmina direto no coração dela, mas estava se contendo. Ela não buscava derramamento de sangue desnecessário — estava apenas esperando que Risona aceitasse o inevitável e evitasse uma execução.

Exceto que o fogo nos olhos de Risona queimava forte demais para a rendição.

A voz em camadas de Kyodai ecoou através da névoa no lado oposto da sala. Sua misericórdia não seria retribuída se a situação fosse inversa , disse ela na mente da Errante. Ela não tem interesse em paz com os Imperiais.

Risona desferiu um golpe forte, e a Errante esquivou-se girando com facilidade, trocando de posição na extremidade oposta do campo de batalha imaginário deles. Ofegante de exaustão, Risona apenas apertou o punho da espada com mais força.

A boca da Errante tremeu. Ela estava focada nos passos vacilantes de Risona e na maneira como seus ombros cediam sob o peso da espada.

Risona estava cansada. E a Errante não desejava humilhá-la ainda mais.

A Errante ergueu sua espada. "Solte sua lâmina. Não há necessidade de você morrer desta forma."

"Você abandonou seu povo por mais de uma década", sibilou Risona. "Você não sabe nada do que qualquer um de nós precisa."

Suas palavras foram como um estalactite de gelo direto no peito da Errante, embora ela tentasse não demonstrar. "Partir nunca foi minha escolha."

"Não importa", rebateu Risona. "Você se foi, deixando um kami enfraquecido para supervisionar a fusão dos reinos mortal e espiritual, e uma corte briguenta e faminta por poder para governar em seu lugar. Os Imperiais sempre tiveram controle demais, mas seu desaparecimento fez com que a instabilidade se espalhasse por Kamigawa. Você pode ter Kyodai, mas é a fé do povo que faz um verdadeiro líder. E o povo perdeu a fé em seu retorno há muito tempo — eles não a verão da mesma forma que antes."

"Você invadiu o palácio e assassinou dezenas." A voz da Errante era como aço. "Não há quantidade de fé que possa ser recuperada após o que você fez."

"Talvez não", disse Risona, com a respiração irregular. "Mas é muito melhor não ter Imperador nenhum do que ter um em quem não se pode confiar que ficará." Ela ergueu sua espada contra a da Errante. "Vamos terminar o que começamos."

Risona avançou — justo quando algo voou pela sala e estalou contra a lateral de seu crânio, deixando-a inconsciente.

A Errante piscou para a pedra caída perto do corpo de Risona e se virou para encontrar Kaito parado a alguns metros de distância. "Você... você acabou de jogar uma pedra na líder dos Sublevados de Asari?"

Kaito deu de ombros, com as bochechas coradas. "Eu a encontrei no jardim ao entrar. Estou sem bombas de fumaça. E para ser sincero, depois do dia que tive, não me sinto muito confortável usando metal."

A Errante passou do horror estarrecido para algo muito mais parecido com diversão. E quando ela riu, o som melodioso brotou dela como se tivesse estado trancado por anos demais.


Assim que Risona foi amarrada e levada para fora como prova de que os Sublevados havia perdido, a batalha teve um fim rápido. Entre os que fugiram e os que se renderam, sobraram apenas alguns desertores para os samurais Imperiais lidarem.

Kaito parou na janela do templo, espiando o terreno abaixo. Ele podia ver Eiko dando ordens ao longe. Ela era adequada para a vida Imperial, mesmo em tempos de crise.

"Parece que eles têm tudo sob controle lá fora", refletiu Kaito. "Você ficará feliz em saber que a ordem foi restaurada mais uma vez." Ele se voltou para a imperatriz, esperando encontrá-la ainda desfrutando do alívio da vitória.

Mas a imperatriz estava curvada, fazendo uma careta de dor.

Sua centelha estava se desestabilizando. E sem o Chip da Realidade~

Kaito correu para o centro da câmara, ajoelhando-se. "Tamiyo está com o chip." Seu estômago parecia pronto para evaporar. "Eu... eu não sei para onde Tezzeret a levou." Eu não sei o que fazer para ajudar , ele queria gritar.

A imperatriz pressionou uma mão no antebraço dele, balançando a cabeça. "Eu não tenho muito tempo."

Os olhos de Kaito arderam. "Deve haver algo sobrando — algum tipo de pesquisa no laboratório que possa ajudar a mantê-la aqui."

Quando ela não respondeu, ele sentiu um aperto familiar na garganta.

A culpa voltou a inundá-lo, latejando como ondas gigantes, recusando-se a ceder.

Kaito esfregou a testa, com a mandíbula cerrada. Pela segunda vez em sua vida, ele falhara em protegê-la. "Sinto muito."

Ela olhou para cima, com expressão suave. "Isso não é culpa sua, Kaito. Nunca foi. E você não tem nada do que se desculpar. Você tem sido o amigo mais leal que já conheci — e sou grata a você."

A voz de Kyodai estava carregada de confusão e tristeza. Ela balançou, sombras dançando abaixo dela, e baixou a cabeça logo acima do chão. A esfera negra em sua testa piscou como uma luz começando a se apagar.

A imperatriz observou a kami, conversando com pensamentos que Kaito não conseguia sequer imaginar. Mas o que quer que tenha sido dito, a imperatriz não hesitou, mesmo quando foi recebida pelos lamentos de protesto de Kyodai.

Kaito podia ver na linguagem corporal da imperatriz — a finalidade.

O que quer que ela estivesse pedindo~ era a única maneira de ajudar Kamigawa com o tempo que lhe restava.

Finalmente, a kami curvou a cabeça.

A imperatriz forçou-se a ficar de pé e olhou para Kaito, ainda segurando as costelas. "Encontre Patas-Leves. E, por favor — depressa."

Kaito não precisou correr muito. Patas-Leves e Eiko já estavam subindo as escadarias do templo em busca da imperatriz. Em frases curtas, ele contou o que havia acontecido. O que iria acontecer.

Ele lhes disse que a Imperatriz de Kamigawa estava ficando sem tempo.

Eles irromperam de volta na câmara, onde Kyodai se erguia acima da imperatriz como uma guardiã mística. O vínculo entre a grande kami e a imperatriz sempre fora forte. Esse mesmo vínculo era provavelmente a única coisa que mantinha a imperatriz em Eiganjo por mais alguns momentos finais.

"Patas-Leves", disse a imperatriz, levantando a mão como se chamasse sua conselheira para mais perto.

Patas-Leves moveu-se rapidamente, curvando-se. "Por favor — diga-me como posso ajudá-la."

A imperatriz ergueu o queixo. "Kamigawa precisa de alguém para governar enquanto eu estiver fora. Alguém a quem Kyodai e meu povo possam recorrer como uma autoridade verdadeira e legítima. É a única coisa que estabilizará nossas terras." Ela fez uma pausa. "Kamigawa precisa de um imperador."

Patas-Leves não piscou, nem respirou, nem se moveu. Ela permaneceu da mesma forma que as relíquias de pedra das florestas antigas permaneceram por milhares de anos.

Os olhos de Patas-Leves tremularam. "Você não pode estar querendo dizer que eu~?" Ela não conseguia encontrar as palavras para terminar.

"Kyodai dá sua bênção, assim como eu." A imperatriz assentiu. "Você será minha representante e governará Kamigawa enquanto eu não puder."

[Arte por: A. M. Sartor

Patas-Leves ajoelhou-se então, com a testa pressionada contra o chão. Um sinal de grande respeito. "Farei o que me pede e honrarei seu legado todos os dias até que você retorne."

A imperatriz estremeceu, os lábios entreabertos como se seu vínculo com Kamigawa tivesse finalmente se rompido.

Kaito sentiu um pânico percorrer seu corpo. Isso estava acontecendo rápido demais. Repentinamente demais.

Ele não estava pronto para dizer adeus.

A imperatriz olhou para ele. Não havia alegria em seus olhos, mas ela sorriu para ele de qualquer forma, para oferecer o pouco conforto que podia. "Kaito —", ela começou.

Mas Kaito não ouviu o resto. A centelha tomou conta dela, e a imperatriz mais uma vez desapareceu de Kamigawa.

Kaito sentiu seu coração se despedaçar em mil pedaços. Eiko arquejou por perto, com a mão cobrindo a boca. Kyodai uivou com a dor da despedida.

Patas-Leves continuou a se curvar para o espaço vazio deixado pela imperatriz, suas sete caudas estendidas contra o chão. Finalmente, ela se levantou, virando-se para encarar Kaito e Eiko.

Atrás dela, uma cauda novinha em folha se formou.

E com a luz do sol emoldurando sua forma de kitsune, Kaito e sua irmã se curvaram perante a nova Regente de Kamigawa.


Não havia rastro de Jin-Gitaxias no complexo, ou em qualquer outro lugar de Otawara ou Eiganjo. O melhor palpite de Kaito era que Tezzeret o levara através do portal atrás de Tamiyo.

Não haveria razão para voltar apenas por um corpo — o que significava que Jin-Gitaxias devia ter sobrevivido.

E em algum lugar do Multiverso, Kaito tinha certeza de que Tamiyo também estava viva.

"Achei que você já tivesse partido." A voz de Eiko soou próxima.

Kaito soltou o parapeito e olhou para o resto da sacada onde sua irmã estava em suas vestes tradicionais. "Eu queria parabenizar minha irmã por sua grande promoção. Conselheira sênior, não foi?"

Eiko revirou os olhos. "Eu sei que você acha ridículo, mas não precisa zombar —"

"Não estou", disse Kaito, sinceramente. Ele pressionou a mão contra o peito. "Estou orgulhoso de você, Eiko. De verdade."

"Ah." Ela hesitou. "Bem — obrigada."

Kaito apontou com o polegar por cima do ombro. "Parece que a muralha externa está quase restaurada."

A atitude de Eiko mudou de irmã para conselheira real, e sua voz elevou-se para corresponder. "Ainda há muito para limpar. Os Sublevados não estão felizes por termos feito de Risona prisioneira. E a mudança de poder dentro da corte tem sido um ajuste."

"Se você está preocupada com um golpe, eu tenho alguma experiência em intervir — e um braço de arremesso muito bom", ofereceu Kaito com um sorriso sarcástico.

"Kaito", disse Eiko lentamente. "Por mais que eu queira você mais perto de casa, não estou lhe dando permissão para jogar pedras em membros da corte Imperial."

Kaito não disse nada.

Eiko tomou lugar ao lado do irmão, olhando para as nuvens. "Você não vai ficar, vai?" Não era uma pergunta.

"Eu lhe fiz uma promessa." Kaito pegou a mão dela e a apertou. "Eu disse que não partiria sem dizer adeus."

Ela fechou os olhos e respirou fundo. "Você vai procurar pela imperatriz novamente?"

Kaito seguiu o olhar dela para as nuvens como se estivesse imaginando outro plano. "Sim — mas há outra pessoa que preciso encontrar primeiro."

Ele já estivera na casa de Tamiyo. Ele precisava ser quem contaria à família dela o que acontecera. Olhar nos olhos deles e dizer que vasculharia cada plano para encontrá-la novamente.

Ele devia isso a Tamiyo. E se ela ainda estivesse com o Chip da Realidade, talvez ele pudesse usá-lo para rastrear a imperatriz também.

Antes de Kaito deixar a casa, Nashi prometera que, assim que tivesse idade suficiente, ajudaria a procurar por Tamiyo também.

Kaito sabia como era o sentimento de uma promessa dessas, então não ressaltou o quão perigoso seria, ou o quão impossível seria para Nashi viajar para outros planos. Em vez disso, Kaito disse a ele que estava ansioso para vê-lo novamente algum dia, apenas para deixar a criança com esperança.

"Eu sei que você não pode enviar um drone para onde está indo, mas~" Eiko balançou a cabeça, sorrindo levemente. "Só não demore muito para me avisar que ainda está vivo, está bem?"

Kaito assentiu, envolvendo-a em seus braços. "Tudo bem", sussurrou contra o cabelo dela. "Mas da próxima vez que nos encontrarmos, é melhor que seja em Towashi. Eu não volto todo o caminho para Kamigawa sem antes me encher de curry e macarrão. Prioridades e tudo o mais."

Eiko riu, empurrando o braço de lemente quando ele se afastou. Quando ela falou novamente, seu sorriso desapareceu. "Você deveria vê-la antes de partir."

A garganta de Kaito deu um nó. Ele sabia de quem ela estava falando; ele vinha evitando o caminho de Patas-Leves há dias. "As coisas já eram estranhas o suficiente quando ela era uma conselheira. E agora ela é a Regente de Kamigawa." Kaito deu de ombros. "Talvez não tenhamos sido feitos para uma reconciliação."

"Prometa-me que vai tentar, algum dia", insistiu Eiko.

Kaito parou, passando a mão por trás do pescoço. "Por você? Posso prometer algum dia." E então ele levantou uma mão. "A gente se vê por aí, mana."

Ela assentiu, com a boca cerrada enquanto lágrimas enchiam seus olhos. Foi todo o adeus que pôde dar a ele.

Pela segunda vez em sua vida, Kaito deixou o palácio sem planos de retornar. Ele dominaria seu caminhar entre planos. Ele vasculharia o Multiverso em busca de Tamiyo.

Ele encontraria uma maneira de terminar o que começou e trazer a imperatriz para casa.

EPÍLOGO

"Erga-se, a primeira dos Planeswalkers Phyrexianos. Você não será a última."

Os olhos de Tamiyo tremularam ao som da voz de Jin-Gitaxias. Ela se sentou, processando as formas ao seu redor. Não era a primeira vez que ela estava acordada no laboratório, mas era a primeira vez que parecia... familiar.

Franzindo a testa, Tamiyo buscou sua bolsa e tirou um de seus pergaminhos de histórias. Ela encarou o pergaminho, observando as palavras brilharem com um brilho metálico e se transformarem inteiramente em outro idioma. Ela leu o texto phyrexiano como se tivesse feito isso a vida toda e sentiu um estranho contentamento envolvê-la.

[Compleação de Tamiyo | Arte por: Dominik Mayer

Phyrexia era seu novo lar. Ela fazia parte dela — mente, corpo e alma.

Tamiyo olhou para o cromo brilhando em seus braços como uma estranha colcha de retalhos. Estava tão recém-polido quanto a parte reconstruída do peito de Jin-Gitaxias.

O monstro moveu-se por perto, os dentes estalando enquanto ele estudava os fios semelhantes a cabos fluindo com um líquido brilhante. Eles iam da carne de Tamiyo até uma máquina próxima.

Tamiyo sentia apenas gratidão pelo monstro. Ela sempre amara sua família e faria qualquer coisa para protegê-los. Agora, ela protegeria Phyrexia com a mesma lealdade inabalável.

Quando o reflexo de Tezzeret apareceu em um dos béqueres de vidro cirúrgico, Jin-Gitaxias virou-se, estalando suas mandíbulas afiadas em saudação.

"Sua presença tem sido escassa nos últimos dias", observou o monstro. Havia um tom de aspereza em sua voz.

Tezzeret ignorou a acusação velada e ergueu seu braço de metal. Ele brilhava com uma fraca energia rosa. "Usar a Ponte Planar cobra um preço. Eu estava me recuperando." Ele olhou para Tamiyo com desgosto.

Ela inclinou a cabeça. Algo o estava perturbando. Algo que ele tentava esconder com irritação. "Você não gosta de mim. Posso sentir sua verdade." Se ele não fosse leal a Phyrexia, ela descobriria o motivo.

Havia uma vulnerabilidade na maneira como ele a observava. Talvez não tivesse a ver apenas com seu corpo danificado.

Tezzeret conteve seu desconforto, substituindo-o por indiferença. "Você e seus amigos tentaram interferir nos planos de Phyrexia. Não tenho motivos para gostar de você, e menos motivos ainda para confiar."

Tamiyo só pôde encontrar verdade em suas palavras, então ela se recostou em seu assento, olhando brevemente para os três pergaminhos encadernados em ferro que jurara nunca usar. Ela sempre acreditara que eram poderosos demais e corriam o risco de causar grande destruição.

Mas ela também prometera intervir se houvesse alguma ameaça imediata ao lugar — e às pessoas — que considerava seu lar.

Phyrexia era sua família agora. E não havia nada que ela não faria por sua família.

Jin-Gitaxias rosnou. "Sua dúvida quanto à criatura de carne anterior é compreensível. Mas a cobaia provou ser uma candidata digna. Confiar na planeswalker agora é confiar em Phyrexia."

Tezzeret piscou, solene. "Parece que as coisas estão indo bem. Elesh Norn sabe que você teve sucesso em criar o primeiro planeswalker phyrexianizado?"

"Ela foi informada e foi devidamente castigada por subestimar minha inteligência." Jin-Gitaxias afastou-se, o corpo metálico brilhando. "O trabalho continua a progredir, mas ainda há muito a ser feito."

Pesquisa. Mais dados. Progresso.

Tamiyo viajara pelo Multiverso em busca de conhecimento. E se era isso que protegeria Phyrexia, então ela ajudaria de qualquer maneira que pudesse.

Sua família viria sempre em primeiro lugar.

07/02/2022 | Por Emma Mieko Candon

A Lâmina Refletida e Renascida

Sete cabeças se reuniram ao redor do santuário no coração do problema, jovens e velhos da mesma forma — incomum em um bairro como Canto Distante, onde geralmente eram apenas os velhos. Chishiro observava a reverência deles do telhado do armazém da cervejaria onde fora convidado a dormir. Eles não o veriam se se virassem; embora fosse grande, ele tinha habilidade mais do que suficiente para se esconder nas sombras.

Não que ele esperasse que os adoradores prestassem atenção em qualquer coisa além daquele maldito santuário.

Ayari, uma jovem local que estava agachada ao lado de Chishiro, viu a tensão em seus braços: três cruzados sobre o peito, um quarto massageando sua mandíbula escamosa.

"Eles estão com medo", disse ela defensivamente.

"Estão mesmo?" Chishiro perguntou. Ayari não respondeu, e ele deu de ombros. "Suponho que estejam."

Quando chegara a Canto Distante, Chishiro pensara que os adoradores eram tolos. Os locais o haviam contratado por sua reputação sombria; eles conheciam as piores histórias sobre ele, aquelas que enojavam as pessoas mais sensíveis porque eram verdadeiras e, portanto, horríveis. Eles pensavam que sua astúcia e disposição para matar por qualquer promessa de moeda manteriam suas cabeças presas aos pescoços. Então, ele pensou, certamente eles obedeceriam às suas ordens, se ao menos ele fizesse cara feia e pousasse a mão em sua afiada lâmina de prata. Ele lhes dissera para nunca viajarem sozinhos; para permanecerem em casa, sempre que possível; e para observarem fastidiosamente suas rotinas diárias, para que seu esquema não fosse descoberto.

[Chishiro, a Lâmina Despedaçada | Arte de: Lius Lasahido

Mas não importava quantas vezes Chishiro instruísse o povo de Canto Distante a parar de se aglomerar ao redor daquele estranho santuário na extremidade da rua principal do bairro, ele era ignorado. Inevitavelmente, eles vinham, um de cada vez, para se ajoelhar e contemplar o santuário com uma reverência sonhadora, como crianças embriagadas de sono ouvindo as histórias de um avô favorito.

Em todo caso, eles não podiam ter permissão para ficar — especialmente não agora, com a morte soprando tão fétida em seus pescoços.

Chishiro mostrou as presas para Ayari. "Diga a eles para voltarem para dentro antes que cometam mais erros."

Ela franziu a testa para ele, mas deslizou pelo telhado de telhas e saltou da borda para o pavimento preto e duro abaixo. Uma jovem ágil, já marcada nos braços e no rosto, Ayari se designara como o braço direito de Chishiro (o terceiro dele, dizia ela) desde o momento em que os anciãos de Canto Distante o contrataram. Ela possuía um dom florescente para a violência, que empregava com mais frequência com suas facas, repelindo as gangues de Justiceiros que buscavam cobrar dízimos de seus vizinhos.

Pouco depois de os anciãos contratarem Chishiro, ele perguntou se o batedor Justiceiro desaparecido, que era a origem de seus males, também havia caído pelas lâminas de Ayari. Os anciãos trocaram olhares silenciosos e tensos e responderam em termos vagos. Chishiro a princípio presumiu que eles discordavam sobre se sua querida menina havia feito algo tão precipitado. No entanto, nos dias seguintes~

Ele observou enquanto Ayari se aproximava dos sete moradores reunidos no santuário, persuadindo-os a se levantarem de joelhos e retornarem às suas tarefas designadas. Seus olhares demorados e vítreos para trás, para o santuário solitário e desolado, disseram-lhe tudo o que ele precisava saber.

Quando todos seguiram seus caminhos, Chishiro deslizou pelo telhado do armazém. Apesar de seu volume musculoso e do poder de sua cauda, ele não deslocou nenhuma telha e mal fez barulho, mesmo ao pousar. Ele atravessou a rua empoeirada para observar o santuário sozinho.

Canto Distante fazia jus ao nome — outrora uma aldeia modesta na beira de Jukai, fora gradualmente subsumida por Towashi para se tornar um de seus bairros mais novos e ignorados. Estava muito afastada do tronco imponente de Boseiju e das sombras iluminadas por neon dos arranha-céus Imperiais para ser considerada parte da Subcidade. Havia também o campo abandonado no final da estrada principal pavimentada, que se estendia até encontrar a borda irregular da floresta em recuo.

Quase todas as plantas dentro dos limites pavimentados de preto de Canto Distante haviam sido colocadas intencionalmente. Primeiro e mais importante, um par solitário de cerejeiras fora transplantado dos canais da Subcidade para o portão que era a entrada formal do bairro.

A única outra vegetação era o santuário. Ele se dividira e rompera o pavimento de pedra na extremidade Jukai da rua principal como a curva elevada de uma costa enorme, toda feita de madeira escura à procura de algo. Raízes distintamente mais pálidas e finas se espiralavam ao redor dele em voltas intrincadas. O santuário em si, embora pequeno, era natural. Um nó estranho na grande raiz negra formava uma cavidade do tamanho do punho de Chishiro. Dentro dela, a raiz mais pálida havia se aglomerado e emaranhado sobre si mesma como um coração nodoso que parecia, quando estudado, bater.

[Go-Shintai do Vigor Sem Limites | Arte de: Johannes Voss

Um kami dormia dentro do santuário, disseram-lhe os locais. Ainda não lhes dissera que tipo de kami era — quando falava, era em sussurros estrondosos e sonhos fragmentados, imagens que se coalesciam e se misturavam com uma dor profunda. Eles suspeitavam que fosse alguma sombra da atormentada Jukai, aqui na borda de Towashi.

Chishiro pairava sobre o santuário enquanto o sol se punha. A espada de prata presa às suas costas era apenas tão pesada quanto o metal poderia ser, e a sombra que projetava era tão sem vida e negra quanto a sua própria. O kami não achou por bem falar com ele, embora ele não duvidasse de sua presença. Era tão real quanto o fôlego e a maldade. E por mais que pudesse amar as pessoas que o amavam em troca, ele inevitavelmente se decepcionaria com elas.

Como tal, ele viera dar-lhe um aviso:

"Não os perturbe mais do que você já perturbou."

O kami nada respondeu. Chishiro não ficou surpreso. Ele já havia decidido que era uma criatura egoísta.


Anos atrás, Chishiro fora mais do que si mesmo. Seus amigos e camaradas, aqueles com quem ele caçava os Futuristas que ousavam infringir as fronteiras de Jukai, sabiam o que ele queria dizer quando dizia isso. Ele não queria dizer apenas que sua lâmina salpicada de jade era uma extensão de seu ser — em vez disso, era que seu próprio espírito fora composto com a ressonância de seu kami e, portanto, com Kamigawa.

Chishiro era si mesmo a tal ponto que ele-como-eu não importava em nada, pois o que realmente importava era o grande Kaima, a lâmina sombriamente radiante forjada pelo vínculo deles e por tudo o que pretendiam realizar juntos.

Chishiro tentara, algumas vezes, explicar-se aos Futuristas que capturavam em vez de matar. Uma ficara com muito medo dele e pensara que ele estava possuído e, por causa disso, era totalmente irracional. Outra falara com Chishiro como se ele fosse Kaima, e ela simulara obediência porque pensara que poderia enganá-lo para obter a liberdade. Uma terceira lhe dissera: "Eu entendo, eu acho. Há momentos em que vejo o plano dobrado sobre si mesmo — quando vejo a maneira como estou envolta nele."

Kaima se agitou em Chishiro. Ele disse: Um novo galho desejando se desdobrar e florescer. Um calafrio recua, e os brotos espiam bravamente.

Chishiro inclinou-se para frente para estudar a Futurista, uma mulher soratami, seu rosto cor de pérola vincado em pensamento, sua mão elegante pressionada contra a boca. "E o que você faz quando se sente assim?" ele perguntou a ela.

"O que eu estava fazendo quando você me pegou", disse ela.

Chishiro admirou sua honestidade, por mais descarada que fosse. Ele a encurralara com seus subordinados nas profundezas de Jukai. Este bando de Futuristas estivera fazendo o seu melhor para entender os kami, primeiro isolando-os em seu habitat mais natural, depois decompondo e dissecando esse habitat em suas partes mais elementares — assim fazendo, esperando quebrar e dissecar os kami.

Ela sem dúvida esperava que ele a matasse, como ele e seus camaradas haviam matado outros de sua laia. Então, Chishiro a deixou ir, despojada de toda a sua tecnologia e equipamentos, para as profundezas da floresta que ela buscara devastar. O kami decidiria se ela escaparia ou morreria, como era seu direito.

Os camaradas de Chishiro disseram: "Gostaríamos que você parasse de fazer isso."

Ele disse: "Eu tenho que fazer."

Ele quis dizer: "Eu quero — e Kaima também quer. Portanto, faremos. Nós devemos."

Eles tinham uma obrigação, uma que definia a presença de Kaima em Chishiro e de ambos em Kamigawa: floresta e companheirismo, o plano e seus vínculos. Eles buscariam sempre, primeiro, entender.

Talvez esse tivesse sido o problema — uma falha fundamental escrita em seu ser. Eles estiveram ansiosos demais para perguntar e ouvir, para dar conselhos e aceitá-los. Isso os quebrou, no final.


O problema de Canto Distante era os Mukotai, uma gangue de Justiceiros que escolhera atormentar este bairro, de outra forma silencioso. Cada família de Justiceiros cultivava seu próprio tipo de violência — veneno, lâmina ou maldição. Os Mukotai valorizavam os astutos e os ladrões furtivos, e apenas raramente decidiam usar sua força com o tipo de ameaça que haviam entregado a Canto Distante.

[Emboscador de Mukotai | Arte de: Raymond Swanland

Poderia ter sido diferente se o batedor deles não tivesse morrido nas ruas de Canto Distante. Chishiro achava que o problema residia menos no fato da morte do homem do que em como ele fora morto, e por quê.

Ele não recebera nenhuma história mais direta após a primeira não-resposta que os anciãos de Canto Distante ofereceram. Ayari insistia, de maneira indireta, que ela matara o homem. Chishiro duvidava disso. Ele encontrara o corpo onde ela tentara descartá-lo, no campo entre Canto Distante e Jukai, e vira as raízes correndo pela carne do corpo e se emaranhando para fora de sua boca escancarada.

Os Mukotai significaram sua intenção de retaliar com uma mão pregada no portão de Canto Distante. A mão pertencera a um jovem mecânico chamado Jenzo — um filho de Canto Distante que recentemente fora estudar na Academia Imperial. Ele fora devolvido para casa no dia seguinte, deixado semimorto na rua principal, tremendo e manchado de suor.

"Uma semana", Jenzo disse aos anciãos e a Ayari enquanto uma prótese com bordas de luz branca era ajustada em seu pulso. "Saimos até lá, ou morremos."

Pela ofensa de seu homem morto, os Mukotai pretendiam queimar Canto Distante até o chão. O kami de Canto Distante levara um dos seus, e eles pretendiam retribuir a transgressão na mesma moeda.

Talvez as pessoas de Canto Distante fossem mais lúcidas do que Chishiro pensava; afinal, elas o haviam contratado. Isso sugeria que percebiam que o kami que amavam não podia ser esperado para protegê-los.

Então Chishiro ensinara aos aptos de Canto Distante o uso adequado de lâmina e flecha no campo entre suas casas e Jukai. Os ágeis e habilidosos ele enviara ao armazém da cervejaria, onde recuperavam sucata para construir os dispositivos que Chishiro descrevia. Jenzo, o mecânico, acomodara-se em um canto do armazém, praticando com sua nova prótese, aprimorando os dispositivos que seus vizinhos construíam.

"Exclusivamente ilegal, não é?" ele perguntara a Chishiro, seu tom mais curioso do que acusatório, enquanto segurava a caixa do tamanho da palma da mão, de madeira esculpida e metal trabalhado, mexendo em seu interior.

"Sim", Chishiro respondera, e não dissera mais nada.

Apenas um tipo de pessoa sabia como fabricar um disruptor, um dispositivo que podia arrancar a magia do metal como garras arrancavam a vida da carne: o tipo de pessoa que se dedicava a Jukai. Chishiro não se dedicava mais a ninguém, mas se dedicara, uma vez, e saíra com sua parcela de lições para acompanhar as cicatrizes.

Para constar, o plano era atrair os Mukotai para a extremidade Jukai da rua principal de Canto Distante. Afinal, os Justiceiros queriam o santuário. Lá, eles encontrariam a armadilha: uma série meticulosamente organizada de disruptores, que seriam acionados em sucessão rápida assim que os Mukotai chegassem à área designada. Então, enquanto os Mukotai fossem forçados a usar quaisquer lâminas verdadeiras que carregassem contra as que Canto Distante trouxesse, os Justiceiros seriam forçados em direção à floresta de Jukai — e em direção ao kami que espreitava lá dentro.

Assim, o povo de Canto Distante daria aos Mukotai uma escolha, assim como eles haviam recebido: Fujam, ou enfrentem aqueles que os odeiam por ousarem transgredir contra eles.


O fim da semana caiu em uma noite sem lua. Chishiro espreitava no telhado da casa de chá — com três andares, era a estrutura mais alta de Canto Distante. Como se tornara seu hábito, Ayari agachava-se silenciosamente ao lado dele, pronta para levar suas ordens para onde quer que precisassem ir — até que ela começou a praguejar freneticamente em voz baixa.

Ela disparou para longe do lado de Chishiro, em direção à outra extremidade do telhado da casa de chá e quase para fora das sombras. Ele a pegou pouco antes de ela sair do abrigo, sua mão escamosa agarrando a nuca dela.

Ayari retesou-se sob o toque dele, mas não lutou, apenas inclinou a cabeça em direção ao objeto de sua frustração: Jenzo, agachado na rua lateral entre a cervejaria e o armazém, onde um dos disruptores fora plantado.

"O que ele pensa que está fazendo?" Ayari sibilou. "Eles estão quase aqui. Vão estripá-lo."

Outros moradores de Canto Distante esperavam, escondidos em becos e atrás de portas, prontos para sair e encurralar os Mukotai em direção ao campo assim que os disruptores tivessem disparado. Estes eram os indivíduos que Chishiro escolhera treinar, pois tinham força para golpear e perfurar. Jenzo, ainda se recuperando de seus ferimentos, não estava em condições de fazer o mesmo.

"Deve ser necessário", disse Chishiro, embora também observasse Jenzo e os movimentos rápidos de suas mãos sobre o dispositivo aninhado nas laterais ripadas da cervejaria.

"Ele vai ser visto." Ayari disse isso não com o fervor do medo, mas com a estabilidade da certeza. Seus olhos endureceram enquanto olhava para a entrada de Towashi em Canto Distante.

Os Mukotai haviam chegado.

A vanguarda dos Justiceiros movia-se nas sombras, formas ágeis agarrando-se a cantos escuros e subindo nos telhados. O resto vinha atrás, passo sem pressa, os cabos de esmalte e os cajados de onde suas armas brotariam pendurados sobre seus ombros blindados. À medida que se aproximavam, acendiam suas lâminas, uma após a outra. Uma luz estranha rastejava ao redor das formas de espadas, foices e outras brutalidades de gumes afiados, de outra forma invisíveis.

Atrás deles, o mech. Era todo de madeira de cerejeira escura, parte esculpida, parte cultivada em espirais nodosas para moldar as juntas de sua espinha curva, seus braços de três juntas arrastando-se e seus pés finamente articulados. Não tinha cabeça; um véu pálido ocultava a cabine do piloto em seu ventre afundado.

E à frente deles, uma besta pesada que se movia com velocidade repentina e impacto terrível. Um sapo engole-cadáveres dos canais, sua garganta pulsando e seus olhos de piscar lento girando com interesse lúgubre. Montado nele, um homem, ágil com confiança, seu olhar perspicaz e afiado.

"Canto Distante — sabemos que vocês não fugiram", chamou o montador de sapo. Sua voz, embora preguiçosa, cortava a noite com seu desdém. "Sabemos que estão se escondendo. Mas os Mukotai não são monstros. Esta é a última chance de vocês. Saiam, ou desejarão ter saído."

[Tatsunari, Montador de Sapo | Arte de: Justine Cruz

Se alguém tivesse presença de espírito para pensar tais coisas, poderia ter achado isso estranho. Os Mukotai não tinham vindo tirar do kami de Canto Distante o que fora tirado deles? Se sim, por que diriam às suas vítimas para fugir? Para tirá-las do esconderijo, talvez. No entanto, que simples cidadão poderia esperar se esconder de gente como um Justiceiro Mukotai?

Tais pensamentos passaram pela mente de Chishiro, mas permaneceram na superfície, diáfanos e substanciais. Algo mais se agitava nas profundezas de seu coração, algo sombrio e laborioso. Inconscientemente, uma de suas mãos pousou no cabo de sua lâmina de prata.

Mais urgentemente, enquanto o montador de sapo falava, um dos vanguardas das sombras deslizou para o beco onde Jenzo trabalhava freneticamente para esconder o disruptor em que estivera mexendo.

"Por favor, deixe-me ir." Ayari implorou a Chishiro, seu tom tão tenso quanto seus punhos em volta de suas facas. "Eles não podem saber o que fizemos. Eles —"

Ela parou, embora Chishiro tenha dado pouca importância a isso. Sua atenção agora estava fixa no nexo inesperado de seus problemas — no homem que falava pelos Mukotai.

Tatsunari, eles o chamavam; enquanto Chishiro reunia informações sobre a ameaça Mukotai, ele aprendera este nome, mas pouco mais. Ele ainda não ouvira a voz do homem, muito menos vira seu rosto. Nem vira a lâmina do homem.

Uma coisa simples, a última. Seu fio de metal mal brilhava no brilho rosa e crepuscular emitido pelo equipamento Mukotai. Um cabo de metal preto, manchado pelo uso e pelo tempo.

Familiar.

E aquele rosto~ a inclinação ociosa da cabeça de Tatsunari. O gume serrilhado de seu sorriso faminto.

Familiar também.

Familiar como uma velha cicatriz aberta, como sangue em sua língua e náusea em seu estômago. Chishiro naquele momento fora reduzido. Afiado. Ele fora um abismo bocejante, e agora era a pequena cavidade escura no centro dele — uma cavidade precisando ser preenchida.

Ele passara muitos longos anos com essa ausência dentro de si. Ele nunca pensara em dar-lhe um nome, pois achava que era óbvio: traição e deslealdade; seu próprio eu deficiente. E assim, ele nunca pensara em preenchê-la. Não parecia o tipo de ferida que poderia ser curada.

Mas oh, agora, a visão desse homem, era como água para a terra seca. Se Chishiro pudesse ter o coração dilacerado de Tatsunari em suas mãos, então finalmente, talvez, ele pudesse conhecer a satisfação.

Sim. Seria um assassinato egoísta e grosseiro, não sagrado também, mas Chishiro desejava isso tão viciosamente que não estava mais preso a tais pensamentos.

"Chishiro", ele ouviu, debilmente, seu nome falado em um sussurro urgente. Novamente, "Chishiro, o que —"

Chishiro então já havia descido.

Ele se lançou do telhado com a totalidade cruel de seu volume. Colidiu com um brutamontes Mukotai que não teve tempo de ficar chocado antes que a lâmina de Chishiro tivesse cortado sua garganta.

Ele deixou o homem borbulhando, debatendo-se na rua enquanto avançava em direção ao próximo — uma guarda com uma naginata de gume brilhante. Ela tentou saltar para trás, mas Chishiro já havia agarrado a ponta de sua lança, logo abaixo da lâmina, com seus dois braços direitos. Ele a arrancou de suas mãos. Enquanto ela tropeçava em sua direção, ele cravou sua própria lâmina de prata entre as ranhuras de sua armadura de placas, em seu ventre.

A essa altura, gritos de alarme e agudos de violência ressoaram pela rua. O pânico sangrou em ação desesperada.

Chishiro não ouviu nada através do rugido em sua mente enquanto encontrava o olhar perspicaz de Tatsunari. O sapo se virara parcialmente, seu corpo eriçado de tensão, seus dentes úmidos com uma fome reluzente. Tatsunari, em cima dele, jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada que se derreteu no clamor crescente.

Era a risada encantada e frenética de um homem que sabia que enfrentava sua morte — que percebia que sua única esperança era matar primeiro.


Pouco depois de Chishiro enviar aquela Futurista para seu destino nas profundezas de Jukai, ele e seus camaradas retornaram a um dos refúgios de sua Ordem: um pequeno bosque de árvores ao lado de uma cachoeira, acima de um rio que fluía para uma vila próxima na borda de Jukai. A vila era amigável com a Ordem deles e os ajudava a esconder suprimentos no bosque para diferentes células.

Um jovem — um menino — estava esperando por eles lá. Humano, pequeno, nascido e criado em Towashi. Desconhecido para todos eles, mas ele conhecia os códigos. Chishiro soube mais tarde que ele fizera amizade com um dos espiões da Ordem e extraíra a verdade deles antes de encerrar a amizade da maneira mais abrupta imaginável.

O menino fez o mesmo naquela noite. Ele desempenhou bem o papel de um aluno ansioso — ele estava faminto o suficiente para isso. Ele queria conhecer melhor a floresta, disse ele, e os espíritos que a agraciam.

"Há espíritos de sobra em sua cidade também", disse Chishiro.

"Não como os seus", disse o menino, observando a lâmina com bordas verdes presa às costas de Chishiro — a arma que era o foco cristalizado de seu vínculo com seu kami. Havia tanta inveja naquele olhar. Tamanho desejo. E ainda assim~

Kaima achou estranho também. Ele disse a Chishiro: Um ninho esvaziado. Um filhote caído. Uma nascente seca e o rebanho sedento.

Chishiro concordou. O menino claramente ansiava, e ele estendia a mão ávida para qualquer coisa que pudesse responder ao anseio. No entanto, suas mãos estavam vazias. Por que nada achara por bem preenchê-las?

Chishiro teve pena dele, assim como seus camaradas.

Então, eles ouviram. Eles falaram. Eles comeram com o menino e não notaram que ele não comia dos suprimentos que o resto deles compartilhava.

Naquela noite, Chishiro e seus companheiros caíram em um sono profundo e imóvel. Ele acordou em uma névoa, com a lua baixa entre os galhos.

Chishiro não conseguia se mover. Nem nenhuma das outras figuras em seu campo de visão. Alguns também não respiravam. Eles haviam sangrado de suas gargantas na terra musgosa ao lado da cachoeira furiosa.

O menino estava agachado sobre Chishiro, embora estivesse olhando para outro lugar. Ele olhava desafiadoramente para o escuro entre as árvores, para a forma imponente dentro das sombras que estremecia com respirações terríveis e pesadas, suas garras maciças cavando sulcos nervosos na terra e suas presas ramificadas tremendo. Kaima, grande e temível.

"Por que você não se move?" O menino varreu a mão em direção aos corpos inertes que ele derrubara com seu veneno e, naquela mão, segurava uma lâmina — uma familiar. O foco de Chishiro, roubado de seu lado, embora quando não empunhado por sua mão, não emitisse luz exceto a que captava sob a lua. "Você não os ama?"

Chishiro sentiu a resposta de Kaima por todas as suas veias: Ossos projetando-se através da carne. Ofegando através da podridão.

A fúria do kami ardia, impotente, uma consequência de seu vínculo único. Kaima era por natureza preso à sua casa, mas seu vínculo com Chishiro permitia que ele agisse em qualquer extensão do reino mortal para o qual Chishiro o levasse. Também o tornava vulnerável às vicissitudes visitadas sobre a carne de Chishiro.

O grande Kaima estava agora impedido pelos confins do tolo e envenenado Chishiro. Mesmo enquanto seus camaradas eram assassinados um a um, Kaima nada podia fazer — mesmo enquanto a lâmina roubada do menino estava posicionada para matar Chishiro também.

Naquele momento terrível, Chishiro lutou para arrancar algo de sua garganta paralisada. Sua mente estava nublada demais pela dor, raiva e medo para saber o que seria antes de vazar de sua boca. Pare, ele desejou dizer. E por que. Ele conseguiu apenas um coaxar débil.

O menino desdenhou de Chishiro, enojado — encantado? Ele voltou-se para Kaima, com os dentes à mostra. "Bem? Você sabe o que eu quero. Vincule-se a mim, e não terei necessidade de matá-lo."

Tolo, pensou Chishiro, e se desesperou. Que idiota pensava que poderia forçar um vínculo? O povo da cidade caíra tanto assim?

Não, ele pensou enquanto olhava para este menino desesperado, e um calafrio se instalou de seus pulmões até sua garganta. Era a fome do menino que o mantinha solitário. Nem mesmo um kami movido por essa mesma necessidade abriria os braços para ele — nenhum kami se entregaria a um mortal que queria apenas tomar e tomar, que não tinha noção do que seria esperado que ele desse.

E o que, agora, Chishiro tinha sobrado para dar a Kaima?

O grande Kaima tremeu ainda. Sua cabeça de javali inclinou-se, uma sombra translúcida, e seus olhos brilhantes encontraram os de Chishiro.

Chishiro pensou: Deixe-me ir. Seja livre.

Kaima deu um solavanco para o lado, seu fôlego um vento quente que sacudiu as árvores. Ele disse: A árvore açoitada pela tempestade e a raiz agarrada à terra. Agarrada. Agarrada.

A mandíbula do menino se apertou, e ele ergueu a lâmina sobre o pescoço petrificado de Chishiro.

A raiz na mente de Chishiro se rompeu, e a lâmina na mão do menino se despedaçou.

A floresta guinchou com o rugido de Kaima. Sombras irromperam por entre as árvores, e a imensidão de Kaima investiu, avançando sobre o garoto e Chishiro com uma força esmagadora.

Chishiro sentiu a pressão excruciante da passagem do kami nos sulcos de suas escamas — mas ele não foi pisoteado e, em instantes, estava sozinho.

Agudamente só. Chishiro não conhecia a solidão há longos anos — não desde Kaima~

Ele não conseguia ouvir Kaima.

Chishiro respirava com dificuldade no silêncio, olhando para a lua através dos galhos, sentindo-se pequeno, frágil e finito. Ele lutou para se arrastar de lado para ver o que havia acontecido com o garoto e seu parceiro.

Uma linha de terra devastada e quebrada estendia-se do corpo de Chishiro até a margem do rio. Não havia sinal de seu kami, ou de seu foco, ou do garoto que os havia separado.

Chishiro, entorpecido e sem pensar, esperou e esperou que Kaima retornasse, mas quando a aurora rastejou pelos galhos acima, ainda não havia nada além de si mesmo. Só então ele conseguiu se erguer e descobrir o que havia acontecido com a aldeia abaixo da cachoeira. As últimas imagens que Kaima despejara nele lampejaram novamente em sua mente enquanto ele contemplava a carnificina abaixo: Uma árvore devastada. Uma raiz fendida.

A aldeia jazia em ruínas, os aldeões arruinados com ela. Eles haviam sido reclamados pelas raízes de Jukai em uma única noite, e com selvageria.

Chishiro não sabia o que fazer de si mesmo na ausência de Kaima. Menos ainda com a certeza latente de que a responsabilidade por essa destruição não recaía inteiramente sobre o garoto, mas sobre si mesmo. Sua fragilidade. Sua disposição em se render.

No fim, ele queimou os corpos de seus amigos e de cada aldeão que conseguiu encontrar. Então partiu, retornando em silêncio. Ele não escolheu vender sua violência tanto quanto começou a ser pago para exercê-la, e tem feito isso desde então.

Era por isso que o kami de Recanto Distante só havia conquistado sua cautela. Por que, mesmo que amasse seu povo, ele não conseguia se permitir confiar nele.

Por que agora, mesmo assim, ele iria protegê-lo: ele odiava o homem que o ameaçava apenas um pouco menos do que odiava ferozmente a si mesmo.


Os disruptores dispararam em uma sequência desordenada. Um trecho de Recanto Distante escureceu subitamente enquanto as armas Mukotai brilharam e morreram, enquanto outras permaneciam luminosas com ameaça.

Uma samurai caiu de joelhos sob o peso da armadura de placas morta e corpulenta que agora ameaçava esmagá-la. Um grupo de vizinhos de Recanto Distante avançou sobre ela com cajados e espadas, golpeando e cortando.

Um ninja arremessou adagas em um morador de Recanto Distante, depois em outro, e mais outro. Um por um, suas vítimas cambalearam e caíram, gritando enquanto as adagas se incendiavam com fogo violeta.

Jenzo rolou pelo pavimento da rua principal, arremessado para longe do disruptor que tentara acionar pelo estranho braço de três articulações do mecha Mukotai. O disruptor caiu entre eles. Jenzo rastejou em sua direção justo quando o mecha fincou seus pés com garras no pavimento rachado e investiu.

Ayari esquivou-se de outro combate bem a tempo de derrubar Jenzo para fora da trajetória do mecha. Eles derraparam livres, mas o mecha girou em meio ao ataque e, com uma graça misteriosa, deu uma pirueta sobre o próprio corpo para pousar, agachado, diante do disruptor abandonado. Ele apanhou o dispositivo do chão entre seus dedos longos e delicados e o segurou diante do véu esfarrapado que ocultava o cockpit, examinando seu prêmio.

Um aperto minúsculo; o disruptor se estilhaçou.

Então o mecha avançou para pegá-los.

Até que ele deu um solavanco desajeitado para frente. Algo havia atingido suas costas. Ele se contorceu para se voltar contra o agressor, mas este já havia escalado e se enrolado na coluna do mecha.

Enquanto o mecha cambaleava, tentando arremessá-lo para longe, Chishiro girou pela lateral do cockpit aberto e agarrou-se ao seu teto com dois de seus braços. Rasgou o véu com um terceiro e, com o quarto, enfiou um disruptor de jade pulsante nas mãos do piloto.

O piloto olhou fixamente para o objeto, depois para ele, em um horror consciente. Eles estavam presos ao seu mecha por uma floresta de fios e tubos trançados e, em um segundo, quando o disruptor detonasse, provavelmente morreriam com sua máquina.

Chishiro não esperou para ver se morreriam. He se jogou do mecha momentos antes de o disruptor ressoar e enviar o construto corpulento tombando ao chão atrás dele, morto.

Chishiro seguiu em frente. Ele passou por Jenzo e Ayari, agora de pé. Jenzo tentou agradecê-lo, mas Ayari o conteve. Como se através de fumaça, Chishiro percebeu a fúria no rosto dela, e o desprezo.

Chishiro cometera os erros que tentara impedi-la de cometer. Agora pessoas — o povo dela — estavam morrendo, e a culpa era dele.

Chishiro entendia a ira dela. Ele sabia o que era perder camaradas para o egoísmo de outra pessoa.

Ainda assim, ele não podia parar. Estava focado unicamente em sua perseguição a Tatsunari, um homem de cuja morte Chishiro precisava como um corpo que se afoga precisava de ar.

Tatsunari havia fugido do conflito. Ele orientara seu sapo para trazê-lo trovejando pela rua, passando por toda a resistência, até o santuário que o aguardava no final. Ele esperava lá agora com sua lâmina desembainhada — o antigo foco de Chishiro, ressuscitado e inteiro, opaco com metal mortal. Ele ainda não havia golpeado. Tatsunari sabia que era preciso mais do que um golpe para matar um kami.

Chishiro aproximou-se de Tatsunari, ensanguentado e ofegante, sua lâmina prateada manchada por vísceras.

O rosto do cavaleiro de sapo estava frio com uma inimizade profunda como uma correnteza. "Você", disse Tatsunari, como faria a um velho amigo. "Achei que tivesse se encolhido em um buraco e morrido."

"Largue sua lâmina", disse Chishiro.

"Por que eu faria isso?"

"Para que eu possa matá-lo com ela."

Tatsunari jogou a cabeça para trás e riu novamente, delirante de descrença. "Vocês vinculados! São todos iguais. Tão hipócritas, tão determinados a que o mundo faça o que vocês dizem."

"Miserável rancoroso." Mas mesmo enquanto Chishiro rosnava, uma percepção atravessou seu peito e floresceu em todo o seu ser. "Você os odeia", disse ele, "os kami."

A mandíbula de Tatsunari se contraiu, tal como naquela noite longínqua em que ele erguera sua lâmina roubada sobre a garganta de Chishiro. "Não mais do que odeio qualquer um que mataria um de meus Mukotai."

Era a vez de Chishiro rir. O riso começou nas profundezas de suas entranhas e encheu seu peito como fumaça. O aperto de Tatsunari em sua lâmina roubada intensificou-se, e ele a ergueu como se estivesse incerto entre golpear o santuário ou o guerreiro louco diante dele.

"Você os odeia sim", cuspiu Chishiro. "Você os odeia porque eles o veem pelo que você é. Um homem vazio. Um nada."

E era provável que o mesmo ódio tivesse levado Tatsunari a enviar seu batedor Mukotai a Recanto Distante em primeiro lugar. Towashi oferecia raras oportunidades para matar um kami; o pequeno novo santuário de Recanto Distante deve ter parecido um alvo irresistível para a raiva do homem vazio. Seu medo.

De fato, as palavras de Chishiro pareceram ferir Tatsunari mais cruelmente do que qualquer lâmina poderia. O rosto do homem contorceu-se com uma dor além da raiva. Sua lâmina roubada avançou contra Chishiro — mas Chishiro não se moveu, sua lâmina prateada segurada frouxamente em sua mão.

Ele estava pensando no vazio. Este homem vazio investiu contra ele, mas se Tatsunari cravasse sua espada em Chishiro, encontraria apenas mais vazio. Chishiro não saberia dizer por que aquilo o fazia rir, mas foi este som e nenhum outro que escapou dele ao perceber o grau horripilante ao qual ambos eram criaturas de nada, miseráveis em sua carência.

A lâmina outrora abençoada atingiu Chishiro na barriga, logo abaixo das costelas, onde mergulhou fundo e mais fundo até que o sangue subiu à sua garganta.

Então algo mais brotou com o sangue. Luz e calor, desdobrando-se de dentro da ferida de Chishiro e espalhando-se através de seu riso — mudando seu tom, até que se tornou não o latido oco do desespero, mas um uivo misterioso de satisfação iminente.

Os olhos de Tatsunari arregalaram-se com um medo selvagem enquanto raízes rastejavam para fora da ferida que ele cavara em Chishiro, finas e pálidas a princípio, depois mais escuras, mais firmes. Elas deslizaram pela lâmina em direção à mão dele, e ele a puxou de volta em horror.

O kami do santuário de Recanto Distante despertara, e disse isto a Chishiro: Uma árvore consome o prego em seu interior; as raízes bebem sangue para crescer e crescer.

Significava: Tome a vingança dele e torne-a sua. Eu ordeno. Eu cobiço. Por mim, você o fará.


As raízes brotaram do chão em um arranjo selvagem. Poderosas e chicoteantes, elas se enroscaram em pernas, atravessaram pés e penetraram em torsos.

Gritos ainda rasgavam o ar, mas também brados de deleite e alívio. O povo de Recanto Distante viu seu kami finalmente se erguer para salvá-los — mesmo enquanto as raízes sombrias fendiam as paredes e telhados de suas casas para agarrar Ajustadores que lutavam para escapar.

Chishiro não tinha tempo para qualquer destino que não fosse o de Tatsunari. Ele tossiu com dificuldade, mas nenhum sangue saiu de sua boca enquanto ele soltava a parca espada de prata com uma mão e agarrava o punho da espada cravada em sua barriga com a outra. O kami o ordenara a retomar a lâmina; ela parecia pulsar contra suas palmas — exatamente como outrora, quando fora o cerne de seu pacto divino. O kami de Recanto Distante o impelia para frente.

Tatsunari fugira de volta para cima de seu sapo enquanto este saltava para longe, coaxando de medo diante da torrente borbulhante de raízes que irrompiam do chão.

O kami falou com Chishiro novamente; ele não ousava pensar que aquilo também era familiar: O solo da floresta reclamando ossos antigos.

Chishiro arrancou a lâmina de seu peito. Por direito, ele deveria ter sangrado até a morte e, por um momento, seu sangue jorrou — mas foi rapidamente estancado pelas raízes que se enroscaram como se viessem de dentro dele e taparam o buraco. Ele ainda sentia a dor, mas mais do que isso, tinha a adrenalina e a necessidade .

Tatsunari ainda estava vivo. Ele não merecia estar.

Sem pensar, Chishiro agarrou-se a um rio de raízes que fervilhava do solo e o carregou pelo ar. De seu posto elevado, ele tinha a visão de Recanto Distante.

Os Mukotai lutavam para recuar para a parte do bairro mais próxima de Towashi, onde as raízes tinham dificuldade em serpentear pela infraestrutura mais espessa. Tatsunari estava com eles, seu sapo saltando para longe da fúria voraz do kami.

Imagens surgiram por trás dos olhos de Chishiro: O falcão mergulhando. O tigre investindo. A cobra, dando o bote —

"Não precisa ser tão óbvio", disse ele. E saltou, elevado por uma alegria implacável.

Rápido e perfeito, Chishiro, sua lâmina e o poder dentro deles mergulharam em direção ao seu alvo.

Tatsunari viu a sombra de Chishiro caindo e virou-se, de olhos arregalados. Ele teve apenas um segundo para escolher: enfrentar a ameaça ou salvar a si mesmo. Ele se atirou de sua montaria.

Chishiro fendeu o sapo. Ele arrastou a lâmina através de sua carne, seus urros desfazendo-se na noite, até que o cortou tão profundamente que ele arquejou e finalmente morreu.

O corpo partiu-se e desfez-se em uma bagunça desagradável. Mas mal seus lados deslizaram para o chão, foram apanhados e consumidos pelas raízes vorazes, que buscavam se aninhar e florescer através de sua riqueza.

Chishiro virou-se, limpando o sangue de sua lâmina com um movimento rápido. O fio brilhou verde sob a luz das lamparinas.

Tatsunari rolara na rua após o salto e caíra mal sobre a perna. O ângulo do membro estava todo errado. Chishiro avançou sobre Tatsunari, que mostrou os dentes, com os olhos úmidos de lágrimas angustiadas.

Chishiro agigantou-se sobre o homem quebrado, e sabia em suas veias gritantes que o estado arruinado de Tatsunari não era o suficiente. Aquele homem matara demais e mataria novamente, pois ele era apenas o rancor feio com o qual olhava para Chishiro, um veneno, um —

Algo naquele olhar quebrado deteve a lâmina de Chishiro. Tatsunari ainda zombava, mas Chishiro não achava que ele estivesse escondendo medo.

"Por quê?" Chishiro se viu perguntando. "O que fez de você... isto?"

Tatsunari engoliu um riso que morreu em sua garganta. "Como se você fosse entender. Você é um escolhido. Eu sou nada . Você mesmo disse. Agora me mate."

O ódio corria sombrio e serrilhado através das palavras de Tatsunari, mas sob aquela fúria, ao mesmo tempo frágil e duradoura, estava o desespero.

E foi o desespero que convocou uma dor no peito de Chishiro, pulsando de onde Tatsunari o esfaqueara há poucos instantes.

Um vento quente soprou na noite parada. Chishiro ergueu os olhos para encarar a imensidão de sombra vazia que tremulava sobre o quebrado Tatsunari. Por fim, ele se permitiu reconhecer o kami que espreitara no pequeno santuário retorcido, que devorara um Ajustador por meramente invadir seu território e que agora pairava sobre eles com uma silhueta ao mesmo tempo familiar e estranha — a majestade que outrora fora Kaima.

Um brilho fervilhante atravessou a imagem do kami como um relâmpago. Uma luz como um veneno, pois a cada lampejo, outra imagem queimava na mente de Chishiro:

Esmague. Massacre. Devore. Acabe com este miserável sem fé — e depois com o próximo, e o próximo.

Mais gritos subiram naquele vento que aumentava. Ganidos assustados e arquejos de dor vindos de Recanto Distante — não dos Mukotai em fuga, mas daqueles que ficaram porque pensaram estar seguros em suas casas. Mas as raízes ainda não estavam saciadas. Nem Kaima.

"Por quê?" Chishiro disse novamente. A pergunta escapara de sua boca sem que ele pensasse nela.

Kaima disse: Carne mortal e trabalho mortal. Apenas um tipo de criatura tem coração suficiente para trair outra.

E por isso, Chishiro percebeu, o kami pretendia ser a ruína deles; fossem Mukotai ou não, Kaima arrasaria a todos pelo pecado de sua falibilidade.

Chishiro apertou a ferida em sua barriga que Kaima fechara. Ela queimava como se estivesse infeccionada.

No momento seguinte, seu mundo inclinou-se. Alguém colidira com ele por trás e o jogara para o lado. Um brutamontes Mukotai de armadura empurrara Chishiro por um segundo crucial para erguer Tatsunari do chão.

O choque nunca deixou os olhos de Tatsunari enquanto seu aliado o carregava, resgatando-o de uma morte certa. A surpresa de Chishiro desapareceu muito antes — substituída por uma nova determinação.

Traição, podridão e morte, ele vira tudo isso, sim, e vira repetidas vezes. Mas essas coisas não eram o fim. Elas nunca eram.


Chishiro voltou-se para a cena atrás dele. Recanto Distante rachava em cada fundação, suas estruturas desmoronando sob o ataque das raízes de Kaima, seu povo lutando para se libertar do ódio implacável de seu kami.

Ali, no centro da rua, erguia-se o grande Kaima, traição e ódio coagulados em costas maciças e eriçadas e presas ramificadas salientes. Ele saiu da sombra para a realidade colorida, e todos os que o viram ficaram sem fala pela raiva que corria por seu pelo como fogo.

Bastava um olhar para saber: ele era o kami que chegara a eles tão subitamente através da terra, a quem haviam tentado nutrir com seu amor e atenção — mas isso não fora suficiente para acalmar sua raiva latente. Ele pretendia matar a todos.

[Kaima, a Calmaria Fraturada | Arte de: Filip Burburan

Chishiro não podia permitir.

Ele avistou Ayari e Jenzo rua abaixo. Chamou seus nomes, e eles despertaram de seu terror para olhar para ele, cautelosos e de olhos arregalados. Chishiro indicou Towashi com a cabeça. Era toda a mensagem que tinha tempo para dar.

Enquanto os dois jovens de Recanto Distante corriam para reunir todos que pudessem salvar e levá-los para a cidade, Chishiro avançou em direção ao seu velho amigo — lâmina na mão e raiz no peito.

"Por que estas mortes também, Kaima?" perguntou ele enquanto deslizava pelo pavimento quebrado e passava por corpos destroçados. "Eles amam você, sabia?"

Kaima encarou Chishiro, mas Kaima não estava olhando para ele. O olhar do kami, ao mesmo tempo profundo como esmeralda e brilhante como uma tempestade, estava fixo no espaço atrás de Chishiro. Em Towashi e nas pessoas que fugiam em sua direção.

Mas foi o que Kaima disse que forçou Chishiro a parar onde estava. Veio em imagem e sentido, como sempre, apenas agora havia uma especificidade terrível. Quando Kaima falou para justificar essas mortes, ele não falou do plano, mas de:

Chishiro, ensinando Ajustadores o caminho de escalar árvores e matar silenciosamente. Chishiro, ensinando Futuristas os meios de se protegerem contra a força estilhaçadora de um disruptor. Chishiro, outrora vinculado, agora sem fé e rancoroso, movido não por credo, mas por moedas, e odiando não apenas a si mesmo, mas —

"Você acha que eu odiava você", disse Chishiro. Uma dor surda rastejou por seu peito enquanto o julgamento de Kaima pulsava por seus membros.

Pois se o mortal cuja vida outrora definira Kaima agora o odiava, o que Kaima poderia se tornar senão odioso também? Não importava que o ódio estivesse antes tão fora do mundo do grande Kaima que ele mal o compreendia; agora era o que o havia quebrado, e assim era tudo o que lhe restava.

Só agora Chishiro percebia que Tatsunari não fora a lâmina que cortara seu vínculo; ele fora meramente um fulcro, e sob sua pressão, sua amarra se rompera. O peso daquela crueldade pressionando os desfizera a ambos — deixara-os como crueldades serrilhadas em si mesmos, quebrados por sua dor e indispostos a fazer qualquer outra coisa senão forçar sua dor sobre os outros.

Outrora, Chishiro pensara ser o lugar do kami escolher quando — se — um mortal deveria morrer. Agora ele tomara essa escolha em suas mãos ensanguentadas, e a fizera repetidas vezes.

E no entanto agora~

Recanto Distante rangia e se estilhaçava ao redor deles, e Chishiro não conseguiu conter a língua.

"Quem é você para escolher?" O ódio cortava cada palavra de sua boca, mas sua voz carecia de calor. Chishiro perguntava como um homem julgado que apenas julgava por sua vez. "Você é uma sombra de si mesmo. Um fantasma assassino. Você abjura os mortais, mas somos de Kamigawa tanto quanto qualquer raiz e flor — como qualquer pássaro e lobo. Você nos rejeita agora porque tem medo de ser ferido novamente. Não escolhemos isso? Ser feridos, juntos, por causa deles. Como você pôde deixar o rancor de um único homem arruiná-lo tanto?"

Chishiro encarou o olho imenso e sombrio de Kaima, uma profundidade negra e sufocante, com seu próprio olhar firme. Ele pensou, no fundo de seu estômago: Nós vamos matar um ao outro.

Então uma fenda o atravessou, do crânio até a cauda, e uma imagem irrompeu dela: Uma fonte clara turvada por um corpo em decomposição, e seu próprio reflexo na água fétida — porque era sua própria carne, atravessada por raízes que se tornaram sua coroa e garras, que envenenara a fonte com sua morte.

Oh, pensou Chishiro, e viu a percepção surgir em Kaima também, que naquele momento diminuiu, sua raiva atravessada por si mesmo.

Oh, pensou ele novamente. Nós já matamos.


O orochi e o kami que um dia foram não existiam mais. Seu vínculo também não passava de uma lembrança, uma pela qual pranteavam juntos enquanto a noite se tornava parada e sufocante. As raízes de Kaima não se contorciam mais. Recanto Distante permanecia de pé, embora arruinado.

"Eu corrigiria isso, Kaima", disse Chishiro, e baixou a cabeça enquanto oferecia a lâmina que fora o cerne de seu vínculo. "Cortarei minha vida de você, se for preciso."

Ele vira a si mesmo, afinal — a carne mortal naquela fonte envenenada, entrelaçada com a divindade de Kaima, aquilo que o forçava a conhecer a putridez e o erro.

Um som estranho emanou de Kaima enquanto o kami parecia inclinar-se. O grande espírito caiu pesadamente no chão fragmentado, levantando nuvens de poeira ao redor de sua forma prostrada e ajoelhada. Ele estremeceu novamente, aquele som ainda agitando-se em seu interior. Riso, percebeu Chishiro com um sobressalto. Velho e cansado. Doentio.

"Eu não posso ser corrigido", disse Kaima, a linguagem falada sendo nova em sua garganta ancestral. Nova, mas um presente. Um pedido de desculpas, arquejante e estranhamente mortal. "Sou como sou. Torno-me o que me torno. É possível, no entanto, que eu não deseje mais ser aquilo que fui."

Chishiro sentiu a dor novamente ao ouvir a sombra daquela velha inclinação inquisitiva — o maravilhamento que impulsionara o Kaima a quem ele se entregara. O kami que sempre buscara alguma forma de alcançar aqueles diferentes de si mesmo.

Chishiro estendeu uma palma hesitante e vazia em direção ao focinho tremendo e teve a permissão de tocá-lo. "Então, como posso lhe dar paz?", perguntou ele.

"Isso é o que me cabe?", perguntou Kaima.

"Pode não ser", disse Chishiro. Eles estavam nos destroços da raiva de Kaima, que era apenas a mais recente de suas crueldades. E ainda assim. "Mas desejo que você a tenha."

"Então entregue-se a mim novamente", disse Kaima, mais rápido do que conseguira com qualquer outra palavra. Seu desejo era claro, e a necessidade. Chishiro viu-se refletido no preto do olho de Kaima e, por um momento, eles brilharam juntos. "Refaça-me enquanto eu reforjo você. Seja minha vigilância. Minha guarda. Minha fé e vínculo."

Chishiro pensou: Eu não posso. Pensou: Eu não devo. E pensou: Por que você confiaria em mim novamente?

Mas esse, ali, era o truque de um vínculo. Mesmo quando perdiam a esperança em si mesmos, podiam encontrá-la novamente, refletida no outro.

Chishiro ergueu mais uma vez a lâmina focal plana entre eles e, ao fazê-lo, fissuras finas começaram a percorrê-la. Enquanto os fragmentos caíam, um após o outro, revelavam uma luz renascida.

08/02/2022 | Por Grace Chan

O Motor de Épocas

Enquanto Katsumasa a liderava por um labirinto de passagens, a pele de Kotori estalava com exaltação. Ele a havia trazido aos seus laboratórios secretos muitas vezes antes, mas não para estas seções mais internas. Aqui, corredores mudavam para sombras e portas se dissolviam atrás de véus de oclusão. Kotori apenas vislumbrou fragmentos: um corpo esticado coberto por encantamentos brilhantes; uma grande máquina com uma agulha tão longa quanto um braço; um rosto sombrio e peludo atrás das barras de uma jaula.

Kotori seguiu Katsumasa por mais um véu e para uma câmara abobadada. Luzes azuis suaves brilhavam das paredes. No meio da sala, havia uma plataforma elevada com nada sobre ela.

"Você sabe que confio em você mais do que em todos os meus pupilos, Kotori," Katsumasa disse, cruzando as mãos atrás das costas. "Sua determinação e autossacrifício nos últimos sete anos provaram que você é excepcional, mesmo entre os mais talentosos do meu círculo íntimo."

Kotori olhou para o seu professor. Um implante telepático brilhava em sua testa. Suas orelhas longas projetavam sombras sobre seu maxilar afiado e ombros largos. Embora a idade estivesse começando a esculpir linhas em sua pele, ele ainda parecia indomável. Por toda Otawara, o nome dele era falado com reverência sussurrada: Katsumasa, o Animador, titereiro dos mechs, engenheiro do futuro.

[Katsumasa, o Animador | Arte por: Heonhwa Choe

"Você me lisonjeia, professor. Hideji é muito mais rápido no ar."

"Hideji. Falta compostura a ele, então ele nunca será grande." A boca de Katsumasa se contorceu, e então a sua expressão escureceu. "De qualquer forma, a velocidade do piloto pouco importa quando os malditos mechs não conseguem acompanhar."

Ela já tinha ouvido essa parte antes. Katsumasa vinha tentando melhorar a tecnologia há anos, para encurtar a lacuna entre o pensamento e a ação — mas a sincronização entre o mortal e a máquina provou ser difícil de aperfeiçoar. Ela tinha visto seu professor, em um ataque de frustração, queimar um experimento de três anos até as cinzas.

"Este é um projeto confidencial, obviamente" — ele gesticulou para os véus — "então você está jurada ao sigilo absoluto. Eu não posso ter outro departamento sentindo o cheiro deste experimento. Agora, eu sei, como Futuristas, o progresso é nossa força motriz. Mas nem todos os cientistas têm tantos princípios quanto você e eu, Kotori. Eles reivindicariam todo o crédito para si mesmos e não nos deixariam nem mesmo uma migalha. E se os Imperiais viessem farejando — bem, isso seria ainda pior. Você sabe que aqueles pedantes hipócritas sempre entendem mal o que estamos tentando alcançar."

Kotori assentiu. Sua pele formigou por baixo do tecido grosso de seu traje. Katsumasa já a tinha trazido para projetos clandestinos antes, mas a estranha emoção na voz de seu professor fez esta vez parecer~diferente.

O implante de Katsumasa piscou. Algo mudou — outro véu de oclusão se dissolvendo. A plataforma não estava mais vazia. Um enorme mech com um torso geométrico prateado se equilibrava sobre duas pernas poderosas. Braços maciços terminavam em mãos como ganchos de agarrar. Um par de omoplatas brilhava com asas com bordas de navalha.

"Lindo," ela ofegou.

"Meu protótipo para uma nova geração de mech. Eu chamo esta iteração primária de o Motor de Épocas — e eu quero que você seja a sua piloto."

Com um zumbido baixo, o mech estendeu uma pequena plataforma até o chão. Quando Kotori pisou nela, grampos se fixaram aos seus sapatos. Ela foi puxada para cima e para cima, o ar assobiando ao redor de suas orelhas, e depositada no assento do piloto. A escotilha transparente se selou ao redor dela sem fazer barulho.

De repente, Katsumasa era apenas uma figura minúscula em seu visor, um ponto pálido contra um fundo escuro. Ela poderia esmagá-lo debaixo de um pé gigante de metal.

Kotori recostou-se. Uma faixa envolveu sua cabeça, fria e gelatinosa contra sua pele. Ela murmurou suas checagens de rotina — liberação de emergência, portais de mensagens, encantamentos do sistema, status de energia, cintos de segurança. A configuração era um pouco diferente, mas os controles eram essencialmente os mesmos.

A interface ativou.

Ela não estava mais aparafusada em um cockpit apertado e escuro. Ela estava suspensa no espaço. Seu corpo era grande, muito maior do que ela jamais conheceu. Seu torso era uma parede impenetrável. Seus braços enrolavam-se nas laterais, prontos para perfurar uma parede de concreto ao comando mais sutil. Suas pernas de aço zumbiam com energia armazenada.

Todos os seus sentidos rugiram. Ela podia ouvir dois cientistas no prédio ao lado sussurrando sobre um trabalho de pesquisa vazado. Ela podia sentir as vibrações de um roedor correndo pelas paredes. Ela podia cheirar algo vagamente acre e químico como amônia, escorrendo dos poros de Katsumasa.

E a sua visão — ela nunca tinha experimentado nada assim. O véu de oclusão ao redor da câmara tinha se tornado uma mortalha transparente. As paredes eram papel vegetal. Ela pensou que, se tentasse o suficiente, poderia até ver através da pele de seu professor, dentro de seus próprios ossos.

Kotori ergueu seu braço direito. Um punho estriado empurrou em direção ao teto abobadado. Ela balançou os dedos dos pés, e eles responderam instantaneamente, batendo ruidosamente contra o chão. Ela tinha incorporado os mechs anteriores, mas sempre tinha sido desajeitado, cheio de erros de comunicação e tempo de atraso e náusea de embrulhar o estômago. Como Katsumasa alcançou tal sincronização perfeita?

Kotori afundou mais, abrindo mão de sua forma original inteiramente. Havia algo tremeluzindo por baixo — algo escuro, vigoroso, atraente.

Ela ouviu Katsumasa chamando de muito longe: "Cuidado — aborte se algo não estiver certo —"

Um ataque de emoções colidiu com ela: onda após onda de elação, curiosidade, nervosismo, raiva, terror, irradiando a partir de um único ponto como um pulsar.

Ela estava caindo de cabeça para baixo.

Shorikai.

[Shorikai, o Motor do Gênesis | Arte por: Wisnu Tan

A voz não era dela. Ela nem sequer tinha certeza se era uma voz — mais como um dedo, pressionando um nome na mente dela, gentil e frio.

Ela desconectou.

Saiu ofegante, num suor gélido.

Assento. Visor. Corpo de carne e osso. Katsumasa, gesticulando para ela de baixo. Ela puxou a faixa com força.

Alguns minutos depois, ela desceu do mech. Apenas algumas gotas de suor traíram a sua compostura quebrada. Os olhos de Katsumasa estavam brilhando.

"Não foi espantoso? Controle perfeito, tempos de reação quase nulos, fluxos de energia poderosos —"

"Algo pareceu diferente, professor —"

"Pelo inferno cinzento e pedregoso, às vezes eu gostaria de ser um piloto~"

"Professor, qual é a nova tecnologia na máquina?"

"Um golpe de meu próprio gênio, é isso. Oh, Kotori, eu acho que você se adaptou ao Motor de Épocas como um peixe à água. Juntos, vocês serão o pináculo da minha pesquisa de vida. Eu quero você em treinamento todos os dias. Pratique tanto quanto você respira. Eu espero que você esteja pronta para combate até o final do mês, entende?"


O amanhecer era o momento favorito de Kotori para visitar o centro de Otawara. Ela havia escolhido uma cafeteria nos níveis superiores da cidade flutuante. De seu estande ao lado da janela, ela tinha uma vista de tirar o fôlego de espirais e prédios curvos se erguendo de um mar de névoa, em chamas com luz rosada. Uma brisa fria entrava pelo telhado aberto, trazendo o cheiro da chuva.

Kotori bebeu seu café amargo e examinou sub-repticiamente os outros clientes. Os três povo-da-lua de meia-idade em robes luxuosos de folhas de ouro, compartilhando café e biscoitos, não pareciam muito suspeitos. Mas a figura vestida de preto sentada no canto oposto poderia muito bem ser um Moldador de Véus — espiões profissionais cujo trabalho era garantir que os segredos Futuristas nunca caíssem nas mãos erradas.

Ela havia tomado o caminho mais longo de seu apartamento, caminhando pelo canal na semi-escuridão até uma estação de transporte diferente da usual, desviando pelo saguão central para perder quaisquer rastreadores nas multidões que se aglomeravam. Desde que ela começou a trabalhar com o Motor de Épocas, ela tinha notado mais vigilância ao seu redor. Alguém estava de olho. Ela se perguntava se era um cientista rival, ou o próprio Katsumasa.

Ela disse a si mesma para não se perguntar muito.

Uma figura esbelta deslizou para dentro do estande. Kotori se assustou, não reconhecendo sua velha amiga no início — até que Arima puxou seu capuz para trás e desativou sua máscara ilusória. As falsas feições deslizaram para o lado para revelar vívidos olhos negros, pele morena, um sorriso irônico.

"Desculpe por ser excessivamente dramática," disse Arima. "Algumas ameaças de morte a mais que o normal esta semana, então estou tomando precauções sensatas."

"Ameaças de morte? Pelos rostos de Kyodai, o que está acontecendo?"

"Eu nunca os mencionei antes? Oh, eu venho recebendo deliciosas cartas de fãs desde a minha promoção há três anos. Você conhece o tipo. Pesquisadores incompetentes sem talento suficiente e muito tempo entre as orelhas, insatisfeitos com alguém nascido fora de Otawara subindo nas fileiras Futuristas." Arima folheou o menu encantado e selecionou um chá de especiarias doce e dois pratos de bolinhos fritos. "De qualquer forma, eu estou tão feliz em vê-la novamente, irmãzinha. Você está parecendo mais furtiva do que o normal. O que está acontecendo?"

Kotori envolveu suas palmas ao redor de sua xícara de café, aquecida pela familiaridade de Arima. As duas haviam se conhecido na escola, quando Arima de doze anos foi designada como parceira de Kotori de seis anos. Agora, Arima era uma das jovens cientistas mais comentadas em Otawara, e Kotori era uma estrela em ascensão entre os pilotos. Elas não se encontravam com tanta frequência, mas ainda se consideravam família.

"Katsumasa me colocou em um novo projeto," disse Kotori. "Seus designs são notáveis. Eu gostaria de poder lhe contar sobre isso, mas ainda está sob sigilo."

Arima apertou os lábios. "O que ele está pedindo a você?"

"Oh, o mesmo de antes. Ele precisa de uma boa piloto para aprender a máquina. Eu tenho treinado por longas horas. É complexo, mais difícil de entender do que a velha geração de mechs."

O garçom chegou com chá e pratos de pacotinhos crocantes e perfumados de cogumelo e cebolinha.

"Por que você ainda está trabalhando com ele, Kotori?"

"O que você quer dizer?"

Arima agarrou um bolinho e o acenou no ar. "Você sabe o que eu quero dizer. Você sabe que eu nunca idolatrei o excelente Animador do jeito que você idolatra."

"Eu não o idolatro. Ele tem me guiado desde que eu tinha treze anos, Arima. Ele tem sido generoso com seu conhecimento e tempo. Eu devo muito a ele. Além disso, não importa o que você diga, ele é um cientista talentoso. Há muito que eu posso ganhar ficando ao lado dele."

"Mas ele é tão sombrio, Kotori. Ei, você não vai comer? Eu peguei uma porção para você, também — sirva-se. Você disse que tem um longo dia pela frente. Eu apenas não gosto da forma como ele trabalha, ok? Segredos dentro de segredos, como uma caixa de origami de véus de oclusão. Algumas pessoas falam, você sabe. Algumas pessoas com as quais eu trabalho. Eles dizem que a pesquisa dele é antinatural."

"As pessoas do Império fechariam toda Otawara se soubessem o que realmente está acontecendo na maioria de nossos laboratórios —"

"Não são Imperiais falando. Eles são Futuristas, como nós."

Kotori enfiou um bolinho na boca e mastigou com raiva, o suco quente escaldando sua língua. "Até onde eu sei, Katsumasa não fez nada aético. E Arima — você me conhece há tempo suficiente. Se alguém me pedisse para fazer qualquer coisa duvidosa, eu iria embora."

"Não é que eu não confie em você, irmãzinha." Arima franziu a testa, apoiando seus cotovelos na mesa. "É apenas, bem~quando alguém destrói uma árvore lentamente, cortando uma polegada por dia, você pode não notar nada — até que você possa ver direto através da floresta."

Kotori gemeu e cobriu seu rosto com as mãos. "É muito cedo para metáforas de Jukai, minha amiga."

"Tudo bem, tudo bem." Arima riu. "Apenas mantenha a guarda alta, ok? Não faça nada que eu não faria, que tal isso?"


O sono tem sido mais difícil de conseguir, ultimamente. Às vezes, Kotori deitava na cama por horas, repassando conversas com Katsumasa, revendo suas sessões de prática com o Motor de Épocas, e rastreando seus movimentos do dia, apenas para o caso de ter perdido alguma coisa.

Arima havia deixado Otawara para uma conferência em Eiganjo, e Kotori desejava que ela pudesse escapar, também, apenas por alguns dias. As névoas da cidade flutuante pareciam estar vagando para dentro da sua mente, coagulando os seus pensamentos.

Nas piores noites, ela deixaria o seu apartamento e andaria a passos largos no ar fresco, olhando para os prédios adormecidos e as estrelas pontilhadas. O salão de treinamento ficava a quatro quarteirões de distância, acessado por um beco escondido e uma entrada protegida por alas de segurança.

O mech havia começado a responder a ela. Conforme ela se aproximava pela arena sombria, ele tiraria o seu véu e zumbiria em alerta. Quando ela colocasse a mão em sua perna fria e sussurrasse, "Olá, Shorikai," ele abriria sua escotilha e baixaria a plataforma para envolvê-la no núcleo de sua mente.

Kotori ajustou suas velhas rotinas para Shorikai. Ela murmurou suas checagens pré-combate — liberação de emergência, portais, encantamentos, energia, cintos — tocando cada painel em sequência como um marcador de sua prontidão. Ela torceu sua pulseira trançada, um presente de infância de seu avô, três vezes em seu pulso esquerdo. Ela murmurou uma prece rápida em voz baixa: guiem-nos, kami da coragem.

Ela não era supersticiosa, mas as rotinas faziam-na sentir como se o plano estivesse em ordem. E para ser o melhor piloto, tudo tinha que parecer certo em seus ossos.

[Kotori, Piloto Prodígio | Arte por: Aaron J. Riley

Quando ela enrolou a faixa ao redor de sua cabeça e afundou no corpo de Shorikai, as nuvens foram varridas de sua mente. A exaustão. A sensação esticada que vinha com anos de esforço. O medo de perder o respeito de Katsumasa, de vir em segundo lugar. De falhar. Havia apenas a sessão de treinamento, a noite atemporal, e ela mesma, expandindo silenciosamente pelas articulações lisas e carapaça espaçosa do mech.

Eles investiram e balançaram pelo salão de treinamento. Eles se moveram como uma flecha, calmos e precisos, por uma natureza morta de detalhes granulares. Às vezes, o vão entre o pensamento e a ação era tão minúsculo que Kotori não o conseguia perceber de forma alguma. Às vezes, os próprios pensamentos sumiam — ela era apenas movimento, apenas ela-mesma-em-Shorikai. A sensação a aterrorizava e a alegrava. Como seria abrir mão do controle inteiramente — entregar as rédeas à máquina e recuar para o fundo?

Kotori não tinha certeza se eram as suas percepções aguçadas, ou um novo presente estranho de Shorikai. Ela treinou neste salão por anos. Ela conhecia sua extensão e largura intimamente, todos os inchaços no chão. Mas Shorikai conseguia fazer algo com as dimensões — esticá-las e dobrá-las, para acomodar um salto mais alto, ou uma derrapagem em arco. Uma vez, eles julgaram mal uma curva e se prepararam para bater em um poste acolchoado, mas o impacto nunca veio. Outra vez, eles sentiram o chuvisco da chuva, apenas por alguns segundos, como se o teto tivesse momentaneamente deixado de existir.

Kotori sondou mais fundo nas camadas do mech, se perguntando se ela poderia ouvir mais do que um nome. Coisas vieram rodopiando em direção a ela — caracteres passando pela sua visão; uma impressão de seu corpo sendo desmontado e remontado; o horizonte neon de Towashi, ofuscado pela glória ramificada de Boseiju; um sentimento agridoce de confusão misturada e curiosidade.

"Shorikai?" ela se aventurou. "Você está aí?"

Mas não houve nenhuma outra linguagem — nada além daquela única palavra que ela tinha tomado como o seu nome.

Nestes espaços prolongados, onde o mundo era simultaneamente caótico e claro como cristal, coisas de seu próprio passado também se dissolviam nela. Katsumasa, caminhando com ela para uma cerimônia de premiação no centro de Otawara: "Kotori, eu sugiro que você pare de se associar com aquela sua amiga de infância, Arima. Confie em mim — na minha longa experiência, estranhos inevitavelmente causam problemas dentro dos enclaves dos Futuristas."

O pai dela, levando ela, uma criança trêmula, para a borda de um canal gélido e com topo de gelo: "Você deve pular dentro, Kotori. É assim que se aprende a nadar."

E então uma visão de forma alguma do seu passado. Katsumasa, debruçado sobre uma mesa em seu laboratório, drones de origami em espiral ao redor de seu corpo. A própria mão dela, se erguendo atrás dele, estendendo uma faca até o lado de seu pescoço. Deslizando a lâmina sem som na sua jugular. Um jato brilhante de sangue, como confete.

Kotori desconectou, mergulhando de volta para a cadeira do cockpit, ofegante e trêmula. Ela deu a Shorikai controle demais. A partir de agora, seria melhor ela manter uma aderência mais forte na sincronização.


O piloto Moldador de Véus guiou a aeronave camuflada sobre a cidade cintilante de Towashi. Kotori-em-Shorikai permaneceu no compartimento, os pés enormes travados magneticamente ao chão. Mais cinco Moldadores de Véus e um samurai Imperial, pequenos perante o mech, sentaram-se ao longo da parede do compartimento. O samurai kitsune, com as suas orelhas pontudas e guardas de ombro de ouro em forma de leque, destacava-se entre os Moldadores de Véus, que vestiam robes escuros em camadas e máscaras ilusórias.

Kotori olhou para baixo para a paisagem urbana através dos olhos de Shorikai. A cidade parecia ter crescido desde a sua última visita. Torres caneladas em camadas e trilhos de trem elevados se espalhavam e se multiplicavam como um fungo holográfico.

A aeronave desceu em direção às ruas emaranhadas nas raízes da poderosa Boseiju. Na visão aprimorada de Kotori, o seu destino se iluminou: um prédio redondo e indefinido, quase invisível entre as pontes e torres brilhantes.

"Incomum encontrar Acertadores de Contas debaixo da árvore Boseiju," Kotori murmurou por baixo da sua respiração. Ela sentiu uma pontada de curiosidade ecoada por Shorikai. Em Towashi, as gangues subterrâneas dos Acertadores de Contas usualmente mantinham-se na cidade subterrânea.

Muitos dias atrás, Katsumasa havia considerado ela pronta para o combate e a designou para uma batida de rotina num esconderijo dos Acertadores de Contas. "Nada que você não tenha feito antes," ele havia dito. "Missão liderada por Imperiais — o samurai deles a informará. Eles querem manter as coisas discretas. Você será o suporte de poder da equipe."

A nave aterrissou abruptamente em uma superfície inclinada. Os outros saltaram para fora de uma vez, não esperando pelo mech. Os Moldadores de Véus sacaram armas dos seus cintos — espadas longas que se desdobravam do cabo, diamantes do tamanho de polegares que se expandiam em estrelas de arremesso finas como papel — e ativaram os seus robes de camuflagem. O samurai kitsune não parecia preocupado com a atenção. A luz da lua refletiu em seu capacete enquanto ele saía marchando.

Kotori nunca deixou a pressa de outras pessoas distraí-la. Eles precisavam dela mais do que ela precisava deles. Ela ativou o véu de oclusão de Shorikai, repetiu suas checagens, torceu a sua pulseira em seu pulso esquerdo, e pisou no teto inclinado.

O Distrito de Boseiju era difícil de navegar para um mech, emaranhado com raízes de árvore e pontes suspensas. Haviam alguns moradores locais andando nas ruas abaixo, alheios aos eventos que se desenrolavam. Kotori escolheu os seus passos cuidadosamente, assistindo os dados chegando nas suas telas de visualização acessórias. O seu peso posicionado erroneamente poderia colapsar a estrutura.

"Isto servirá," disse o samurai Imperial, acenando de cabeça para o mech.

Kotori pisou forte o pé direito de Shorikai para baixo, abrindo um buraco preciso pelo telhado. Vigas de madeira e telhas de barro despedaçaram-se em uma tempestade de poeira. Ela saltou para baixo primeiro, mergulhou através da escuridão, aterrissou no chão de pedra. Os outros desceram zunindo atrás dela.

Kotori olhou ao redor, usando a visão aprimorada de Shorikai para analisar o prédio sistematicamente. Algo não parecia certo. Nenhum vigia posicionado, nenhum capanga vigilante, nenhuma tecnologia de sentinela. Um prédio humilde — uma área central grande, dois quartos adjacentes menores.

Um dos quartos menores mantinha os suprimentos de comida e um par de caixotes de disruptores. O outro continha as assinaturas de calor de sete formas de vida do tamanho de humanos, agrupadas bem juntas.

"Este lugar não é de Acertador de Contas," murmurou um dos Moldadores de Véus, e Kotori percebeu que ela não era a única na equipe que tinha sido enganada.

"Você nos deu uma informação falsa?" outro retrucou para o samurai.

"Eu dei a você a informação para o trabalho," o samurai respondeu.

Uma das assinaturas de calor estava se movendo rapidamente em direção à porta —

"Sete deles," Kotori interrompeu. "Disruptores. Dali!"

A porta se abriu com estrondo. Ondas disruptoras reverberaram pelo ar, desligando os sistemas automatizados de Shorikai e desativando as capas e máscaras dos Moldadores de Véus. Uma mulher corpulenta e de cabelos grisalhos com armadura de madeira e uma espada flexível avançou pela porta. Pedras, galhos e estranhas luzes azuis rodopiavam ao redor do seu corpo como se estivessem presos em um campo gravitacional.

Uma membra da Ordem de Jukai, o grupo marginal de adoradores da natureza e anti-tecnologistas. Eles operavam de pequenas unidades descentralizadas espalhadas em células de esconderijo por toda Kamigawa — e a equipe de Kotori havia chutado um buraco bem no meio de uma.

Mais seis acólitos com armaduras de madeira explodiram pela porta. Eles eram um bando heterogêneo — dois homens mais velhos com lanças, dois jovens magricelas brandindo facas e dois orochi sibilantes, mantendo-se altos sobre as suas caudas serpentinas. Nenhum deles era ligado a kami como a mulher mais velha.

A cabeça de Kotori girou. Ela assumiu o controle manual das funções de Shorikai enquanto o mech realizava uma reinicialização rápida. Katsumasa não a havia enviado para desarmar uma gangue criminosa, mas para eliminar alguns monges Jukai. Claro, ela não tinha amor pela Ordem — era bem sabido que eles desprezavam os Futuristas Saiba como amorais, e o seu modus operandi frequentemente envolvia ataques debilitantes aos centros de pesquisa Futuristas — mas este assassinato preventivo parecia errado.

Sistemas reativados. Enquanto os Moldadores de Véus e samurais saltavam para a briga, Kotori enviou uma mensagem urgente para Otawara:

Katsumasa — Jukai, não Acertadores de Contas? Por favor, esclareça.

Ela sabia que o implante do seu professor dispararia a mensagem diretamente para o seu cérebro. Ela esperou dez segundos, depois vinte.

Sem resposta.

Um dos jovens veio na direção dela, segurando um disruptor no seu punho. Kotori-Shorikai o golpeou para longe, cortando a mão do jovem no processo. O garoto caiu de joelhos, uivando. Kotori-Shorikai bateu na cabeça dele com um dedo para deixá-lo inconsciente.

Um orochi se esgueirou por trás, tentando jogar um gancho na perna do mech. Kotori-Shorikai deu um passo para o lado e balançou a sua outra perna em um chute circular preciso. O orochi bateu na parede e depois no chão e não se moveu.

Kotori tentou novamente.

Professor! Estou confusa. Por favor, responda.

Todos os Jukai estavam caídos, exceto pela mulher corpulenta com os símbolos flutuantes de um kami ligado. O samurai Imperial tinha levado uma lâmina de lança do lado, mas não parecia criticamente ferido. Os Moldadores de Véus estavam ilesos.

A última Jukai olhou para o mech, os olhos semicerrados brilhando com nojo e fúria.

"Você não deveria existir," a mulher sibilou. "Seu criador torceu a natureza em uma monstruosidade."

A Jukai canalizou uma explosão de água gelada no mech. Kotori o protegeu e devolveu uma enxurrada de dardos. Para a sua surpresa, a mulher desviou a maioria deles com outro movimento de água; os poucos que ela perdeu caíram na sua armadura de madeira.

Kotori tinha ouvido dizer que os Jukai ligados a kami carregavam um foco em si mesmos para canalizar os poderes dos seus parceiros espirituais. Ela notou uma pedra cinzenta lisa em uma corda ao redor do pescoço da mulher. Exatamente quando uma explosão de pedras afiadas voou nela, Kotori-Shorikai deu um passo para o lado e balançou para o colar.

Dedos de aço cortaram o pescoço da Jukai enquanto se fechavam ao redor da pedra.

A mulher caiu no chão, gargarejando sangue.

Um espírito serpentino se desprendeu do corpo da Jukai. Seixos e galhos e meadas de água enrolavam-se ao redor dele em um redemoinho. Um kami de rio ou de riacho, talvez. A sua forma longa se curvou sobre a mulher caída.

Kotori-Shorikai esmagou a pedra em uma mão. O kami, entretanto, não foi afetado. Talvez o foco fosse apenas uma ligação entre kami e mortal — desnecessário agora que o mortal se fora.

Um dos Moldadores de Véus caminhou para a frente, desdobrando a sua espada longa. O kami ainda estava curvado sobre o corpo da mulher. Ele tinha uma espinha de pedras pequenas, uma juba de gotículas cintilantes e uma aura azul clara. Ele deixava marcas molhadas no chão de pedra empoeirada. Embora fosse um espírito, era material o suficiente.

Um medo repentino agitou-se através de Kotori. Estava vindo dela, de Shorikai, ou de algum outro lugar?

O Moldador de Véus pairou sobre o kami do rio e puxou a sua arma para trás para atacar.

O kami se contorceu para o lado, mas não rápido o suficiente. A lâmina rasgou através da cauda do kami, liberando uma névoa.

O Moldador de Véus recuou de novo.

O terror cresceu mais agudo, queimando a garganta de Kotori abaixo e para as suas tripas. Shorikai ergueu um braço e atirou.

O Moldador de Véus despencou no chão, um dardo de aço projetando-se de um ponto fraco na sua armadura, bem sob o seu queixo.

Kotori podia ouvir os outros Moldadores de Véus gritando, mas as vozes deles vinham de muito longe. Ela não tinha comandado Shorikai a atirar. Ela não o tinha. Ela tentou abaixar o braço, mas o mech não estava respondendo. Tudo parecia de repente destilado, afiado como vidro e em câmera lenta. O kami ferido, contorcendo-se sobre a Jukai morta. Os olhos dos Moldadores de Véus, perfurando ela. As mentiras de Katsumasa. O silêncio de Katsumasa. E Shorikai — algo sobre Shorikai que ela havia suspeitado por semanas, mas admitir a possibilidade para si mesma teria sido muito horrível.

Havia um kami dentro do mech.


"Kotori."

A voz era não familiar, mas a maneira como a boca formou o seu nome a fez pular. Uma das Moldadoras de Véus entrou no campo de visão de Kotori-Shorikai.

"Professor?"

A Moldadora de Véus inclinou a sua cabeça. A sua expressão era desconcertantemente impassível, os seus olhos vazios. O implante na sua testa piscou. Katsumasa devia estar controlando-a remotamente.

[Vigilância Universal | Arte por: Aaron J. Riley

"Kotori, eu acredito que não preciso relembrá-la. É, afinal, repetidamente enfiado em todos os pilotos durante os seus primeiros anos de treinamento. Se os sistemas de obediência de um mech estiverem funcionando mal, é o dever de um piloto anular a sincronização e assumir o controle."

Kotori fechou os seus olhos brevemente. A sincronização já estava instável. Picos de adrenalina e cortisol estavam afetando a conexão, tirando-a do corpo de Shorikai e de volta à sua própria forma dolorida, macia e minúscula — apenas por breves lapsos, antes de atirá-la de volta para o mech. A bile subiu à sua garganta. Ela lutou contra o ímpeto de vomitar.

"Kotori. Você sempre foi racional. Não comprometa a missão. Eu não poderia suportar ver as consequências na sua carreira se você fizer isso. Eu explicarei tudo depois, está bem? Você sabe que eu não faria você fazer nada de errado."

Kotori abriu os seus olhos. Ela podia ver a Moldadora de Véus possuída com os seus olhos reais e com os olhos de Shorikai, duas vezes, sobrepostos um ao outro como fantasmas desconexos. Ela poderia substituir Shorikai, mas quem sabia qual dano aquilo poderia fazer ao kami preso por dentro?

Mas a alternativa era renunciar o controle a outra pessoa.

Inesperadamente, o seu medo recuou para uma calma silenciosa. A sincronização estava estável de novo. Ela alcançou dentro de Shorikai, nos espaços sombrios que se tornaram tão familiares para ela nas últimas semanas quanto o seu próprio corpo, no núcleo do mech —

E ela se retirou, soltando.


Quando Shorikai tomou o controle, ele revelou a sua verdadeira forma para ela, apenas por um segundo. Ela viu uma aura gotejante e escura. Ela viu uma cachoeira de cabelos negros emaranhados; um corpo construído de muitas coisas mudas e inquietas; uma multidão de rostos ocos e sem olhos.

A forma de Shorikai estava presa por espigões de metal. Fios brilhantes ligavam o kami à máquina de mil maneiras diferentes, mais complicado do que um bordado intrincado. Estes eram nós que somente Katsumasa poderia desatar.

A visão a encheu de horror e tristeza, mas também de compreensão.

"Kotori!" gritou Katsumasa, mas o som foi suave, quase lamentável, desvanecendo-se para a inconsequência. O grito se perdeu à medida que Shorikai esmagou a Moldadora de Véus contra a parede. O implante morreu.

Kotori mal conseguia compreender isto. Com o controle rendido ao kami, o mech era muito mais poderoso do que tinha sido sob a sua orientação. A força de Shorikai estava dobrada. O prédio não mais parecia substancial, ou mesmo relevante. Afinal, se eles realmente precisassem, Shorikai poderia deformar as paredes e dobrar o chão.

Os Moldadores de Véus restantes correram para o mech, gritando sobre traição. Uma deles estava sinalizando por reforços. Shorikai descartou dela primeiro. Levou apenas mais alguns segundos para silenciar os outros, incluindo o samurai ferido, que implorou por misericórdia sem entusiasmo.

Pontos de luz queimaram na visão de Kotori. Ela sentiu-se desconectada do seu corpo, e então grotescamente comprimida na menor parte — as pontas dos seus dedos formigando, a sua barriga coagulando. Quando os seus sentidos gradualmente retornaram, a cena inundou a sua boca com amargura.

A sala redonda havia sido inteiramente transformada. Madeira lascada, telhas quebradas, estrelas de arremesso usadas, membros fora do lugar e estrias de sangue estavam espalhados pelo chão. Mutilados e caídos, os membros da Ordem de Jukai e da sua equipe eram difíceis de diferenciar. O kami azul ainda estava encolhido sobre o corpo de sua antiga parceira.

As paredes foram estranhamente curvadas e deformadas pelas habilidades de Shorikai — cuja extensão total que até Katsumasa provavelmente não entendia. Em um ponto, a parede se deformou tanto que ela tremulou e zumbiu com energia sobrenatural. Manchas de poeira e sangue flutuavam em direção à distorção.

O kami do rio finalmente se desenrolou e rastejou em direção à zona tremeluzente na parede. Ele parou e olhou de volta para o mech. Kotori se perguntou se alguma comunicação muda estava passando entre ele e Shorikai. Então, o kami do rio flutuou para a parede distorcida e desapareceu.

Kotori supôs que a distorção era uma fusão deformada: uma fusão instável entre o utsushiyo, o reino material, e kakuriyo, o reino espiritual. Se deixada incontida, a instabilidade poderia se espalhar e corromper a integridade de ambos os reinos.

"Shorikai," Kotori ofegou. "O que você fez?"

Para a sua surpresa, ela recebeu uma resposta. Não foi minha ação, mas talvez um efeito colateral.

A voz do kami era pesada e sinuosa. Ela lembrou das coisas que tinha visto: a aura sombria, os rostos boquiabertos, o corpo inquietante. Há apenas um momento atrás, ela tinha sentido um terror inominável. Mas agora, aquele medo estava contido, amortecido pela tristeza. Shorikai tinha se acomodado de volta à estrutura da máquina. A sincronização estava mais uma vez balanceada, responsiva. Impecável.

Katsumasa ainda estava no alto em Otawara. Ele iria descobrir sobre o resultado da missão de uma maneira ou de outra. Se ela se rendesse agora, talvez as consequências para a sua carreira não fossem tão terríveis. Talvez ela pudesse salvar a sua reputação com alguma desculpa sobre uma conexão errática.

Mas se ela voltasse, o seu mech certamente seria desmantelado, e Shorikai ou seria destruído ou aprisionado dentro de outro experimento. Por alguma razão, o rosto de Arima flutuou em sua mente. Kotori sentiu-se inundada de confusão e culpa. Ela havia matado tantos. Ela havia quase assistido a um kami morrer.

"O que agora, Shorikai?"

Algo poderoso se agitou dentro do mech, como uma maré quebrando sobre rochas. Seguir nosso próprio caminho.

Kotori olhou ao redor da sala em colapso. Uma brisa fria estava soprando através das janelas de papel rasgadas. Com a sua visão aprimorada, ela podia ver através das paredes os prédios vizinhos, brilhando como lanternas presas nos galhos gigantes e nodosos de Boseiju.

[Clareira na Selva | Arte por: Lucas Staniec

Ela sabia que fugir não era uma solução permanente. Eles podiam correr, mas no fim da corrida, haveria uma luta. Um acerto de contas, com consequências. Mas pelo menos eles teriam tempo para pensar sobre tudo o que tinha acontecido, caçar por mais informações, e decidir o que fazer a seguir.

A união das suas vontades — mortal e kami — parecia tão sem esforço como a água fluindo rio abaixo.

"Eu concordo," ela respondeu.

Nuvens de sangue e poeira rodopiaram ao redor de Kotori-Shorikai enquanto eles passavam pela fusão deformada. A porta de madeira desmoronou com o toque deles. Do lado de fora, os primeiros traços pálidos do amanhecer estavam se esgueirando através do dossel maciço de Boseiju, mas sombras perpétuas jaziam debaixo das grandes raízes das árvores.

Ativando o seu véu de oclusão, Kotori-Shorikai deixou o esconderijo Jukai e caminhou para dentro da escuridão.

09/02/2022 | Por Abbey Mei Otis

Os Inimigos que nos Moldam

EIGANJO. JARDINS DO TEMPLO

Dez minutos antes do ataque

"Heiko, espere ." Norika coloca cada onça de autoridade que consegue reunir em sua voz de dez anos de idade e, como sempre, não tem efeito nenhum em sua prima.

À frente, Heiko empurra as vinhas do caramanchão para ver a casa de chá descendo o caminho. Durante a última semana, peregrinos visitando Eiganjo para peticionar à imperatriz sussurraram sobre uma aparição no jardim de chá. Um brilho no ar que devora pássaros em pleno voo. É o começo de uma fusão, preveem os peregrinos. Uma abertura para o reino espiritual.

Heiko, de apenas oito anos, não tem permissão para sair do complexo da família, e nenhuma das duas tem permissão para se aventurar por todo o caminho até o distrito dos jardins, mas Heiko tem um jeito de convencer Norika a entrar em aventuras. E embora Norika entenda bem suas responsabilidades como a prima mais velha, a filha mais velha da casa Yamazaki, quanto mais Heiko a irrita, mais ela tem que admitir—ela também quer ver a fusão.

Então agora ela se encontra, como de costume, tentando impedir Heiko de ir longe demais.

Heiko abaixa uma mão e bate as costas de dois dedos contra o lado da perna. O sinal secreto delas para Você precisa se acalmar . Ambas têm muita prática em dar, e ignorar, esse sinal.

Norika não se acalma. "Heiko volte aqui agora"—mas ela para porque algo estranho perto da casa de chá. Um vislumbre no ar, como o jogo de luz na água. E—está ficando maior?

Um galho estala, e Norika percebe que Heiko rastejou pelo caramanchão. O rasgo de luz se estende mais largo do que a envergadura de seus braços e brilha em um branco incandescente. Olhando para cima, Heiko dá outro sinal. O dedo do pé direito casualmente bate no calcanhar do esquerdo. Apenas deixe rolar.

Ela dá um passo em direção à fusão, uma mão estendida. O rasgo treme e se alarga. Algo está forçando passagem pela fenda. Uma figura com o dobro do tamanho de um humano, envolta em vestes fantasmagóricas. Uma espada sobressai de seu estômago, o cabo enterrado em suas costas. Não tem rosto, apenas um redemoinho de vapor escuro que se estende em direção às meninas. Heiko encara, transfixada.

[Aquele que Não Perdoa | Arte por: Fariba Khamseh

O vapor condensa, espirala, torna-se um vórtice de sombra. O kami mergulha para frente, direcionando o vórtice para Heiko.

Norika vê o kami mergulhar e, sem pensar, atira-se à frente para empurrar sua prima do caminho do túnel de escuridão. Ela salta, mas nunca aterrissa. Em vez disso, ela é suspensa dentro de um feixe de dor—sem pensamento, sem músculos, sem pele, sem osso—e então ele passa voando. A dor é arrancada de todos os espaços entre suas células. De agora em diante, ela estará cheia de lacunas, cem mil cortes de papel que nunca cicatrizam.

Sem ver, ela sente a si mesma bater no chão.


SOKENZANSHI. CENTRO DA CIDADE

Dez anos após o ataque

O vento assobia pelo beco, e Heiko xinga em voz alta enquanto o frio penetra em sua jaqueta. Ela achou que estava preparada para o inverno, mas ela está percebendo agora que inverno significa uma coisa nos jardins de Eiganjo, e algo inteiramente diferente na montanhosa Sokenzanshi.

Parte dela saboreia o frio. Bem feito por vir sozinha a esta cidade onde não conhece ninguém e nada. Bem feito por fugir de sua família no momento em que seu décimo oitavo aniversário chegou. Mas ela não poderia ter ficado em Eiganjo um minuto a mais do que teve que ficar. Não suportava a forma como seus pais pronunciavam seu nome como uma marca de vergonha. Não suportava seus parentes culpando-a pelos ferimentos de Norika.

Mas o pior de tudo, por muito tempo, Heiko não suportou encontrar os olhos de Norika. Toda vez que olhava para sua prima, via o corpo imóvel de Norika deitado na cama de hospital, como ficara por nove meses após o ataque do kami. Mesmo que Norika estivesse ficando mais forte a cada dia, aprendendo a usar a neuroprótese dada a ela pelos médicos imperiais, estudando para o exame de admissão dos samurais imperiais, fazendo todas as coisas que sua família temia que ela tivesse perdido. No momento em que Heiko encontrou a coragem para procurar sua prima, Norika tinha se tornado distante, preocupada com o treinamento e novos amigos cadetes. E Heiko, tão acostumada a estar na frente, encontrou a si mesma deixada para trás.

Então agora ela caminha pelas ruas geladas de uma cidade estranha, sem sequer tecnologia repelente de vento suficiente embutida em suas roupas. E ela só pode saborear o frio pela metade, porque também, ela está faminta .

[Sokenzan, Crisol da Rebeldia | Arte por: Lucas Staniec

Dobrando uma esquina, ela encontra a rua apinhada de pessoas, agasalhadas com o que parece ser todas as suas roupas ao mesmo tempo. Elas formam uma fila sinuosa e esfarrapada até um enorme fogo de cozinha armado no meio da rua. Duas pessoas servem sopa de arroz com conchas de um caldeirão tão alto quanto suas cinturas.

As pessoas lembram a Heiko as filas de peregrinos buscando uma audiência com a imperatriz, de volta à época antes de ela desaparecer. Mas aqueles peregrinos sempre pareciam sombrios e exaustos, enquanto o clima aqui é caloroso apesar do frio. As pessoas sorriem umas para as outras na fila, e crianças disparam por entre as pernas dos adultos.

Heiko contorna a multidão, procurando algum lugar para comprar uma refeição. Ela está quase passando pelos servidores no caldeirão quando um deles a chama.

"Se você quer comida, você tem que esperar na fila!"

Ela fica nervosa. "O quê?"

O servidor balança a cabeça. "Não há nada que eu odeie mais do que alguém que fura fila."

"Oh não—eu não preciso—disso," ela se cala.

O servidor a olha de cima a baixo. "Você com certeza parece que precisa disso."

"Eu quero dizer—outras pessoas precisam mais. Eu tenho dinheiro. Estou apenas aqui procurando pelos Insurgentes."

O servidor levanta uma sobrancelha. "Procurando pelos Insurgentes, mas boa demais para comer nossa comida?"

Outra rajada de vento arrebata a compostura restante de Heiko. "Oh, eu não quis dizer—vocês?"

O servidor faz uma pequena reverência. "Você esperava que todos nós fôssemos lutadores?"

Eles têm um rosto redondo e olhos astutos. Acima de suas cabeças, as sombras de três bules de cabo comprido orbitam preguiçosamente no ar. Heiko está tentando formular uma resposta quando três mechs imperiais aparecem na outra extremidade do quarteirão.

"Esta é uma assembleia não autorizada," suas vozes amplificadas soam. "Esta rua deve estar acessível a veículos."

Eles avançam, forçando as pessoas para fora da fila de sopa e para cima das calçadas. O servidor acena com sua concha e chama a multidão, "Fiquem calmos! Nós vamos nos mudar! Ninguém precisa"—

Mas eles são interrompidos pelos mechs, que se erguem sobre o caldeirão de sopa, suas armaduras estalando no vento. O mech líder cospe um ingresso brilhante de uma fenda em seu peito. "Distribuição de alimentos não autorizada. Para contestar isso, por favor, reporte-se ao depósito imperial em"—

SPLAT. Uma bola de neve atinge o mech na parte de trás de seu capacete. Lama escorre pela armadura de escamas brancas. O mech gira, e Heiko percebe que atrás dele, muitas das pessoas na fila não estão mais agasalhadas em trapos de inverno. Sob suas roupas volumosas, elas revelaram exoesqueletos esmaltados, customizados e feitos à mão, com rachaduras brilhantes correndo através das placas de cerâmica.

O mech dá um passo em direção a eles, cuspindo ingressos. "Posse não autorizada de aprimoramentos tecnológicos. Para contestar, por favor, reporte-se"—

SPLAT. Outra bola de neve o atinge, desta vez da direção oposta.

Heiko pressiona a palma da mão contra o rosto, tentando aliviar a ardência da bola de gelo que ela acabou de jogar.

"Hum, eu correria." A voz do servidor é quieta; seus bules giram muito perto de sua cabeça. "Agora ." Heiko corre.


Ela gasta o que parecem horas se esquivando entre edifícios, disparando entre as paredes quentes de forjas de arsenal até que ela não ouve mais o barulho dos mechs a seguindo. Apenas quando ela tem certeza de que os despistou é que ela arrasta sua forma molhada, trêmula e faminta através da porta do primeiro café que encontra.

O interior está escuro com vapor e respiração. Canos nas paredes retêm a água aquecida pela forja, levando calor através dos cômodos. Pessoas conversam sobre mesas baixas com visores de luz se erguendo entre elas. Menus brilhantes e boletins de notícias deslizam pelas paredes.

Piscando para ajustar os olhos, Heiko move-se para o balcão dos fundos. Um servidor está embrulhando rolinhos de alga marinha e deixando-os cair em uma panela. Enquanto eles trabalham, três bules de cabo comprido pairam acima da panela e derramam água fervente um por vez. Heiko engasga, "Você de novo?"

Os olhos astutos do servidor se enrugam. "Você deve ser boa em correr."

"Eu tenho prática."

O rosto do servidor se abre em um sorriso. "Mais cedo, eu disse que você parecia que precisava de uma refeição, mas agora você realmente parece que precisa disso."

Heiko não protesta. Empoleirada em um banco de balcão, ela inala uma tigela de caldo fumegante e rolinhos de alga marinha, moedas de ouro de gordura cintilando na superfície. Enquanto come, ela tenta se explicar. "Obrigada. Me desculpe. Eu vim sem um plano. Eu só sei—é suposto eu encontrar Risona."

O servidor ri. "Todo mundo quer encontrar Risona. O que faz você especial?"

"Nada, eu apenas"—

"Você não acha que é especial?"

"Não, mas"—

"Estou provocando. Você está indo muito bem. Sou Chiye." Eles saúdam com sua concha. "E se você se virar"—eles gesticulam atrás dela—"aquela é Risona."

No canto mais escuro da loja, uma figura senta-se envolta em um manto volumoso. Quando Heiko se vira, a figura se levanta e empurra para trás seu capuz. Risona é alta e grave, com cordões vermelhos enrolados através de seu cabelo e linhas ao redor de seus olhos. Quando ela fala, sua voz é calorosa, mas severa. "Jogar aquela bola de neve foi uma coisa estúpida de se fazer."

Com comida nela, Heiko tem a força para ser indignada. "As pessoas sempre dizem isso como se isso fosse me parar."

Risona ri, sombriamente. "Você deve ser uma criança rica, pequena e mole, se as pessoas só tentam parar você com palavras."

Heiko quer dizer algo cortante em resposta, mas uma voz em sua cabeça sussurra, Espere . Ela engole sua réplica e decide tentar a honestidade. "Minha família serve ao Conselho Imperial. Mas eu não sou mais uma deles. Eu não posso ser. Eu preciso de um recomeço." Ela olha nos olhos de Risona. "Estou esperando encontrar isso com pessoas que acreditam em justiça."

Ela acha—espera—que vê a expressão sombria de Risona temperada por um lampejo de generosidade.

"Você tem um bom braço. Você é rápida em seus pés. Nenhum controle de impulso, mas"—

"Eu tenho algum controle de impulso!"

Risona suspira. "Mas , Chiye aqui diz que vai patrocinar você."

Chiye intervém, "Eu tenho um pressentimento."

Risona se inclina para perto de Heiko. "Esta não é uma vida fácil. A cada estação, os imperiais insistem que vai melhorar. Mas a cada estação, recai sobre nós mantermos uns aos outros vivos. É isso realmente o que você quer?"

Heiko sente um calor no fundo de sua barriga. Talvez seja da sopa fumegante. Talvez seja a satisfação de assistir a bola de neve atingir o mech. Talvez seja o calor do sorriso de Chiye, que ela pode sentir mesmo com as costas viradas. Ela encontra os olhos de Risona. "Sim."


EIGANJO. CORTE IMPERIAL

Doze anos após o ataque

Norika senta-se na cadeira médica, respirando profundamente enquanto pequenas agulhas disparam sobre seu corpo e picam sua pele. Seus braços, pernas e costas estão cobertos com intrincados designs turquesa. De longe, parecem tatuagens, mas de perto, têm mais dimensionalidade: aprimoramentos aplicados em sua pele.

Após o kami desconhecido passar por ela, ela ficou paralisada por semanas, devastada pela dor. Ninguém sabia como ou quando ela se recuperaria. Então, os imperiais ofereceram uma neuroprótese recém-aprovada à sua família e, ao longo de nove meses, as próteses cresceram nela como líquen. Quando as drogas finalmente passaram e ela se sentou, sentiu-se eufórica. A dor não era mais um monstro que a sacudia entre os dentes, mas uma companhia a ser cuidada.

Ao longo dos anos, ela deixa a dor ensiná-la sobre paciência e descanso. Ela aprende a valorizar a quietude tanto quanto a ação. Ela treina quando pode e, quando não pode, lê história, poesia, botânica. Ela aprende a cuidar de si mesma e tenta não pensar muito na prima mais nova de quem um dia cuidou como sua própria sombra. Quando seus surtos se tornam frequentes demais, ela retorna aos médicos para atualizar seus aprimoramentos.

No início, seus professores na academia não sabiam o que fazer com essa aluna que cita os épicos como uma velha erudita e se ausenta por semanas a fio. Ela os conquista com sua disposição para ouvir e ver problemas de novos ângulos. Após a formatura, ela é aceita como assessora da conselheira imperial Naomi. Então o imperador desaparece. À medida que a influência de Naomi cresce, também crescem as responsabilidades de Norika. Ela se torna a principal controladora da fusão em Eiganjo, a mesma que um dia vomitou o kami que a atacou. Ela tem mantido esta posição pelos últimos quatro anos.

Hoje, enquanto as máquinas médicas trabalham em suas atualizações, Norika contempla sua conversa mais recente com Naomi. Uma semana atrás, sua mentora a convocou para a sala de estratégia, onde um mapa topográfico do reino foi sobreposto com hologramas de trens em movimento, mechs voadores, portões de fusão cintilantes. Quando Norika entrou, Naomi direcionou sua atenção para o sul do mapa. "O problema dos bandidos em Sokenzanshi saiu do controle. Preciso que você assuma o comando lá."

[Naomi, Pilar da Ordem | Arte por: Joshua Raphael

"Sokenzanshi?" Algo apertou no estômago de Norika.

"Eu sei, é longe. E frio. E não será um trabalho glamoroso." Naomi fez uma pausa. "Mas eu acho que uma mudança é importante. Não deve ser fácil, servir neste portão, dado o seu histórico."

Norika começou a protestar, mas parou. Sua mentora era talentosa em dizer as verdades que os outros tentavam evitar. Norika estava cansada de Eiganjo. Ela estava pronta para uma mudança.

No presente, a máquina bipa para notificá-la de que suas atualizações estão completas. Norika se senta. Seu corpo se sente revigorado, mas o aperto em seu estômago persiste. Não é que o trabalho será frio e sem glamour; Norika dá boas-vindas a um desafio. Mas ela sente que algo a espera em Sokenzanshi, um acerto de contas que ela ainda não consegue nomear.


SOKENZANSHI. DISTRITO DOS ARMAZÉNS

Doze anos, seis meses após o ataque

Já passa da meia-noite, e Heiko e Chiye estão roubando um trem. Algum dia, Heiko imagina, elas poderiam passar um tipo diferente de noite juntas. Observar as pessoas durante o jantar num restaurante, ou se vestir para ver uma peça. Mas quando Chiye ouviu os rumores sobre os vagões imperiais trancados e cheios de provisões no pátio ferroviário nos arredores da cidade, elas não conseguiram pensar em mais nada. E assim esta noite, como tantas de suas noites, é passada em armaduras leves e mantos escuros, vigiando as esquinas, mantendo-se nas sombras enquanto correm.

A lua está escondida, e o pátio ferroviário está silencioso. O vagão de carga está protegido com apenas um cadeado enferrujado. Os bules de Chiye disparam jatos concentrados de vapor no fecho do cadeado, e o mecanismo se estilhaça.

Chiye franze a testa. "Isso foi fácil demais."

"Ou, foi a aplicação perfeita de suas habilidades únicas?"

Chiye revira os olhos. "Foi fácil demais."

Elas abrem a porta deslizante. O vagão do trem está lotado com provisões suficientes para centenas de pessoas. Mal há espaço para andar entre os paletes de arroz, os alqueires de farinha e cevada, as caixas marcadas com peixe conservado e vegetais.

Heiko treme de desgosto. "Como se atrevem a acumular isso. Quando pessoas estão procurando comida em pilhas de lixo para seus filhos?"

Chiye a toca levemente no braço. "Discursos depois. Vamos nos mover rápido. Ouvi dizer que uma nova administradora acabou de chegar, realmente pegando pesado." Elas içam uma caixa pela porta do vagão e para o carrinho flutuante que trouxeram consigo.

Heiko pula ao lado delas e levanta um palete. "A administradora deveria nos agradecer, na verdade. Toda essa comida simplesmente aconteceu de ser esquecida, e nós acontecemos de estar no lugar certo para devolvê-la aos seus donos de direito: o povo faminto de Sokenzanshi."

Uma voz atrás delas zomba: "Cidadãs tão dedicadas do reino." Há outro toque leve no braço de Heiko, mas desta vez não é Chiye. É um par de algemas automáticas, prendendo seus pulsos nas costas antes que ela possa alcançar sua espada. Os pulsos de Chiye também estão amarrados. Dois executores imperiais os puxam para fora do vagão e os jogam no chão, inclinando-se para sibilar: "A comandante deseja entregar seus agradecimentos pessoalmente."

A terra fria rala a bochecha de Heiko. Os bules em volta da cabeça de Chiye assobiam um grito constante e ensurdecedor. Através do barulho, Heiko ouve passos leves e precisos e o clique de armadura aprimorada. Os executores dão um salto em uma saudação. "Comandante!"

Heiko sente a nova presença inspecionando ambas. Uma voz matizada diz: "Não achei que as temidas bandidas de Sokenzanshi seriam tão~indiscretas."

Chiye cospe: "Não sou bandido, sou cozinheiro."

A comandante responde com ironia. "Ouvi dizer que nesta cidade, uma pessoa pode ser ambas."

Algo em seu tom causa uma pontada na parte de trás da mente de Heiko.

Os executores agarram os ombros de Heiko e de Chiye e os puxam para cima. A comandante paira sobre elas em uma armadura branca com bordas de ouro. Seu capacete se assemelha a painéis de origami, intrincadamente dobrados sobre seu rosto e varrendo para trás em leques gêmeos.

À visão de seus rostos desgrenhados, a comandante recua. Sua mão blindada voa para o cabo de sua espada, solta-o, paira sobre o pomo. Quando ela fala, sua voz tornou-se frágil. "O que vocês estão fazendo aqui?"

Heiko está envergonhada por ter permitido que Chiye fosse capturada, mas a pergunta invoca de volta sua indignação. "O que estamos fazendo aqui? O que você está fazendo aqui, usando comida para mil pessoas como uma armadilha ? O que você está fazendo aqui, nesta cidade onde ninguém quer você?" Ela avança de lado, bate no chão novamente e luta para ficar de pé, ainda gritando: "Eu espero que todos vocês morram de fome, apenas para que vocês possam saber"—

E então ela para, porque a pontada em seu cérebro voltou. Ele puxa sua atenção para a mão esquerda da comandante. Quase imperceptivelmente, a comandante está batendo as costas de dois dedos contra sua perna blindada.

Você precisa se acalmar.

O pensamento que Heiko não consegue pensar floresce então em uma cachoeira de perguntas caindo uma após a outra. Não pode ser Norika. Não pode ser. Os Insurgentes incutiram controle suficiente nela para que seu rosto não mostre nada, mas sua respiração muda o suficiente para que Chiye olhe bruscamente para ela.

Heiko se recompõe da melhor forma que pode com os braços amarrados nas costas. "Pensando bem, eu decidi me tornar uma prisioneira modelo." Ela abre um sorriso para os executores. "Obrigada por seu serviço ao reino."

Os executores zombam, mas a comandante interrompe. "Preciso interrogar esses prisioneiros sozinha. Deixem-nos." Os executores hesitam apenas o tempo suficiente para a comandante latir, "Agora!" e então se afastam pelos trilhos do trem.

Quando eles se vão, a comandante abaixa a cabeça e remove seu capacete. Mesmo na escuridão, os olhos de Norika são exatamente como Heiko se lembra deles, embora agora eles olhem de um rosto de adulta. Norika encontra o olhar dela, e por um segundo, Heiko é lançada de volta à imagem de sua prima imóvel na cama de hospital. Novamente, sua respiração engata em sua garganta. Perto dela, ela pode sentir Chiye trabalhando para reunir informações. Em resposta à pergunta silenciosa, Heiko diz: "Esta é minha prima, Norika Yamazaki. Nós fomos crianças juntas." Ela espera que Chiye possa ouvir todas as coisas não ditas que entram nessas últimas quatro palavras.

Chiye fica em silêncio por um longo momento. Então: "Então, deduzo que a teimosia é de família."

Norika ri. Ela desenha um glifo no ar, e as algemas se abrem.

Heiko se levanta e ajuda Chiye a se levantar. Ela olha para todos os lugares menos para o rosto de sua prima—para sua armadura, suas botas, sua espada reluzente, não ensanguentada. "Parece que você conseguiu tudo o que queria."

"Não totalmente." A voz de Norika soa quase alegre. "Eu teria escolhido um local melhor para uma reunião."

A sensação volta rapidamente para as mãos de Heiko e, com ela, sua raiva retorna. Como Norika se atreve a rir? "Eu não estava brincando, sabe. Perguntando por que você está aqui, quando as pessoas estão morrendo de fome"—

"Eu sei." Norika a corta. "Você está certa. Eu não quero que mais ninguém morra. Estou aqui para consertar isso. E quando eu vi você, eu percebi—Heiko, esta é uma oportunidade."

A transição suave de Norika para a diplomacia enche Heiko de mais raiva. "Não sou uma colaboradora ." A palavra corta a noite silenciosa.

A expressão de Norika se endurece. "Nós crescemos em uma família imperial."

"Sim, e eu fui embora."

"E agora você está agindo como uma criança."

"Na verdade, ela está agindo como uma Insurgente," Chiye interrompe. "Talvez você tenha ouvido falar? Os Insurgentes aceitam a todos. Não importa quão~desagradáveis sejam suas origens."

Norika sorri ironicamente. "Oh, ouvi muito sobre os Insurgentes."

Heiko sente náusea. É por isso que ela partiu. Nada poderia ser fácil entre elas. Cada palavra dita só faz as coisas se desfazerem mais rápido. Ela se volta para Norika. "Somos suas prisioneiras?"

Norika se afasta. "Eu nunca faria isso com você."

"Que presente." Heiko cospe. "Vamos embora."

"Heiko, não se afaste de mim." Norika soa desesperada. "Não desta vez."

"Você não tem o direito de me comandar."

"Estou te pedindo. Por favor. Heiko, espere ."

Esta frase faz Heiko congelar. Dói. E dói admitir que dói. A maneira como essas palavras ecoam através dos anos. Heiko respira fundo e se vira para Chiye.

"Você deveria ir. Encontre Risona. Diga a ela que é uma armadilha. Diga a ela que estou bem."

Chiye agarra seus ombros. "De jeito nenhum eu vou te deixar sozinha com uma comandante imperial. Não me importa de quem ela é prima."

Heiko segura o rosto de Chiye. "E é por isso que eu te amo, mas por favor, confie em mim."

"É por isso que você o quê?"

"Eu quero dizer—você precisa sair agora."

"Diga de novo."

"Eu te amo, agora saia daqui ."

Chiye caminha devagar até ficar a um centímetro do rosto de Norika. "Você ouviu? Aquela pessoa ali acabou de dizer que me ama. Agora, eu não contei a ela ainda, mas eu também a amo. E se você machucar um fio de cabelo na cabeça dela, você vê esses bules? O vapor deles pode derreter a carne de um rosto humano em um segundo e meio. Você entende?"

No lado mais distante dos trilhos, eles mandam um beijo para Heiko, depois desaparecem nas sombras.

Norika olha de volta para Heiko. "Você realmente é uma deles agora."

Heiko não consegue evitar a amargura em sua voz. "Minha verdadeira família não me quis."

A boca de Norika se curva. "A maioria das pessoas se rebela contra suas famílias, mas eles não se rebelam contra todo o reino."

"Você não ligava para como eu me sentia então, e você não tem que ligar agora."

Norika fecha a distância entre elas e agarra a camisa de Heiko. "Não se atreva a dizer que eu não ligo para você. Não se atreva."

O coração de Heiko bate forte. Ela vê lágrimas na beira dos olhos de Norika. Ela murmura: "Eu não disse—eu não quis dizer isso."

Norika a solta. Ela enxuga os olhos o mais rápido que pode. "Você ainda sabe como me atingir."

Os olhos de Heiko se estreitam. "Você sabia que eu estava aqui, não sabia? Foi por isso que você aceitou essa posição. Você achou que eu poderia te ajudar."

Agora Norika abaixa os olhos. "Eu não sabia com certeza. Eu tinha um pressentimento. E meus pressentimentos estão quase sempre corretos."

Heiko recua. "Ouço histórias sobre você. Sua ambição. A poeta-guerreira do reino. Sou apenas mais um degrau em sua ascensão ao poder?"

[Norika Yamazaki, a Poeta | Arte por: Magali Villeneuve

"E quanto a você? Você faria sua família escolhida passar fome por orgulho? Para me irritar?"

"Você é igualzinha à nossa família. Você acha que eu devo passar minha vida inteira em dívida com você por causa do acidente, sem ter como escapar dele."

Seus rostos estão a centímetros de distância. Norika fala de forma gélida. "Se isso é verdade, é como se eu tivesse que passar minha vida inteira lembrando daquele momento, em cada nervo do meu corpo. Eu também não consigo escapar."

Diante de suas palavras, Heiko sente uma pontada de dor que não consegue suportar, então a transmuta de volta em raiva. "Me larga." Ela empurra Norika para passar, mas sua prima a bloqueia de novo, desta vez com a espada barrando o peito de Heiko. O brilho do aço faz Heiko rosnar e desembainhar sua espada. Norika gira e salta em seu caminho uma terceira vez, e Heiko ataca para valer, chamas ondulando ao longo de sua lâmina. Sua raiva a deixa selvagem, e ela pula para a garganta de Norika.

Mas Norika, com forma perfeita, finta, desengaja e joga Heiko longe com um golpe. Heiko cai com força, a maçã do rosto batendo no trilho do trem. Ela sente o gosto de ferro. Ela sente o sangue escorrer pelo seu rosto.

Norika salta sobre ela, pressionando a espada contra a garganta de Heiko. "Sua idiota." Ela está ofegante. "Eu não vim aqui para fazer você pagar. Vim aqui para te perdoar."

A pressão da lâmina desaparece, e a espada cai com barulho nos trilhos. Norika se levanta, e Heiko se levanta desajeitadamente agachando-se. Ela mantém sua expressão rígida como uma máscara. Se falar, ela vai chorar.

Norika recua, as mãos espalmadas ao lado do corpo. "Prima. Deixe a culpa ir."

"Eu não sou"—Heiko engasga—"não sou quem eu era."

Norika balança a cabeça. "Nenhuma de nós é. Mas me dê uma chance, Heiko."

Heiko resiste. "Isso não é um jogo. Você conhece isso como números em livros contábeis, modelos que você empurra em um mapa, mas há todo um mundo aqui que você não entende."

"Então me mostre?" Norika se inclina, olhos ainda em Heiko, pega sua espada, guarda-a na bainha. "Me mostre Sokenzanshi?" Sua voz fria e equilibrada é moldada por anos de treinamento diplomático.

Heiko não consegue deixar de imaginar a possibilidade que ela propõe. Uma cidade com comida suficiente para todos. Um inverno onde ninguém morre. Mas então a visão se apaga. "Eu não posso andar por aqui com você." Heiko faz uma pausa. É mais fácil pensar no problema em questão do que compreender as marés maiores mudando dentro dela. "Mantenha sua espada desembainhada. Aja como se eu fosse sua prisioneira."

Norika parece cética. "Se eu fosse uma Insurgente, olhando pela janela, e visse uma Imperial segurando minha amada Heiko sob a ponta da espada, eu atiraria um projétil por aquela janela."

"Isso poderia acontecer com você de qualquer jeito."

"Então talvez ambas assumamos um risco?"

É a vez de Heiko parecer cética. "Você nunca assume riscos."

O sorriso irônico de Norika retorna. "Pode te surpreender, prima, mas eu também mudei nos últimos doze anos."

Elas deixam o pátio ferroviário e caminham juntas para o coração da cidade. As ruas estão quietas. Heiko sabe que elas estão sendo observadas. Seu coração salta—Risona poderia expulsá-la por isso. Chiye poderia ir embora. Sua segunda família poderia rejeitá-la tão facilmente quanto a primeira.

Elas passam por quarteirões de edifícios de madeira compactamente construídos. Lavanderia está pendurada em varandas e botas de neve enfileiram-se nas portas. Heiko aponta para eles. "Estes apartamentos abrigam fazendeiros que perderam suas terras. Famílias sem casas. Os Insurgentes os mantêm aquecidos, gerenciam água e energia. Ali é o refeitório onde servimos o café da manhã. Subindo aquela colina há uma escola que estamos administrando para os filhos das famílias deslocadas." Para que eles possam aprender mais do que a propaganda Imperial , ela se impede de dizer.

Heiko percebe com irritação que continua checando as reações de Norika, querendo a aprovação de sua prima. Norika escuta atentamente, fazendo perguntas logísticas e perceptivas. "Como vocês organizam as doações da colheita?" "Quem coordena o trabalho de cozinha?"

Eles dobram uma esquina, discutindo como poços geotérmicos alimentam as forjas, e Norika para com um suspiro. Risona segura um machado em sua garganta. Guerreiros Insurgentes as cercam.

Risona rosna, "O passeio a pé acabou." Ela desloca o colarinho de Norika com seu machado. Heiko vislumbra um flash de turquesa sob a couraça de sua prima.

Chiye corre para Heiko e empurra para trás o cabelo dela para examinar o arranhão em sua têmpora. Eles se viram para olhar Norika de forma fulminante. "Um segundo e meio, Comandante, lembra?"

Heiko escolhe suas palavras com muito cuidado. "Está tudo bem. Risona, Chiye. A comandante e eu estamos chegando a um entendimento."

"Heiko," Risona repreende, "Imperiais falam em círculos. Eles a prenderão com palavras."

"Eu sei. Me escute. A comandante concordou em nos deixar os conteúdos do armazém Imperial. Eles vão parar de pressionar os fazendeiros por impostos Imperiais."

Risona avalia Norika, com o rosto cheio de desdém. "Isso é verdade, administradora?"

Norika fica quieta por um longo momento. Desesperadamente, Heiko bate o dedo do pé direito contra o calcanhar da bota esquerda. Por favor, apenas deixe rolar.

Norika respira fundo, dificultada pelo machado de Risona ainda pressionando sua garganta. "Eu honrarei esses acordos."

Heiko sente uma onda de alívio, mas Risona bufa. "Não é o suficiente. A lentidão Imperial continuará a deixar as pessoas morrerem. Remendar rachaduras na represa não faz nada, nós precisamos que a represa quebre"—

"Você faz um trabalho impressionante sustentando uma cidade, mas não é a mesma coisa que governar um reino." Norika fala calmamente. "O Conselho deve tomar decisões para cuidar de todos, não apenas as pessoas à nossa frente."

Heiko se pega admirando a compostura de Norika, e esperando que sua prima cale a boca antes que Risona a corte ao meio.

Risona rebate, "Se você deixasse as pessoas tomarem as decisões por si mesmas, você não teria que governá-las."

Norika diz, "Você é uma líder respeitada. Milhares a admiram. Tenho certeza que você sabe, nunca é tão simples."

"Poderia ser tão simples." A boca de Risona é severa. "Imperiais são os únicos que insistem em complicação."

"Deixem-nos nos deixarem em paz, então," Heiko intervém. Ela se sente frenética para que a discussão não ganhe proporções maiores, mas tenta manter sua voz tão firme quanto a de sua prima. Olhando para Norika, ela diz, "Os Imperiais não vão mais aplicar restrições sobre a tecnologia aqui. Vocês nos deixarão lidar com ladrões da nossa própria maneira. Sokenzanshi será uma cidade livre."

Norika observa Heiko com olhos profundos e indecifráveis. "Pode ser mais fácil considerar essas condições sem um machado na minha garganta."

Heiko assente, e para sua surpresa, Risona guarda a arma na bainha.

Norika massageia a clavícula. "Eu posso levar suas propostas para Naomi e o Conselho. Minha palavra não tem força sem a aprovação deles."

Chiye irrompe com uma risada. "Vê? Mais falar em círculos. Como sabemos que você vai argumentar com sinceridade?"

Agora Norika dá a Chiye a força total de seu olhar. Eles se observam por um longo momento. Finalmente, Norika diz, "Eu sei o suficiente sobre dor. Eu não quero ver mais disso do que eu preciso."

Os bules de Chiye param no ar. Eles assentem. "Estamos de acordo nisso. Teoricamente."

Risona se interpõe entre elas. "Mesmo que você mantenha sua palavra, o que eu duvido, isso não suprimirá a revolta. Os Imperiais causaram mais sofrimento do que você pode esperar compensar."

Heiko se prepara, mas Norika faz uma reverência. "Eu só espero, então, que você se lembre de que fui honesta com você."

"Ainda estou para ver isso." Risona faz um gesto para os guerreiros ao seu redor. "Nós a estaremos observando de perto. Heiko, acompanhe a administradora para fora de nosso território."


Elas refazem seu caminho para fora da cidade nevada. As luzes quentes das forjas brilham através das janelas ao redor delas. Heiko observa sua prima enquanto elas caminham. Ela consegue ver as engrenagens girando na mente de Norika. Comitês para falar e propostas para escrever. Pechinchas para oferecer, acordos para fazer. Especialistas para consultar, tecnologias para avaliar, regulamentos para rascunhar.

"Você realmente acredita nisso, não é?" Heiko pergunta.

Norika considera isso. "Não nas decisões que tomamos, não sempre. Mas eu acredito que estamos no caminho certo."

"Mesmo que isso leve à rebelião?"

Norika observa um floco de neve derreter na ponta do dedo. Ela se vira para Heiko, e seus olhos transbordam de tristeza e amor. "Mesmo assim."

[Heiko Yamazaki, a General | Arte por: Magali Villeneuve

Elas chegam ao posto avançado Imperial. Executores rondam a entrada junto com mechs e drones. Norika os sinaliza para que baixem a guarda. Seus gestos são graciosos, decisivos. Ela parece uma heroína de um livro de histórias, Heiko pensa. Soldados se reúnem a ela. Políticos cedem passagem. Até seus inimigos têm que respeitá-la.

Como se tivesse ouvido esse pensamento, os olhos de Norika se tornam nítidos. "Você acha que somos inimigas, prima?"

A resposta de Heiko é a coisa mais verdadeira que ela já disse, embora, ela não soubesse até hoje. "Não." Ela para depois dessa única palavra. Há muito mais a ser dito. Há uma década de vida levando-as em direções opostas. O idioma secreto delas da infância não tem gestos para nomear a distância agora entre elas. Heiko escolhe suas palavras com cuidado. "Mas eu ainda não sei se somos aliadas."

Norika acena com a cabeça para isso. "Eu concordo."

Elas apertam as mãos. Elas não se abraçam. Norika caminha por entre as fileiras de executores que a saúdam conforme ela passa. Heiko observa até que todos os soldados a tenham seguido para dentro e o pátio tenha ficado silencioso. Então ela se vira e começa a voltar pela encosta, em direção à cidade iluminada pelo fogo, onde ela sabe que sua família a aguarda.